Em Moscou, 100.000 câmeras vigiam os confinados e todos os demais

Por Victoria LOGUINOVA-YAKOVLEVA
Mulher usando máscara facial, em meio a preocupações com o coronavírus, passa por prédio de escritórios no centro de Moscou, em 24 de março de 2020

Em Moscou, o reconhecimento facial tornou-se uma ferramenta essencial na estratégia para lutar contra o coronavírus, apesar dos detratores dessa tecnologia controversa denunciarem que, a longo prazo, poderia ser usada para fins políticos.

Desde fevereiro, milhares de moscovitas, e especialmente aqueles que retornaram de países afetados pela COVID-19, foram submetidos a um regime estrito de confinamento por 14 dias, a fim de limitar a propagação da epidemia.

Todos foram catalogados com seus endereços, números de passaporte e de telefone em um banco de dados da capital, com 16 milhões de habitantes e visitantes diários.

Qualquer violação do regime de isolamento pode custar uma multa ou prisão, e até expulsão do país no caso de estrangeiros.

"O respeito a esse regime é monitorado permanentemente, principalmente por meio do sistema de reconhecimento facial", alertou o prefeito de Moscou, Serguei Sobianin, em seu blog.

O poder do sistema é baseado em uma rede muito bem tecida, pois não há rua que escape às 170.000 câmeras instaladas ao longo de uma década em nome da ordem pública.

Cerca de 100.000 estão conectadas a sistemas de inteligência artificial capazes de identificar as pessoas filmadas. As demais 70.000 farão o mesmo em breve.

A polícia de Moscou indicou que identificou, desde fevereiro, quase 200 pessoas que violaram a quarentena, graças a essa rede de câmeras.

O país também recorre a outras tecnologias para combater o coronavírus, desde a telemedicina à vigilância dos supermercados e das redes sociais.

O presidente, Vladimir Putin, visitou nesta terça-feira um novo centro de monitoramento da epidemia de coronavírus na Rússia.

- Duas mulheres chinesas e seus 600 vizinhos -

Segundo Sobianin, esse centro de controle possui os contatos e o local de trabalho de 95% das pessoas que viajaram para os países mais afetados pela pandemia.

Desde fevereiro, o prefeito elogia a eficácia desse controle de cidadãos, dando o exemplo de uma chinesa que não cumpriu a quarentena, uma amiga que a visitou e o motorista de táxi que transportou a segunda. Conclusão: as autoridades compilaram os dados pessoais dos 600 vizinhos das duas mulheres.

O prefeito explica que as câmeras também são usadas para monitorar o abastecimento dos supermercados e, assim, evitar a escassez.

O sistema de videovigilância reforçado pelo reconhecimento facial foi testado pela primeira vez no verão de 2018, durante a Copa do Mundo, mas seu uso se generalizou apenas em janeiro de 2020. Pouco antes da epidemia.

"A probabilidade de o nosso algoritmo de reconhecimento facial cometer um erro é de 1 em 15 milhões", disse à AFP Alexandre Minin, CEO da empresa NtcheLab, que venceu a licitação da prefeitura de Moscou.

Seu dispositivo, que também foi exportado para a China (líder mundial no assunto) e América Latina, é capaz de identificar pessoas apenas pela silhueta "em 80% dos casos".

As tecnologias de vigilância russa e chinesa, as mais avançadas do mundo, foram exportadas para cem países, diz Valentin Weber, especialista em segurança cibernética da Universidade de Oxford, em um estudo publicado no final de 2019.

- Liberdades públicas -

"Como as leis de proteção de dados são mais rígidas na Europa, o reconhecimento facial não foi implementado em larga escala. As empresas russas e chinesas têm menos restrições legais na coleta e no uso de dados pessoais do que seus pares europeus", explica Weber.

Antes da pandemia de coronavírus, especialistas e opositores criticaram esse "Big Brother" e o risco de o governo usá-lo para monitorar rivais políticos e restringir as liberdades públicas.

"É o argumento da segurança que sempre justifica a perda de privacidade e liberdade pessoal. É aí que reside o maior problema", opina o pesquisador francês Baptiste Robert.

Alexandre Minin afirma que confia nas autoridades e que as imagens e "informações sobre as pessoas não são mantidas no mesmo banco de dados".

Segundo ele, esses dados são interligados apenas em caso de necessidade real, seguindo um procedimento rigoroso confiado às forças de segurança.

No entanto, os mais críticos não escondem suas dúvidas, principalmente porquê a vigilância para fins políticos não é novidade para os russos: nos tempos soviéticos, a temida polícia secreta KGB era reputada de ter olhos e ouvidos em todos os lugares.

Aliona Popova, advogada e ativista, apresentou uma queixa contra o uso do sistema de reconhecimento facial durante uma manifestação autorizada que ocorreu em 29 de setembro de 2019 em Moscou.

Segundo ela, câmeras foram colocadas nos detectores de metal pelos quais os manifestantes precisavam passar antes de participar da marcha.

Sua denúncia não teve êxito, mas sua petição contra o reconhecimento facial na página change.org coletou quase 75.000 assinaturas, antes da pandemia de COVID-19.