Motorista é agredido por PMs dentro de casa após reclamação de barulho feita por vizinhos

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Por Beatriz Drague Ramos

Quatro policiais militares espancaram o motorista de aplicativo Henrique Melo Cotrim, 23 anos, na madrugada de domingo (23/5) dentro da residência de sua mãe, no Itaim Paulista, zona leste da cidade de São Paulo. O jovem foi agredido com cassetetes, além de ter sido golpeado diversas vezes com socos no rosto e pisões.

O caso aconteceu por volta das 4h, quando a família encerrava uma festa da sobrinha de Henrique e os policiais militares Pedro Candelaria Junior e Hudson Axley da Silva Cruz chegaram no local após receberem uma ocorrência via Centro de Operações da Polícia Militar do Estado de São Paulo (Copom) relacionada a som alto. Além dos dois PMs, os policiais militares Vinicius Tizolin dos Santos e outro não identificado também estava na ocorrência.

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Segundo o boletim de ocorrência, o motorista estava embriagado e discutia com uma pessoa da família dentro de casa. Instantes antes da chegada dos policiais, ainda segundo o documento, Henrique queria embarcar em um veículo para ir embora, mas foi impedido pelos PMs que chegaram e tiraram Henrique de forma violenta do veículo.

Henrique conta em entrevista à Ponte, que as agressões começaram nesse momento, quando ele saiu do carro e correu para dentro de casa e fechou a porta. Inconformados, os PMs invadiram a residência de forma truculenta e agressiva, arrombaram a porta e entraram agredindo também familiares do jovem. “Quando entrei dentro do carro para ir embora, os policiais já vieram me agredir, agrediram minha mãe, minha família, me derrubaram no chão. Eles arrombaram a porta, me deram murros, não deixaram ninguém entrar na casa da minha família”.

Segundo Henrique, os PMs fecharam a porta da casa e cometeram diversas agressões contra o jovem| Foto: Henrique Melo Cotrim
Segundo Henrique, os PMs fecharam a porta da casa e cometeram diversas agressões contra o jovem| Foto: Henrique Melo Cotrim

De acordo com Henrique, mais de 15 policiais militares se juntaram na porta da residência e seguraram o portão da garagem para que a família não entrasse na casa. “Depois me algemaram, me levaram para o hospital e depois para a delegacia de camiseta e cueca, tiraram a minha bermuda”.

No BO os policiais Pedro Candelaria Junior e de Hudson Axley da Silva Cruz, condutor da ocorrência, apontam que Henrique começou as agressões quando foi forçado a sair do carro e que também teria chamado os policiais de “arrombados” e de “ratos de cinza”.

Em seguida, os policiais alegam que conseguiram tirar Henrique do veículo, momento em que ele acertou um soco no rosto do Vinicius Tizolin dos Santos. Posteriormente, familiares de Henrique intervieram, tomando-o dos policiais e levando-o ao interior da residência. Nesse momento, pediram mais apoio policial e passaram a conversar com os parentes de Henrique a fim de que ele se entregasse.

Logo depois, os policiais afirmam no BO que adentraram à residência e capturaram Henrique, que continuava a não aceitar a prisão. Posteriormente, foram ao Hospital Santa Marcelina do Itaim, onde passaram por atendimento médico Henrique e o PM Tizolin. Por fim, conduziram os envolvidos ao 50º DP (Itaim Paulista).

No documento policial, a irmã e o tio de Henrique afirmam que o jovem se encontrava muito embriagado e queria se matar. Por conta disso, seu tio diz que solicitou o Samu e os Bombeiros com o objetivo de administrarem alguma medicação para acalmar Henrique.

A porta da casa foi arrombada pelos policiais militares | Foto: Henrique Melo Cotrim
A porta da casa foi arrombada pelos policiais militares | Foto: Henrique Melo Cotrim

Na delegacia, o delegado Sandro W. Tavares Távora ouviu os policiais, bem como Henrique, sua irmã e seu tio, e acusou o motorista de aplicativo de cometer o crime de desacato contra os PMs. Apesar do rosto repleto de ferimentos, o delegado afirmou que “não é possível determinar, minuciosamente, as circunstâncias” das lesões.

Ele determinou que sejam expedidas requisições de exame de corpo de delito em Henrique e no PM Vinicius Tizolin dos Santos. Solicitou ainda que sejam apurados pela Corregedoria da Polícia Militar “eventuais excessos perpetrados pelos policiais militares envolvidos na ocorrência”.

Na visão do amigo de Henrique e assistente jurídico da advogada Moara Beatriz Adonis, que acompanha o caso, Bruno Araújo de Oliveira, 31 anos, houve excesso de força e violações cometidas pelos policiais. “A polícia entrou sem autorização judicial na casa, quebrou a porta e espancou ele. Não houve desacato, porque uma vez que você está dentro da sua residência, é um asilo inviolável, o morador pode negar a entrada dos policiais”.

O pé e os braços de Henrique também foram feridos | Foto: Henrique Melo Cotrim
O pé e os braços de Henrique também foram feridos | Foto: Henrique Melo Cotrim

Para ele, a quantidade de policiais no local foi desproporcional. “O que nós podemos observar é um abuso de autoridade. Uma vez que o ato do policial foi impróprio, injusto e ilegal. Não é possível que todos aqueles policiais não conseguissem segurá-lo. O que fica evidenciado é a desproporcionalidade com emprego de violência”, diz Bruno.

A vulnerabilidade de Henrique também é colocada em questão por Bruno. “O alcoolismo é uma doença crônica e qualquer tipo de agressividade causada a uma pessoa vulnerável nessa situação pode ser ruim, pode dar até levar à morte. Os policiais cometeram a lesão corporal em uma pessoa que estava evidentemente vulnerável àquela situação. Sem falar que ele foi levado de forma humilhante para a delegacia, para o hospital, de cueca”.

Além dos danos à saúde, a ação dos policiais prejudicou o trabalho de Henrique, diz Bruno. “Ele está com o rosto todo marcado, teve danos materiais, a casa foi destruída, a porta foi quebrada, o Henrique, tem carro alugado, ele está impossibilitado de trabalhar, o que gera até um dano de lucros, ele está sofrendo uma série de de consequências que tem impactado a vida dele”.

De acordo com Bruno o caso será denunciado ainda nesta semana na Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo e na Corregedoria da PM.

Outro lado

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo não respondeu às seguintes perguntas:

Como a SSP e a PM explica as agressões cometidas contra Henrique?

Por que os policiais arrombaram a porta da casa da residência?

Quantos policiais estavam presentes na abordagem (testemunhas dizem que eram mais de dez)?

Com base em que se justifica a acusação de desacato?

Por que Henrique foi levado ao hospital de cueca?

A pasta apenas afirmou que foi elaborado um termo circunstanciado de desacato pelo 50º DP. “Todas as partes foram ouvidas e o caso foi encaminhado à Justiça. Um policial militar foi agredido pelo autor, que estava alterado e precisou ser contido. A Corregedoria da Polícia Militar está à disposição para receber todas as denúncias contra seus agentes e apurá-las”.

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