Motorista de aplicativo é esfaqueado e morre na porta de hospital no Rio

Rafael Nascimento de Souza
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O motorista de aplicativo Alexandre Jorge Monteiro de Sousa, de 40 anos, morreu na porta do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), na Zona Norte do Rio, no fim da noite de segunda-feira. Ele havia acabado de terminar uma corrida na Comunidade do Parque União, também em Bonsucesso, quando teria sido atacado a facadas. Ferido, Alexandre chegou a dirigir por cerca de três quilômetros em busca de socorro na emergência do hospital. No entanto, o motorista acabou morrendo dentro do seu carro, um Fiat Uno vermelho, sem ter recebido atendimento ou ser abordado por seguranças. Segundo testemunhas, Alexandre estava com várias marcas de perfurações pelo corpo — muitas delas no pescoço. Até o fim da madrugada, o veículo ficou em cima da calçada do hospital, onde um cartaz informa "Não temos emergência". O corpo da vítima está no Instituto Médico Legal (IML) do Centro do Rio. Esta é a segunda morte de motorista de aplicativo no Rio em menos de uma semana.

Uma câmera de segurança de um estabelecimento nas proximidades do hospital flagrou o momento em que Alexandre chegou ao local, às 23h53m, pela contramão da Avenida Londres e parou em frente à emergência do hospital, que estava com as luzes apagadas. Ele não chegou a descer do carro. Quase uma hora depois, à 0h52m, uma viatura da PM veio na contramão e estacionou perto do local. Dois PMs desceram para lanchar. À 0h56m, os seguranças do hospital se aproximaram e olharam o carro de Alexandre. Em seguida, eles chamaram os agentes que estavam lanchando. Um minuto depois, os PMs foram até o carro do motorista de aplicativo.

A esposa da vítima, a enfermeira Samila de Souza Barbosa da Silva, de 32 anos, acompanhou a perícia da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) no corpo e no carro de Alexandre. Muito abalada, ela desabafou sobre a atitude dos seguranças do HFB e afirmou que houve "negligência":

— Eu, como profissional da saúde, me sinto derrotada. A gente faz um juramento e aqui esse juramento não existiu. Foi negligência. Os seguranças, aos invés de abrirem o hospital (para salvar o meu marido), eles só chamaram a polícia. Eles poderiam ter salvo o meu marido. A pessoa morre pedindo socorro e ninguém faz nada? É isso? Ele não era ladrão. Era trabalhador. Porque o ladrão está vivo e ele ali morto. Faz o que agora? Chora? Enterra? Ele é só mais uma estatística agora, né?

A direção do HFB não se pronunciou sobre o caso da morte de Alexandre.

Horas antes de ser morto, Alexandre havia acabado de inaugurar uma lojinha de frango assado em Santíssimo, na Zona Oeste do Rio, a poucos metros de onde morava. Um sonho que havia sido realizado depois de muito sacrifício. Após a festa de inauguração, como todo dia normal, ele saiu para fazer corridas.

— A gente acredita que ele tenha sido atacado na altura do Parque União. Eles não levaram nada. Provavelmente ele tenha reagido ao assalto. Tínhamos aberto uma loja para a gente comprar uma casa — contou Samila.

Segundo a enfermeira, que estava vivendo com Alexandre havia quatro anos, por medo de assaltos, o marido pedia que a companheira o acompanhasse pelo GPS do carro durante as corridas noturnas. E ontem não foi diferente. Entretanto, ela diz que estranhou a demora do marido, que iria pega-lá em Bonsucesso, após a última corrida.

— Eu achei estranho a demora e fui até a porta do hospital. Fiquei achando estranho porque ele nunca se atrasa. Eu ainda mandei uma mensagem perguntando se ele estava dirigindo. Como eu vi que ele estava parado na porta do hospital, eu pensei: Vou ir lá e dar um susto nele. Ainda achei que ele estivesse aqui descansando, já que o local é ponto de descanso. No entanto, quando cheguei eu que tomei um susto. O meu marido já estava morto — lembrou a técnica de enfermagem.

Na manhã desta terça-feira, um paciente identificado como Marco, de 21 anos, agredido no Parque União, inicialmente, após ser levado ao HFB, também não foi atendido na unidade. Com a negativa, amigos do rapaz chegaram a ligar para o Serviço de Atendimento de Urgência (SAMU). No entanto, minutos depois, Marco foi atendido, conforme testemunhou reportagem de O GLOBO. Segundo funcionária do HFB, existe emergência na unidade de saúde. Ela estaria funcionando no anexo 2 do complexo de prédios.

— Eles não atenderam o motorista porque não quiseram. Foi negligência dos seguranças e de quem estava aqui. Atendemos as pessoas lá na emergência — disse uma funcionária do HFB que não quis se identificar.