Mortes de motociclistas em acidentes de trânsito crescem durante pandemia

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  • As médias de mortes registradas na cidade de São Paulo e em todo o estado paulista apontam tendência de alta na letalidade desses trabalhadores, que muitas vezes trabalham como entregadores de delivery, em jornadas exaustivas

  • Número de motociclistas mortos em 2020 foi 16,1% maior que em 2019, antes da pandemia

  • Associação que representa centenas de aplicativos de delivery foi questionada sobre o tema, mas não se posicionou

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Acidentes de trânsito mataram 809 pessoas na cidade de São Paulo em 2020. As principais vítimas, quatro em cada dez, eram motociclistas, segundo o relatório anual de acidentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), divulgado neste mês.

A letalidade dos motociclistas aumentou na comparação com o ano anterior. Em 2019 morreram 297 motociclistas. Já em 2020, foram 345, o que representa uma alta de 16,1%.

Janderson Reis, de 28 anos, morador de Perus, na Zona Noroeste da capital, trabalha com entrega de delivery por aplicativos para completar a renda, das 18h às 22h, pelas ruas e avenidas da cidade. “Tem que estar sempre atento. Não depende só de você e pode acontecer coisas muito ruins se ficar distraído. Tem muita gente trampando na rua o dia todo de aplicativo. Alguns vão até a meia-noite porque a taxa [paga pelos aplicativos] nem sempre está boa”, afirma.

O total de motociclistas entregadores na cidade de São Paulo não é conhecido porque a maioria deles faz parceria com mais de um aplicativo para aumentar as corridas. No geral, as taxas são maiores em dia de chuva e no final de semana à noite, quando também aumenta o perigo no trânsito. “É meio que comum ver acidentes. A gente tá passando e vê o motoca lá no chão, para e ajuda como dá”, relata o trabalhador.

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Mortes aumentaram com a pandemia

De acordo com o site Infosiga, ferramenta do governo do Estado de São Paulo que reúne dados atualizados sobre acidentes no estado de acordo com os registros da Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal, entre janeiro e abril de 2021, aconteceram 96 mortes de motociclistas e 249 mortes de pedestres na capital, em um total de 249 acidentes fatais. A média mensal é de 24 mortes de motociclistas por mês.

A tendência de alta na média de mortes de motociclistas se estabeleceu após o início da pandemia da Covid-19. Em janeiro e fevereiro de 2020, antes da pandemia, morreram 71 e 51 motociclistas. Em março, subiu para 92 mortes.

A dinâmica de entregas estabelecidas por alguns aplicativos, de certo modo, incentiva que os motociclistas rodem mais com menos tempo de descanso. Por exemplo, se um entregador recusa três entregas consecutivas, ele pode ficar até duas horas bloqueado, sem receber novas propostas de corridas.

A Associação Brasileira O2O, entidade que reúne 150 aplicativos, entre eles o Rappi, Bebida na Porta, Buy Go!, Click Entregas, Peixe Urbano, Wine, Zé Delivery, entre outros, foi procurada pela Alma Preta Jornalismo para comentar sobre as relações e práticas com os motocicletas parceiros na cidade de São Paulo.

Nota enviada pela O2O:

"A Associação Brasileira Online to Offline (ABO2O), entidade representativa de mais de 140 empresas da nova economia, ressalta que as plataformas digitais realizam constantemente campanhas educativas com os entregadores para segurança no trânsito. Além disso, as associadas não estimulam os profissionais a incorrerem em comportamento de risco. As empresas também oferecem, gratuitamente, seguros de que cobrem eventuais danos.

Com relação às hipóteses pelas quais o maior número de acidentes fatais ocorre, a ABO2O aplaude o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual coloca que a estratégia de redução de velocidade das vias públicas é uma das principais formas de reduzir as fatalidades no trânsito. Essa estratégia, em conjunto com o desenho do viário, são elementos caros à administração pública, que vem inclusive empreendendo esforços de educação no trânsito.

Nesse sentido, as associadas trabalham em estreita cooperação com a Prefeitura de São Paulo para o desenvolvimento de ações como educação para segurança no trânsito e campanhas para uso de equipamentos de proteção, com o intuito de diminuir o número de acidentes. Vale frisar que as campanhas educativas atacam questões comportamentais que podem estar associadas ao maior índice de acidentes, como a falsa sensação de segurança pelas ruas estarem mais vazias.

Dentro dessa agenda, a ABO2O também tem defendido a redução de tributos incidentes sobre os itens de proteção individual, como capacetes, protetores de perna e jaquetas, que são instrumentos importantes para evitar danos aos entregadores de aplicativo."

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