Motorista que não admitiu fala racista no carro dá lição de como tratar supremacistas

International respect and blended families
Foto: Getty Creative

No livro "Pequeno Manual Antirracista", a escritora e filósofa Djamila Ribeiro afirme que pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente.

Esse sistema se replica de muitas formas, inclusive quando duas ou mais pessoas brancas compartilham piadas e comentários racistas sobre pessoas que sequer estão perto para se defender.

O racista, como se sabe, é antes de tudo um covarde: destila seu pensamento rasteiro toda vez que se sente confortável entre os seus. Cortar essa rede de transmissão é uma forma de impedir que ela seja propagada e absorvida, por exemplo, entre crianças que aprendem a discriminar e a repetir discurso de ódio dentro de casa desde cedo.

No início desta semana, viralizou nas redes sociais o vídeo de um motorista de aplicativo dos EUA que recusou prestar serviço a uma passageira branca que proferiu um comentário racista ao entrar no carro. “Uau, você é branco”, disse a usuária ao se apresentar. E continuou: “você é um cara normal, tipo fala inglês”.

O caso aconteceu na Pennsylvania.

Certamente ela esperava (ou estava acostumada com) comentários amigáveis vindo de um homem “branco, normal” e que sabia falar inglês. Um sorriso de endosso, mesmo que amarelo, ao menos.

Estava, afinal, entre um dos “seus”, e poderia passar o resto da viagem destilando seu ódio sobre pessoas não brancas que não falam inglês e que ela não considera normal.

Não foi o que aconteceu.

Ao ouvir o comentário, o motorista identificado como James W. Bode pediu que ela saísse do automóvel. “Isso é completamente inadequado. Se alguém que não fosse branco estivesse sentado neste banco, qual seria a diferença?”, ele perguntou.

O acompanhante da mulher não gostou da reprimenda e um bate-boca teve início.

Ameaçado de agressão, Bode avisou que estava gravando as ameaças e chamou a polícia. Em seguida, expôs a atitude do casal nas redes sociais – inclusive o fato, usado como carteirada, de que eles eram donos de um bar de motoqueiros na cidade.

Em suas redes, o motorista agradeceu as mensagens de apoio, mas fez um porém: “Eu não deveria ser 'o cara' que fez ou disse isso... Todos nós deveríamos ser essa pessoa (...) Fale se estiver desconfortável com isso, porque isso deixará os racistas desconfortáveis”.

A atitude pode e deve encorajar quem se sente desconfortável com comentários do tipo a fazer o mesmo: transferir o desconforto ao agressor, mesmo que o alvo da agressão esteja longe.

Comentários do tipo não deveriam ser bem-vindos. Nem em automóveis de app, nem na escola, nem em ambiente de trabalho.

Talvez isso não mude o complexo de superioridade que habita em pessoas brancas ancoradas no pensamento supremacista. Mas certamente fará com que sintam vergonha ou medo de passar seu ódio adiante.

Quem sabe assim pessoas como Payton S. Gendron, criminoso armado de 18 anos responsável pelo massacre em um supermercado em Buffalo, no estado de Nova York, também nos Estados Unidos, não encontre terreno adequado para cultivar e replicar o discurso que endossou seu ato nefasto —explicitado em 180 páginas para expressar seu ódio contra pessoas negras, a maioria das vítimas do ataque.

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