Após morte de Soleimani, Irã promete vingança e EUA reforça contingente

Por Sebastian Smith
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Iranianos rasgam bandeira americana durante protesto em Teerã, 3 de janeiro de 2020, após o assassinato do general da Guarda Revolucionária Iraniana Qasem Soleimani em um ataque dos EUA em Bagdá

Um contingente extra de 3.000 a 3.500 militares americanos será enviado ao Oriente Médio depois de os Estados Unidos matarem em um ataque, nesta sexta-feira (3), o cérebro das Forças Armadas iranianas, general Qasem Soleimani, ao que Teerã prometeu uma "séria vingança".

O presidente americano, Donald Trump, disse que o general Soleimani foi morto quando estava prestes a atacar diplomatas americanos, mas insistiu em que Washington não visa a derrubar o governo de Teerã.

"Soleimani estava tramando ataques iminentes e sinistros contra diplomatas e pessoal militar americanos, mas o pegamos no ato", disse Trump na Flórida.

Referindo-se a esta personalidade iraniana - assassinado em um ataque com drone em Bagdá - como um "doente", Trump tentou reduzir as tensões, insistindo em que não quer a guerra com o Irã.

"Não agimos para iniciar uma guerra", disse Trump em pronunciamento na Flórida. "Nós não buscamos a mudança do regime".

Enlutado pela perda daquele que era considerado o segundo líder mais importante do país, o Irã explodiu.

Como líder do braço de operações estrangeiras da Guarda Revolucionária iraniana, Soleimani era uma figura respeitada em seu país e estava na vanguarda de um engajamento iraniano amplo e sofisticado em disputas de poder regionais e de forças antiamericanas.

O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, prometeu uma "vingança severa", enquanto dezenas de milhares de manifestantes queimaram em Teerã bandeiras americanas e repetiram "morte à América".

Autoridades americanas afirmaram que Soleimani, de 62 anos, foi morto por um míssil disparado por um drone quando estava perto do aeroporto internacional de Bagdá.

Cinco Guardas Revolucionários também morreram no ataque, juntamente com outros cinco membros da milícia iraquiana pró-Irã Hashed al-Shaabi, incluindo seu vice-líder.

O Irã nomeou como substituto de Soleimani seu vice, Esmail Qaani.

- Invasão à embaixada americana -

Soleimani era considerado um inimigo letal tanto por legisladores quanto por presidentes dos Estados Unidos. A gota d'água foi uma investida lançada por uma multidão pró-iraniana em Bagdá contra a embaixada americana esta semana.

Os manifestantes conseguiram incendiar parte do complexo, sitiando os diplomatas que estavam em seu interior.

Trump disse que Soleimani deveria ter sido morto "há muitos anos".

Mas outros presidentes antes dele recuaram diante daquilo que temiam ser um passo provocativo demais contra o Irã, que há décadas vive um enfrentamento com Estados Unidos e Israel.

Para Trump, que faz campanha pela reeleição com a plataforma de evitar guerras, a situação é de alto risco.

A embaixada dos Estados Unidos em Bagdá exortou todos os cidadãos americanos a deixarem o Iraque imediatamente e civis americanos que trabalham em campos petrolíferos no sul do país estavam sendo evacuados, informou o ministro iraquiano do petróleo.

Após reivindicar reiteradamente a retirada de tropas dos Estados Unidos de áreas de conflito, Trump decidiu enviar mais soldados ao Oriente Médio.

Um alto funcionário do Pentágono informou que de 3.000 a 3.500 militares da Força de Resposta Global da 82ª Divisão Aerotransportada, que já tinha enviado centenas de tropas de reforço no começo da semana, viajarão ao Kuwait.

Cerca de 14 mil novos soldados já tinham sido enviados como reforço ao Oriente Médio este ano, refletindo a escalada contínua nas tensões com o Irã.

Sinalizando as ameaças crescentes aos cerca de 5.200 militares posicionados no Iraque, um membro de alto nível da milícia Hashed, Hadi al-Ameri, pediu aos legisladores do país para "expulsarem as tropas estrangeiras porque sua presença se tornou uma ameaça".

- Iraque critica, Israel elogia -

O ministro iraniano das Relações Exteriores, Javad Zarif, atacou a ação militar americana como uma "escalada extremamente perigosa e tola", enquanto Khamenei declarou três dias de luto oficial.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, denominou o ataque de uma "violação flagrante" do acordo de segurança com os Estados Unidos, alertando que "provocará uma guerra devastadora no Iraque".

Personalidades paramilitares no Iraque, incluindo Qais al-Khazali e o miliciano transformado em político Moqtada Sadr - ambos inseridos em listas negras pelos Estados Unidos - pediram que seus combatentes estejam prontos.

E no Líbano, o líder do movimento xiita Hezbollah, apoiado por Teerã, Hassan Nasrallah, alertou para uma "punição destes assassinos criminosos".

Mas também houve espaço para comemorações audaciosas na Praça Tahrir, no centro de Bagdá, o epicentro de um movimento de protesto de três meses contra a corrupção e a influência iraniana.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, elogiou Trump "por agir rapidamente, vigorosamente e decisivamente", enquanto o Estado judeu se protegia de possíveis ataques em represália.

- 'Ataque de decapitação' -

Segundo analistas, o ataque - que fez os preços mundiais do petróleo dispararem - será um divisor de águas nas tensões entre o Irã e os Estados Unidos.

"Trump mudou as regras - ele queria (Soleimani) eliminado", disse Ramzy Mardini, pesquisador do Instituto da Paz americano.

Phillip Smyth, um especialista em grupos xiitas armados radicado nos Estados Unidos, descreveu o assassinato como "o maior ataque de decapitação que os Estados Unidos já lançaram".

Ele disse à AFP que haverá desdobramentos maiores do que na operação americana em 2011 que resultou no assassinato do líder da rede Al-Qaeda, Osama bin Laden, e da operação dos Estados Unidos em 2019 que resultou na morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi.

Os laços entre os Estados Unidos e o Irã se deterioraram claramente desde que Washington abandonou o acordo nuclear com Teerã, em 2018, e voltou a impor duras sanções à República Islâmica.