Mortes de profissionais de saúde crescem mais de 25% no 1º ano de pandemia no Brasil

João de Mari
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Health workers tend to a COVID-19 patient in the ICU ward at the Hospital das Clinicas in Porto Alegre, Brazil, Friday, March 19, 2021. (AP Photo/Jefferson Bernardes)
Health workers tend to a COVID-19 patient in the ICU ward at the Hospital das Clinicas in Porto Alegre, Brazil, Friday, March 19, 2021. (AP Photo/Jefferson Bernardes)
  • Mortes de profissionais de saúde crescem mais de 25% no 1º ano de pandemia no Brasil e chegam a 5.789 entre março de 2020 e fevereiro de 2021

  • Os óbitos são consequência direta dos desafios no combate à pandemia, de acordo com levantamento

  • Segundo o estudo, a tendência é de ainda mais mortes em 2021; apenas em janeiro e fevereiro foram 1.302 mortes entre os profissionais de saúde

A enfermeira Claudinéia Tavares espalhou carinho e dedicação ao cuidar sempre de sua família, dos amigos e dos muitos pacientes que atendeu durante os quase 20 anos em que atuou na Santa Casa de Ubatuba, no litoral de São Paulo. Neia, como era conhecida pelos amigos, faleceu aos 54 anos vítima da Covid-19, em setembro de 2020.

Esse é um trecho do testemunho enviado pelo colega da enfermeira, Luciano Santos Bastos, ao site Inumeráveis, memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil.

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Neia é apenas uma das pelo menos 5.789 vidas perdidas de profissionais de saúde de março de 2020 até fevereiro de 2021. O número representa um aumento de óbitos de 25,9% em relação ao mesmo período de 2019, quando houve 3.571 mortes.

De acordo com a Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), que fez o levantamento dos números, a alta é consequência direta dos desafios enfrentados por esses trabalhadores no combate à pandemia do coronavírus.

Segundo o estudo, a tendência é de ainda mais mortes em 2021. Apenas em janeiro e fevereiro foram 1.302 mortes entre os profissionais de saúde. 

Nos cálculos da Arpen, se os próximos meses continuarem com o mesmo ritmo, até o final do ano podem ser registrados até 7.812 óbitos nesse grupo.

Covid matou mais do que infarto e AVC

Das 5.798 mortes de trabalhadores da linha de frente do combate ao coronavírus, 1.411 foram diretamente por Covid-19, ou mais de 24% delas. Dessa mortes, 929 ocorreram em 2020 e outras 482 ocorreram apenas nos dois primeiros meses de 2021.

Para se ter ideia, morreram mais profissionais de saúde por Covid-19 em 2020 do que por doenças como infarto (295) e pneumonia (476), por exemplo. 

Em 2021, o coronavírus matou mais neste grupo do que AVC (derrame cerebral), que contabilizou 51 mortes, infarto (64) e pneumonia (101), entre outras doenças.

Mas, de acordo com o levantamento, esses óbitos também estão ligados ao combate à pandemia.

Estados com mais mortes

Até o momento, o estado em que mais trabalhadores da saúde morreram durante a pandemia foi o Rio de Janeiro, com 1.596 mortes por causas naturais. São Paulo ocupa o 2º lugar, com 1.563 vidas perdidas. Já o 3º na lista é o Paraná, com 692 mortes.

Seis estados são responsáveis por 89% (5.175) do total de mortes de profissionais de saúde:

  1. Rio de Janeiro (1.596)

  2. São Paulo (1.563)

  3. Paraná (692) 

  4. Bahia (497)

  5. Rio Grande do Sul (481)

  6. Minas Gerais (346)

Enfermagem é a área mais afetada

A área em que Neia atuava é a mais afetada pela Covid-19. De acordo com o levantamento, os profissionais da enfermagem totalizam 1.893 mortes desde o início da pandemia, aumento de 32% em relação a 2019. 

Nos dois primeiros meses de 2021, o número de mortes também cresceu quando comparado ao mesmo período do ano passado. Foram 24% mais vítimas. Se a tendência for mantida, serão 2.200 profissionais de enfermagem mortos até o fim deste ano.

Nurse Bruna Lemos, 35, shows the certificate after receiving a dose of the Sinovac Biotech's CoronaVac against COVID-19 in Niteroi, Rio de Janeiro state, Brazil, on January 19, 2021. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Já entre os médicos, foram registradas 695 mortes de março de 2020 a fevereiro de 2021 — aumento de 28,8% nas fatalidades por morte natural entre os profissionais (Foto: MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)

Já entre os médicos, foram registradas 695 mortes de março de 2020 a fevereiro de 2021 — aumento de 28,8% nas fatalidades por morte natural entre os profissionais. 

No primeiro bimestre de 2021, a alta acelerou ainda mais: o número de médicos que morreram em janeiro e fevereiro é 35% superior ao observado no mesmo período do ano passado.

Para o levantamento, a Arpen-Brasil considerou 12 profissões da área de saúde: biomedicina, educação física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, odontologia, psicologia, radiologia, nutrição, gestão hospitalar, estética e cosmética e ciências biológicas. A profissão é um dos campos preenchidos em certificados de óbito em cartórios brasileiros.

Segundo a Arpen-Brasil, os números completos para cada profissão ainda serão divulgados no Portal da Transparência do Registro Civil.

Vacinação em São Paulo

A partir desta segunda-feira (5), a cidade de São Paulo começou a vacinar profissionais de saúde a partir dos 52 anos contra a covid-19. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, serão imunizadas cerca de 10 mil pessoas.

Estão incluídos profissionais de saúde, como:

  • Médicos

  • Enfermeiros

  • Técnicos e auxiliares

  • Nutricionistas

  • Fisioterapeutas

  • Terapeutas ocupacionais

  • Biólogos

  • Biomédicos e técnicos de laboratórios que façam exames de covid-19

  • Farmacêuticos e técnicos de farmácias

  • Odontólogos e técnicos de saúde bucal

  • Fonoaudiólogos

  • Psicólogos

  • Assistentes sociais

  • Profissionais de educação física

  • Médicos veterinários

A Secretaria Municipal de Saúde reforça que, mesmo após a vacinação, é necessário manter o distanciamento social, usar máscaras e fazer a higiene das mãos. A vacinação acontece nas 468 Unidades Básicas de Saúde da capital, nos 19 postos drive-thru, AMAs com UBS integrada e centros-escola.

Até o último dia 3, a cidade de São Paulo havia aplicado 1,8 milhão de doses da vacina contra a Covid-19.