Mosquito latinoamericano é mais propenso a transmitir zica que o africano

Rafael Garcia
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G. Murray/B. Daures/L. Lambrechts
G. Murray/B. Daures/L. Lambrechts

SÃO PAULO - Um estudo liderado pelo Instituto Pasteur, da França, testou a susceptibilidade de mosquitos Aedes aegypti originários de oito países diferentes e mostrou que os insetos africanos são menos propensos a transmitir o vírus da zica do que as linhagens americanas e asiáticas.

Em artigo científico publicado na revista "Science", os pesquisadores liderados por Fabien Aubry descrevem a descoberta. O trabalho ajuda a explicar por que epidemia da doença que varreu a América Latina e partes da Ásia entre 2015 e 2017 afetou pouco o continente africano.

O trabalho também mostra quais são alguns segmentos de DNA do animal responsáveis por determinar essa susceptibilidade ao patógeno, e abrem caminho para novas estratégias de biologia molecular contra o zica.

Para apontar quais mosquistos eram mais resistentes, os cientistas criaram 14 colônias de insetos a partir de espécimes vivos colhidos nas três regiões em questão.

Na América Latina, foram usados insetos de Colômbia, Guiana e Guadalupe. Da África, saíram de Uganda, Gabão e Camarões. E da Ásia foram usados mosquitos da Tailândia e do Camboja. Todos foram expostos ao vírus que esteve, há cinco anos, associado a casos de microcefalia e problemas neurológicos no Nordeste brasileiro e outras regiões do continente.

No estudo da "Science", os cientistas descrevem como mosquitos de cada uma dessas colônias foram alimentados de maneira controlada com sangue contendo diferentes concentrações de vírus de várias linhagens da zica. Os Aedes africanos se mostraram tão refratários à contaminação, que mesmo linhagens do vírus provenientes do mesmo continente eram mais bem transmitidas por mosquitos do Sudeste Asiático e da América Latina.

Numa segunda parte do trabalho, os pesquisadores fizeram um experimento expondo camundongos de laboratório infectados com o zica a mosquitos do Gabão e de Guadalupe. Após uma semana até 47% dos mosquitos caribenhos ainda se mostravam infectados. Os mosquitos africanos, por outro lado, mantinham a infeção por até dois dias, mas ao fim da semana a taxa de infecção já era de 0%.

Essa foi a primeira prova controlada para a hipótese de que a linhagem do inseto vetor explica parte do diferenças geográfico da epidemia. A teoria de que a população humana africana teria mais imunidade ao vírus, por outro lado, sai enfraquecida.

"A baixa prevalência de anticorpos neutralizantes contra o zica observada na África já tornava improvável que a imunidade coletiva seria o fator mais importante a prevenir surtos de zica", escrevem Aubry e seus coautores.

Genética e evolução

Ao cruzar mosquitos e analisar seu DNA, os pesquisadores também conseguiram determinar uma região específica de um dos cromossomos dos insetos onde estão os genes que provavelmente determinam essa susceptibilidade.

A principal razão para a emergência das diferenças, dizem os cientistas, é ecológica. Os Aedes aegypti africanos, eles explicam, são em sua maioria habitantes de florestas, enquanto os mosquitos que invadiram outros continentes colonizaram ambientes majoritariamente urbanos.

"O zica (na África) normalmente circula em ciclos silváticos que envolvem outras espécies de mosquito além do Aedes aegypti, reduzindo oportunidades para a seleção natural agir", escrevem.