Mortos em Paraisópolis: Denys, 16, queria se alistar; Luara, 18, sonhava ser veterinária

Foto: AP Photo/Nelson Antoine
Foto: AP Photo/Nelson Antoine

"Seu filho é lindo, né?!", se gabava Denys Henrique Quirino, 16, entre uma conferida do topete no espelho e uma selfie, gargalhando da mãe, Maria Cristina, 40.

Originária da Brasilândia, na zona norte da capital paulista, a família tinha se mudado para o bairro do Limão, na mesma região; e há duas semanas, foram morar em Pirituba, também próximo dali.

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Foi de lá que Denys pegou o ônibus e desembarcou, duas horas depois, em Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, na zona sul. Naquela noite de sábado (30), ele e um amigo estavam animados com a segunda ida ao famoso baile funk DZ7.

"Ele não me contou porque sabia que eu não gostava. Sempre brigava quando chegava em casa. Dessa vez, não deu tempo", diz a mãe, uma semana depois de perceber que o terceiro dos quatro filhos que criara sozinha figurava a lista dos nove mortos durante ação da polícia no pancadão.

Denys tinha acabado de conseguir o primeiro emprego, em uma tapeçaria. Mostrava orgulhoso fotos das mansões pelo Morumbi e Alphaville onde ia limpar carpetes e estofados. Largou o colégio para investir em cursos técnicos na área. Com o salário, comprou pela primeira vez, a prazo, um celular.

No próximo ano, ele pretendia se alistar e servir no Exército --Maria Cristina sempre quis ver um dos garotos nas Forças Armadas. Denys repetia: "Mãe, eu não quero ser burro", antes de prometer que voltaria a estudar e que ganharia grana suficiente para comprar uma casa melhor para a família.

Galanteador, também dizia que hora ou outra ia apresentar à mãe a primeira namorada. Para ela, era mais um sinal de que ele tinha entrado de vez na adolescência --o primeiro foi quando soube que Denys começara a, vez ou outra, beber e até a fumar cigarro.

Mas, em casa, ele ainda era criança. Chamava Maria Cristina de mamãe, pedia bênção e dormia com o ursinho que tinha desde o berço, o Hebert. Por vezes, pulava para a cama da matriarca.

O garoto era o retrato de tantos outros da quebrada. De camisa do Corinthians, estava sempre ou jogando bola e empinando a bicicleta pelas ruas do bairro ou dançando funk. Mandava muito no passinho do romano e na sarrada no ar.

"Passava o dia todo cantando, fazendo rima, até me irritava", diz a mãe, que logo era contornada por Denys com um "te amo, sua veia chata".

Agora, o irmão Danylo, 19, se pergunta: "O que eu vivi nesses três anos a mais que ele não vai poder viver?"

Antes daquela madrugada, Maria Cristina tinha admiração pela polícia. Ela chegou a defender a corporação assim que soube do caso do baile da DZ7 --antes de ver os vídeos que mostram agentes agredindo jovens e os encurralando em vielas estreitas da favela.

Vestir farda era o sonho da filha caçula, Sabrina, 8. "Depois que ela viu o que aconteceu com o irmão, disse: 'Mamãe, eu não quero mais ser polícia'".

A família contesta a versão oficial, de que os jovens morreram em decorrência de um pisoteamento após a multidão se dispersar no baile que reunia 5.000 pessoas.

Eles argumentam que em nenhuma das imagens que pipocaram nas redes sociais aparecem cenas de pisoteamento e que o corpo do garoto não tinha marcas de sapato.

"Tinha feridas de bala de borracha e o rosto desfigurado como quem levou muito porrada na cabeça, foi espancado", afirma Maria Cristina. "Meu filho não foi pisoteado, mas brutalmente assassinado."

Denys faria 17 anos na virada do ano. "Esse vai ser o pior 31 de dezembro da minha vida", diz sua mãe.

Outra vítima da ação que deixou rastro de sangue em Paraisópolis naquela madrugada, Luara Victoria Oliveira tinha acabado de completar a maioridade. Ela também levou duas horas de ônibus do Jardim Primavera, na região do Grajaú (zona sul), até o baile funk.

Dançar era a maior diversão da garota, que perdeu o pai e a mãe nos últimos anos e deixou de morar com a avó para dividir poucos cômodos com uma amiga. Há cerca de três meses, ela largou os estudos para se dedicar a encontrar o primeiro emprego e conseguir bancar suas despesas.

Para o baile, Luara alisava o cabelo com chapinha, escolhia a roupa a dedo e por vezes apostava no batom vermelho. Mas "só quando queria chamar atenção", conta a amiga Stefany Silva, 16.

Fazia sucesso mandando o passinho, mas a unanimidade era a risada escandalosa, que, junto a baixa estatura, lhe rendeu o apelido de calopsita. "É que ela era pequena, engraçada, parecia um passarinho", diz Stefany.

"Ela era uma mina papo reto, sabe? Não tinha mágoa de ninguém", conta outra amiga, Julia Silva, 15. "Perdoava até quem fazia mal."

Fissurada em motos, a garota sonhava com o dia em que teria uma. Também sonhava com a possibilidade de se formar veterinária --Luara era louca por bichos.

Mas antes disso, queria realizar um desejo mais simples: ir à Arena Corinthians ver um jogo do Timão. Não deu tempo.

***Por Thaiza Pauluz, da Folhapress