Motoristas ganham fama com vídeos que fazem piada do dia a dia nos ônibus

“Esse ônibus vai para o shopping?”, pergunta o passageiro. “Não. Ele brigou com a namorada e resolveu ficar o dia todo trabalhando comigo”, reponde o motorista. Cenas e diálogos como este, do dia a dia nos coletivos, servem de inspiração para três amigos motoristas, que dirigem em linhas do itinerário Bangu-Candelária, transformarem situações cotidianas em vídeos de humor que estão fazendo o maior sucesso na internet. O mais visto foi postado há quatro meses e soma mais de 2,6 milhões de visualizações.

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A iniciativa partiu do motorista da linha 393, Luile Machado, de 46 anos, há sete na profissão. Por conta do sucesso, o “influencer do volante”, que acumula mais de 312 mil seguidores nas redes sociais, já é reconhecido nas ruas pelo bordão “Eu tô errado?”, carregando no “erre”, com o qual encerra as esquetes.

— A gente faz uma brincadeira aqui em Bangu achando que a repercussão não vai passar de Realengo e, quando vê, já está na Europa. Quando faço lives, entra gente até dos Estados Unidos — diz Luile, que faz o papel do motorista mau humorado e diz ter seguidores até em outros países, como a Espanha.

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Tudo começou por acaso e como brincadeira. Há cerca de um ano, um amigo fez um vídeo com Luile e resolveu postar na sua rede social. Em pouco tempo, foram mais de 300 mil visualizações. O motorista, que sempre foi considerado engraçado e tem voz e trejeitos que lembram o humorista Leandro Hassum, descobriu que havia ali um filão a ser explorado. Incentivado pela mulher e pelos três filhos, começou a gravar os seus próprios vídeos, para os quais recrutou os colegas Jaci Vidal Filho, de 48, e Afonso Santos da Silva, de 53, para o papel de passageiros. Na vida real, os dois são motoristas da linha 2310.

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O cenário para as gravações é um ônibus tarifa (frescão) normalmente parado no ponto final ou na garagem da empresa onde o trio trabalha, em Senador Camará, na Zona Oeste. O uso do veículo, escolhido por questão de estética e por ser menos barulhento, tem o aval da direção da empresa, que se encantou com o sucesso dos funcionários.

As imagens mostram o motorista sentado ao volante aguardando os passageiros, dos quais na maioria das vezes ouve-se apenas as vozes, o que se explica por várias razões: além da timidez dos colegas que, ao contrário de Luíle, só se soltam quando não estão sendo enquadrados na tela, Afonso — que faz um dos personagens (Afonsinho) — é quem está por trás das câmeras do celular, captando as imagens. Ele é ainda uma espécie de roteirista informal do grupo. Por ser o mais experiente do trio, com 25 anos de volante, a maioria das ideias para a esquetes de humor parte dele mesmo.

— Aproveito muita coisa que já ouvi ao longo desse tempo. Fico lembrando histórias antigas e outras do dia a dia e trago para o grupo. Às vezes, acontece de estar numa viagem e surgir uma ideia boa para um vídeo. Então, eu gravo um áudio para não esquecer e mando para os outros dois, que contribuem com suas sugestões. Nada vai para o papel e também não tem muito ensaio — explica Afonso, sobre o processo de gravações que normalmente aproveita o período em que estão largando o expediente.

A inspiração vem , sobretudo, da relação deles com os passageiros, incluindo perguntas sobre itinerário, pedidos de carona e o bate-papo descontraído que costuma rolar com quem gosta de seguir viagem na frente do carro, junto ao motorista. As esquetes são curtas, duram em média pouco mais de dez segundos, e os diálogos são diretos e certeiros. As falas costumam ser combinadas antes, mas o que prevalece na gravação é o improviso. Num dos vídeos mais engraçados, o passageiro quer saber se o ônibus vai passar na faculdade, e o motorista responde que se ele tirar nota boa vai, sim.

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O primeiro vídeo a ultrapassar um milhão de visualizações foi postado em agosto do ano passado. Nele, o motorista Vidal faz o papel de um passageiro gay. O sucesso fez com que ele adotasse em definitivo o personagem. Mas, para evitar problemas com o público LGBTQIA+ ou ser acusado de homofobia, Luile faz questão de submeter esses vídeos a apreciação de um dos filhos, que é homossexual. Só com o aval dele é que a gravação é postada.

— Nunca tivemos problemas. Somos cuidadosos — acredita.

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Outro filho do motorista, Antônio Carlos, de 16 anos, que ensaia uma carreira na música, é uma espécie de administrador das redes sociais do pai. Ele, com a mãe, foi o principal incentivador para a postagem do primeiro vídeo, em junho do ano passado. Foram 117 mil visualizações. Outros vídeos vieram, em postagens quase que diárias, que só no Instagram @luilemachado somavam quase 200 até o início da semana. E o sucesso não parou de crescer.

— Era para ser só uma brincadeira, uma zoação que não visava nada. Virou febre, e hoje as pessoas passam lá em casa gritando o nome dele — testemunha o filho.

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Do trio de motoristas, o único que tem alguma experiência na área artística é o Vidal. Antes de assumir o volante de um ônibus, trabalhou durante quatro anos como coreógrafo da casa noturna Scala. No cinema, participou de uma das cenas mais emblemáticas de Cidade de Deus, filme de 2002 dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund: a do baile onde o personagem Bené (Phellipe Haagensen) faria sua despedida da favela, mas acaba morto. Além de figuração, Vidal coreografou algumas danças:

— Sempre fui da bagunça. Apesar de não aparecer quase nos vídeos, muita gente me reconhece só pela voz.

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A mesma descontração dos vídeos é levada para as viagens reais. Passageira da 393 e seguidora do grupo, a aposentada Cleide de Melo Ferreira, de 69 anos, acha que as brincadeiras dos motoristas ajudam a amenizar uma viagem sofrida e longa entre Bangu e o Centro, em ônibus velhos, lotados e com pouco conforto. Ela só teme uma coisa: virar alvo dos brincalhões.

— Essa turma é uma maravilha. Mas a gente tem que tomar cuidado com o que fala quando entra no ônibus, para não virar piada — brinca.

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