Mostra de artista naïf de 92 anos elogiada por Chico Buarque reúne poesia e política

Em seu trabalho como pintora de arte naïf, Gloria Barbosa, de 92 anos, tem como tema a fé, as tradições, as moradias, as festas e outras cenas e memórias que fazem parte da cultura brasileira. Na exposição que acaba de ser inaugurada no Atelier Casa4 de Arte e Filosofia, na Vila do Largo (Rua Gago Coutinho 6), em Laranjeiras, o recorte é poético e político também. Na mostra “Poesia e democracia: de Gonçalves Dias a Chico Buarque”, Gloria se inspirou em seis nomes para pintar 13 telas a óleo. E Chico, ao retribuir a carta feita de próprio punho por dona Gloria, não poderia ter sido mais gentil. De Paris, enviou um áudio para a artista agradecendo a homenagem e reservando duas das telas que compõem a exposição: “Tua cantiga” e “Construção”. Além de elogiar as pinturas que reservou, a última frase do áudio resume tudo: “Gloria, sou seu fã”. As outras são privadas, já que a família formou um pacto de não repassar a mensagem do escritor, cantor e compositor por ser algo muito íntimo e especial.

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— Mostro que até hoje trabalhadores e as pessoas menos favorecidas precisam ainda lutar pelos seus direitos. Foi muito especial receber essa resposta do Chico, porque sou admiradora de toda a sua obra. Chico foi muito delicado comigo. Ele fala de uma maneira muito bonita sobre a nossa gente humilde — diz dona Gloria.

Gonçalves Dias, valorizando indígenas; Castro Alves, valorizando negras e negros; Olavo Bilac, valorizando o amor à singular cultura brasileira; Cora Coralina, valorizando as mulheres; e Manoel de Barros, valorizando a natureza, também são homenageados pela arte criativa, lúdica e colorida de dona Gloria. A exposição mostra as flores, as vozes, as tristezas, os amores e as esperanças do caminho, na composição de um futuro mais verdadeiro, justo e inclusivo.

No evento de abertura, o Coral Encanta Santa, de Santa Teresa, interpretou músicas de Chico. Antes disso, dona Gloria fez uma breve declaração, que incluiu recitar de cor um trechinho de “Navio negreiro”, de Castro Alves.

Moradora do Leblon, dona Glória se casou aos 22 anos com um tenente. Tiveram quatro filhas. De norte a sul, ela morou em várias cidades no Brasil. No final dos anos 1960, viveu três anos em Paris. Depois de voltar da capital francesa, fez um curso de arte no Parque Lage.

Ela conta que começou a pintar de forma autodidata. E na pandemia, sem poder ter contato com toda a família, foi a arte que a salvou da tristeza ao ler diariamente as notícias nos jornais.

—Sofri com todas as notícias ruins. Uma grande amiga perdeu a filha... A arte salva e me salvou. Fico sentada pintando e esqueço um pouco de tudo — diz.

Ela conta que, quando começou no mundo das artes plásticas, pintava sem saber que o que fazia era arte naïf.

—Antigamente, essa era considerada uma arte menor. Hoje, está muito mais valorizada — afirma.

Até a morte do marido, há 13 anos, ela se dedicava à família. Viúva, decidiu deixar Brasília e voltar a morar no Rio de Janeiro.

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