Mourão critica politização em torno da vacina contra o coronavírus

JULIA CHAIB
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*ARQUIVO* SÃO PAULO , SP, 09.03.2020 - O vice-presidente Hamilton Mourão. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO , SP, 09.03.2020 - O vice-presidente Hamilton Mourão. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) criticou nesta quarta-feira (11) a politização em torno da produção da vacina contra o novo coronavírus, mas defendeu a decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de suspender os estudos clínicos da Coronovac no Brasil após a morte de um voluntário. O imunizante é desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

"Uma vez que se esclarecer que, realmente, o rapaz que infelizmente veio à óbito era suicídio e que o suicídio não tinha nada a ver, vamos dizer, com alguma consequência psicológica por causa de ele estar utilizando a vacina, retoma-se os testes, como já aconteceu com a outra lá da Oxford", afirmou Mourão.

Em seguida, a Anvisa anunciou a retomada dos testes com a Coronavac no país.

"Eu acho que é uma coisa normal [suspender os estudos] no processo de você descobrir uma nova forma de tratar uma doença. O que não pode é politizar, infelizmente aí, você sabe bem, essa questão está toda politizada e fica 'Ah, é do lado A, é do lado B', acho que isso não é bom", disse.

Entretanto, após o comentário, Mourão evitou responder se o próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estaria atrapalhando o processo e politizando o episódio. Na terça (10), o presidente afirmou que a suspensão pela Anvisa dos estudos clínicos da Coronavac no Brasil é "mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

"Eu já falei que eu não comento as coisas do presidente. Mais uma vez eu digo, eu sou vice-presidente. Existe uma relação aqui ética e de lealdade e eu não cruzo essa linha", afirmou.

Os comentários do mandatário foram feitos no Facebook, em resposta a um seguidor que lhe perguntou se o imunizante contra a Covid-19 em desenvolvimento pelo Instituto Butantan seria comprada pelo governo federal. "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o [governador João] Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la", escreveu o presidente como resposta.

Ao comunicar a decisão de suspender os estudos da vacina, a agência alegou ter recebido informações sobre a ocorrência de um evento adverso grave em um voluntário, o que levou à necessidade de interromper temporariamente os estudos para verificar o caso.

A causa da morte do voluntário que participava dos testes clínicos da fase 3 da Coronavac não foi relacionada com a eventual aplicação da vacina contra a Covid-19. Como mostrou a Folha, segundo investigadores, a principal suspeita é a de que a pessoa, um químico de 32 anos, tenha cometido suicídio ou tido uma overdose.

Bolsonaro tem acusado o governador de São Paulo João Doria de tentar obter ganhos políticos com a produção da vacina. No mês passado, o presidente chegou a dizer que o governo não compraria a Coronovac.

Nesta quarta, o vice-presidente também comentou a declaração de Bolsonaro nesta terça (11) de que "tem que ter pólvora" em alusão a comentários de Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, de que sanções poderiam ser aplicadas no Brasil caso não haja melhora nos índices de desmatamento da Amazônia.

Bolsonaro disse: "Assistimos há pouco um grande candidato à chefia de Estado dizer que se eu não apagar o fogo da Amazônia levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto [Araújo, chanceler]? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona", afirmou Bolsonaro, sem citar o nome de Biden.

Questionado, Mourão minimizou a fala. "Ele [Bolsonaro] se referiu a um aforismo antigo, que diz que quando acaba a diplomacia, entram os canhões", avaliou o vice-presidente.

"Eu acho que não causa nada. É tudo figura de retórica", continuou Mourão, após ser questionado sobre se a declaração de Bolsonaro poderia gerar consequências na relação com os Estados Unidos.