Mortos em atentado em Cabul passam de 100, e remoção de civis continua apesar do risco de novos ataques

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CABUL — Os voos de remoção foram retomados no aeroporto de Cabul nesta sexta-feira, um dia após ao menos 85 pessoas morrerem no ataque reivindicado pelo braço afegão do Estado Islâmico, conhecido pela sigla em inglês Isis-K. A operação de retirada entra em sua reta final em nível máximo de alerta, perante o risco de novos ataques do grupo terrorista, um inimigo comum dos Estados Unidos e do Talibã.

As duas explosões que ocorreram nos arredores do aeroporto — a primeira, em um posto de segurança coordenado pelos americanos e a segunda, em um hotel a poucos metros dali — deixaram ao menos 95 afegãos mortos, disseram autoridades do país à agência Associated Press nesta sexta.

À Reuters, integrantes do Talibã e do órgão de saúde da capital afirmaram que pelo menos 28 integrantes do grupo fundamentalista estariam entre os mortos, algo negado pelo porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid. O grupo, que tomou o poder em Cabul no último dia 15, tem feito a segurança das vias de acesso ao aeroporto, cujo perímetro continua sob controle de forças americanas e dos seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Entre os militares americanos, as detonações deixaram 13 mortos e 18 feridos, sendo o incidente mais mortal envolvendo soldados do país no Afeganistão em 10 anos. Ao reivindicar a autoria do ataque, o Isis-K disse que mirava “intérpretes e colaboradores do Exército dos EUA”.

Imagens que circulam na internet mostram dezenas de corpos em uma vala nos arredores do aeroporto, onde milhares de afegãos se aglomeravam em busca de voos de fuga desde que o Talibã retornou ao poder, no último dia 15. Mesmo após o atentado de quinta-feira, diz a Associated Press, o número de pessoas nos arredores do aeroporto continua similar.

— Após a explosão, eu decidi que tentaria [fugir] porque tenho medo que haja mais ataques, e agora acho que preciso sair — disse à AP um homem que se identificou apenas como Jamshad, que foi para o aeroporto com sua mulher e três filhos, carregando o convite de um país ocidental que preferiu não identificar.

O embarque, contudo, torna-se cada vez mais improvável: a prioridade de evacuação é para cidadãos estrangeiros e afegãos que trabalharam para as forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e receberam vistos dos países da aliança militar ocidental. Além disso, o prazo limite para que os países estrangeiros retirem suas tropas do país da Ásia Central após 20 anos de invasão se encerra em quatro dias.

Em meio ao risco acentuado de novos atentados — em sua entrevista coletiva na quinta, o chefe do Comando Central americano, Frank McKenzie, alertou que o modus operandi do Isis-K inclui bombardeios repetidos — e a aproximação do prazo, vários países já encerram suas operações.

O último voo que retirava cidadãos da Alemanha e aliados afegãos, por exemplo, desembarcou em Frankfurt nesta sexta. Cerca de 300 alemães, disse Berlim, permanecem no Afeganistão. Espanha, Suécia, Holanda e Austrália também encerraram suas operações em Cabul.

O Reino Unido, país que tinha o segundo maior contingente em solo afegão, está se preparando para terminar sua missão em “algumas horas”, disse o ministro da Defesa britânico, Ben Wallace. Segundo ele, a tendência é que o risco de novos ataques aumente conforme o prazo derradeiro para a saída das tropas internacionais se aproxima:

— A narrativa sempre vai ser que, enquanto nós saímos, certos grupos como o Isis-K vão querer reivindicar que expulsaram os Estados Unidos ou o Reino Unido — afirmou em uma entrevista à Sky News.

Os americanos, indicou o presidente Joe Biden em seu discurso na quinta-feira, pretendem continuar as operações até mais perto do fim do mês. Para a Reuters, um funcionário de segurança ocidental no aeroporto de Cabul disse que o ritmo dos voos acelerou nesta sexta-feira.

Na quinta, 12.500 pessoas foram evacuadas de Cabul, disse a Casa Branca na manhã desta sexta, elevando o total de pessoas retiradas para cerca de 105 mil desde 14 de agosto. Segundo McKenzie, o chefe do Comando Central, ainda há cerca de mil cidadãos americanos no Afeganistão.

Há também cerca de 250 mil afegãos que trabalharam ao lado dos americanos que ainda não foram evacuados, segundo o New York Times. Nem todos eles, contudo, cumprem todas as burocracias necessárias para ter direito aos vistos especiais americanos. Funcionários da Casa Branca e de aliados ocidentais reconhecem que milhares ficarão para trás conforme o fim da operação de resgate se aproxima.

Testemunhas ouvidas pela Reuters afirmam que os talibãs continuam a bloquear o acesso ao aeroporto nesta quinta, mas há relatos de que pessoas com passaportes ocidentais ou vistos têm passagem liberada. Em paralelo, parentes de vítimas foram à região nesta quinta atrás dos corpos de seus parentes.

Teme-se que o número de vítimas continue a subir: os necrotérios da cidade estão cheios e muitos parentes estão retirando corpos das cenas das explosões, disse para AP um funcionário do governo afegão que pediu anonimato pois não havia sido autorizado pelo Talibã a conversar com a imprensa. De acordo com a agência, há ao menos 10 corpos nos arredores do hospital Wazir Akbar Khan, na capital.

Tanto a Rússia quanto a China, ambas interessadas na estabilidade da região, condenaram “com veemência” o ataque do Isis-K, e o Kremlin alertou que os riscos de ataques continuam altos. A China se preocupa especialmente com as relações dos talibãs com o Movimento Islâmico do Turquestão (Etim, na sigla em inglês), que recebeu treinamento e armas da al-Qaeda para lutar pela independência de Xinjiang, província no leste da China onde metade da população é muçulmana, a maioria da etnia uigur.

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