Mototaxista, ex-militar e estudante estão entre os mortos na Vila Cruzeiro

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 24.05.2022 - Homem baleado na Operação da Vila Cruzeiro chega ao Hospital Getúlio Vargas, na zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 24.05.2022 - Homem baleado na Operação da Vila Cruzeiro chega ao Hospital Getúlio Vargas, na zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Entre as pelo menos 23 pessoas que morreram na operação policial da última terça (24) na Vila Cruzeiro, favela na zona norte do Rio de Janeiro, estão um mototaxista, um estudante de 16 anos e um ex-militar que trabalhava em uma loja de calçados, segundo as famílias.

Os parentes dizem que Ricardo José Cruz Zacarias Júnior, 26, Douglas Costa Inácio Donato, 23, e João Carlos Arruda Ferreira, 16, não tinham envolvimento com o tráfico, o que contraria a versão inicial da Polícia Militar, corroborada pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo governador Cláudio Castro (ambos do PL).

Eles constam na lista de pessoas já identificadas que deram entrada no IML (Instituto Médico Legal) divulgada pela Polícia Civil nesta quinta (26). A corporação baixou o número oficial de mortos de 26 para 23, afirmando que três corpos eram de um confronto entre traficantes em outra favela.

Os três, por sua vez, não estão num documento interno da PM que lista o nome e os antecedentes criminais de dez das pessoas mortas na ação do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM), em conjunto com a PRF (Polícia Rodoviária Federal) e a Polícia Federal.

Segundo as polícias, a ação visava prender em flagrante mais de 50 traficantes de vários estados que sairiam em comboio à favela da Rocinha, na zona sul da cidade. O plano, porém, foi frustrado quando uma das equipes à paisana foi descoberta e atacada na entrada da comunidade, por volta das 3h30.

As forças então colocaram em prática uma "operação emergencial", seguida de várias horas de confrontos. A troca de tiros acabou subindo até uma área de mata que liga a Vila Cruzeiro ao Complexo do Alemão, conhecida como Terra Prometida, onde a maioria foi baleada.

Familiares dizem que Ricardo José era mototaxista e foi alvejado enquanto levava uma passageira até esse local, porque ela procurava pelo corpo do irmão envolvido com o tráfico. Uma sobrinha que morava com ele contou à reportagem ter visto a mulher subindo na moto momentos antes.

"Meu tio acordou quando começou a operação e não foi trabalhar, ficou em casa porque era muito medroso", diz Maria -o nome foi trocado, porque ela é menor de idade. Ele saiu por volta das 11h e voltou tempos depois para pegar um galão de gasolina.

"Minha tia até brincou com ele, falou que ele tinha aparecido num vídeo no Instagram que alguém estava fazendo ao vivo, ele riu e saiu de novo. Olhei pela janela era umas 11h40 e vi ele com a garrafa de gasolina na moto, e a mulher esperando ele", afirma a estudante.

Segundo ela, mais acima, Ricardo José ainda passou por um outro tio seu que também é mototaxista. Ele chegou a alertá-lo para que não subisse até a área da mata. "Não sabemos por quê, porque ele era muito medroso, mas ele continuou", diz a sobrinha. Não voltou mais.

Familiares e amigos passaram então a divulgar sua foto como desaparecido nas redes sociais, mas só o encontraram horas depois no Hospital Estadual Getúlio Vargas, para onde policiais e moradores levaram a maioria dos mortos e feridos. Ele passou por uma cirurgia, mas não resistiu.

Maria diz que o tio sempre morou no bairro Jardim América (na zona norte) e por um bom tempo trabalhou vendendo balas na avenida Brasil, mas se mudou para a Vila Cruzeiro no fim do ano passado porque não estava conseguindo pagar as contas.

Comprou uma moto de segunda mão, ajeitou e passou a fazer as viagens. Ele tinha três filhas, de 9 anos, 7 anos e 9 meses, e morava com a caçula, a esposa e a sobrinha. "Ele gostava de ficar com a filha, sair com os amigos, de festa. Gostava muito de dançar, era muito brincalhão", ela lembra.

A mulher que estava na sua garupa naquela manhã era Carla Caroline da Silva, que também foi baleada e continua internada em estado estável no hospital Getúlio Vargas. Ela está sob custódia da polícia, por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas.

A cunhada dela, porém, afirma que ela era vendedora de bolo. Ambas subiam em direção à mata juntas, mas Carla decidiu pegar o mototáxi e levou um tiro no braço que atingiu sua barriga. "Estão alegando que ela é bandida [...]. Ela não é. Ela trabalha comigo vendendo doce e bolo", disse a mulher identificada como Priscilla na porta do hospital nesta quarta ao programa RJ2, da TV Globo.

Outro dos 23 mortos na operação é o adolescente João Carlos Arruda Ferreira, 16, que cursava o sexto ano na Escola Municipal Nereu Sampaio, diz uma líder comunitária da Vila Cruzeiro que ajudou a família a organizar o enterro. Ainda muito abalados, eles não quiseram falar sobre o caso nesta quinta (26).

O terceiro morto que de acordo com a família não tinha relação com o crime é Douglas Donato, 23. Ele era ex-militar da Marinha, pertencente ao quadro temporário da instituição, e trabalhava atualmente em uma loja de calçados no bairro da Penha, segundo o pai contou ao UOL.

O feirante Luis Cláudio Inácio Donato, 44, contou que o jovem tinha saído de uma festa com amigos de infância quando foi baleado. Ele diz que o filho foi levar um amigo de moto na parte alta e, quando estava voltando, foi surpreendido pelo confronto.

O ouvidor-geral da Defensoria Pública, Guilherme Pimentel, afirma que está acompanhando as famílias e ainda vai colher informações mais detalhadas sobre os casos.

Uma quarta vítima sem envolvimento com o confronto foi a manicure Gabrielle Ferreira da Cunha, 41. Ela foi baleada longe dali, próximo à entrada de uma comunidade vizinha, a Chatuba. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) fez perícia no local para investigar de onde partiu o tiro.

Procurada, a Polícia Militar afirmou que todos os aspectos relacionados às ações da última terça-feira estão sendo investigados pela Polícia Civil e que a Corregedoria Geral da corporação "acompanha e colabora integralmente com todos os procedimentos".

Informou ainda que mantém seu órgão correcional à disposição dos cidadãos para qualquer tipo de comunicado e denúncia anônima (21 2725-9098 ou denuncia@cintpm.rj.gov.br). Não respondeu, porém, se os nomes mencionados na reportagem possuem qualquer tipo de anotação criminal.

Questionada, a Polícia Civil também não informou se houve perícia na área de mata onde ocorreu a maioria das mortes. Disse que realizou exames de necropsia e papiloscopia em todos os corpos para confirmar as identificações e esclarecer as circunstâncias das mortes, e que a DHC está a cargo das investigações.

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NOMES DOS MORTOS CONFIRMADOS PELA POLÍCIA CIVIL

Gabrielle Ferreira da Cunha

Leonardo dos Santos Mendonça

Anderson de Souza Lopes

Diego Leal de Souza

Emerson Stelman da Silva

Maycon Douglas Alves Ferreira da Silva

Carlos Henrique Pacheco da Silva

Tiugo dos Santos Bruno

Edmilson Felix Herculano

Izaias Vitor Marques Nobrega

Roque de Castro Pinto Junior

Douglas Costa Incaio Donato

Mauri Edson Vulcão Costa

João Carlos Arruda Ferreira

Ricardo José Cruz Zacarias Junior

Patrick de Andrade da Silva

Denis Fernandes Rodrigues

Eraldo de Novaes Ribeiro

Nathan Werneck Borges Lopes

Everton Nunes Pires

João Victor Moraes da Rocha

Carlos Alexandre de Oliveira Rua

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