Desconfinamento prudente avança no mundo, com mais de 250.000 mortes por COVID-19

Por Paul HANDLEY com Jonathan BROWN em Moscou e escritórios da AFP no mundo
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Desinfecção em Jisr Al Shughur, na província de Idlib, Síria, em uma sala que abriga sírios em quarentena após seu retorno da Turquia em 27 de abril de 2020.

A suspensão do confinamento progredia nesta terça-feira (5) em vários países do mundo, na tentativa de reativar as economias atingidas pela pandemia de coronavírus, que já matou quase 255.000 pessoas e continua a avançar, principalmente em Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e Rússia.

O Reino Unido se tornou o primeiro país europeu a superar as 30.000 mortes por COVID-19, à frente da Itália e da Espanha, e se tornou o segundo mais afetado atrás dos Estados Unidos.

De acordo com várias agências de estatística da Grã-Bretanha, as mortes presumidas por COVID-19 somam 32.313, um recorde impensável há dois meses, quando os britânicos registraram seu primeiro óbito e o primeiro-ministro Boris Johnson seguia distribuindo apertos de mão antes de contrair a doença.

Nos Estados Unidos, apesar da queda nas infecções diárias e em meio ao abrandamento do confinamento em alguns estados, o governo previu uma continuidade das mortes, que já somam 68.700.

Washington estimou que a taxa de infecções poderia aumentar oito vezes para 200.000 por dia até 1º de junho, e o número de mortes diárias poderia subir para 3.000.

Mas o presidente Donald Trump insistiu novamente nesta terça-feira em se concentrar na reativação da economia.

"Precisamos abrir nosso país", disse o magnata da fábrica de máscaras respiratórias da Honeywell em Phoenix, Arizona. "Não podemos manter nossa economia fechada pelos próximos cinco anos".

No mundo, houve mais de 254.000 mortes (para 3.629.160 casos), cerca de 147.000 na Europa (1.595.147 casos), o continente mais afetado, segundo dados oficiais.

Enquanto isso, na América Latina, o Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro incentiva a abertura e desacredita as medidas preventivas, é de longe o mais afetado, totalizando 114.715 casos e 7.921 mortes.

Preocupado, o Uruguai aumentará o controle sanitário na fronteira comum.

Os mercados financeiros, por outro lado, encontraram algum alívio nesta terça-feira pela reabertura parcial na Europa e nos Estados Unidos, com aumentos nas ações e no preço do petróleo.

Mas nada conseguiu impedir a escalada de tensões entre os Estados Unidos e a China, após acusações do governo Donald Trump de que o vírus se originou em um laboratório chinês, uma teoria que a Organização Mundial da Saúde (OMS) descreveu como "especulativa".

- Rússia, novo foco de contágios -

Na Europa, a Rússia se tornou o novo foco do vírus, com o maior número de novas infecções e mais de 155.000 casos.

"Aparentemente, a ameaça está crescendo", disse o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, que pediu aos cidadãos que respeitem o confinamento.

O impacto do confinamento se refletiu na violência doméstica: as queixas no país mais que dobraram.

Essas projeções sombrias nos EUA surgem em meio à esperança de que o pico da pandemia tenha sido superado na maior parte da Europa após dois meses de confinamento, e quando vários países - encorajados pela desaceleração das infecções - amenizam as medidas restritivas.

A Baviera, o maior estado da Alemanha, anunciou a reabertura de restaurantes a partir de meados de maio, aumentando a pressão sobre a chanceler Angela Merkel para aliviar as medidas restritivas que levaram a economia à recessão.

Com muitas precauções, cerca de quinze estados relaxaram suas medidas de contenção na segunda-feira. Locais de culto e museus foram reabertos na Alemanha e filas se formaram em salões de cabeleireiros.

Na Itália, que sofreu um forte golpe da COVID-19, os parques voltaram a abrir.

A Espanha, outro dos países mais atingidos, com 25.613 mortes, iniciou um desconfinamento por fases, enquanto o desemprego afeta 3,83 milhões de pessoas, 8% a mais do que em março.

No Reino Unido, mais de seis milhões de pessoas estão sob o mecanismo de desemprego parcial.

A França se prepara para levantar sua quarentena na próxima semana e o prefeito de Paris anunciou que algumas ruas serão reservadas para bicicletas, para limitar a multidão no transporte público.

Países como Índia, Portugal, Sérvia, Bélgica, Áustria, Turquia, Israel, Nigéria, Tunísia ou Líbano também começaram a facilitar a liberdade de movimento.

- "Solidariedade global" -

Uma campanha apoiada pela OMS, mas desprezada por Washington, levantou US$ 8,1 bilhões para o desenvolvimento de uma vacina.

"Foi uma demonstração poderosa e inspiradora de solidariedade global", disse o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Cem projetos de vacinas estão em andamento em todo o mundo, dez em ensaios clínicos, de acordo com a London School of Hygiene and Tropical Medicine.

O Departamento de Estado insistiu em que os Estados Unidos liderassem a resposta global, com um gasto de mais de US$ 1 bilhão, juntamente com empresas farmacêuticas para uma vacina.

- Economia ou saúde -

O dilema entre a prevenção saúde e a necessidade de retomar as atividades paira sobre o mundo.

O Tesouro dos Estados Unidos anunciou um recorde de empréstimos de US$ 3 trilhões entre abril e junho para programas de alívio à crise.

O desastre afeta principalmente os mais vulneráveis, como os haitianos que trabalham no setor avícola, uma força de trabalho barata, mas vital, em um país que teme a escassez de carne.

"Gostaria de ficar em casa com meus três filhos, mas não tenho outra escolha", diz Tina, que trabalha em ama avícola em Delaware.

Isso ocorre no momento em que estados como a Califórnia, o primeiro no país a entrar em confinamento, começam a levantar algumas restrições.

Números ruins afetam diversas economias.

Na França, a petroleira Total anunciou nesta terça-feira uma queda de 99% no lucro líquido no primeiro trimestre, para US$ 34 milhões.

Na América Latina, a produção industrial do Brasil, o mais atingido na região, caiu 9,1% em março em relação a fevereiro, devido ao isolamento.

A região, que totaliza cerca de 285.000 casos e 15.000 mortes, também prepara um prudente desconfinamento. Mas permanecem as dúvidas sobre o início do inverno em vários países, com prognósticos assustadores de pobreza.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) pediu nesta terça-feira aos países das Américas para "serem cautelosos" com a diminuição das restrições, alertando que a transmissão da COVID-19 "ainda é muito alta" nos Estados Unidos, Canadá , Brasil, Equador, Peru, Chile e México.

Além disso, a América Latina lida com tumultos frequentes por causa vírus em suas prisões superlotadas, com mais de 80 mortos, o que levou os governos a libertar prisioneiros.

No final de semana na Venezuela, um tumulto deixou pelo menos 47 mortos e 75 feridos, segundo uma ONG.

- Beisebol na Coreia do Sul -

Na Coreia do Sul, o beisebol foi retomado a portas fechadas nesta terça-feira e o futebol volta na sexta.

Outras partes do mundo ainda estão confinadas. Montreal, no Canadá, decidiu manter as restrições por mais uma semana devido ao baixo número de leitos nos hospitais.

No Japão, o primeiro-ministro anunciou a extensão até 31 de maio do estado de emergência, menos severo do que na Europa.

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