Mourão fica em situação de "saia justa" e militares querem discrição com Bolsonaro

Redação Notícias
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(Andressa Anholete/Getty Images)
(Andressa Anholete/Getty Images)

A instável relação entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu vice, Hamilton Mourão (PRTB), entrou em uma nova fase de divergências e críticas abertas, levando militares do Palácio do Planalto a pedirem para o general submergir.

Um dia após o auge da crise, no entanto, depois que auxiliares de Bolsonaro entraram em ação, Mourão se recusou a baixar o tom e manteve a rotina de declarações à imprensa, muitas sobre temas que já tinham desagradado o presidente.

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O vice voltou a falar de eleições americanas na manhã desta sexta (13), indicando a vitória do democrata Joe Biden --fato que o governo brasileiro reluta em reconhecer.

"Como indivíduo, julgo que a vitória do Joe Biden está cada vez mais sendo irreversível", afirmou Mourão, em entrevista à Rádio Gaúcha.

O vice-presidente também defendeu que militares da ativa fiquem fora da política, ecoando declaração do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol.

À noite, Bolsonaro, sem mencionar Mourão, falou nas redes sociais em concordância com Pujol, e disse que as Forças Armadas devem se manter apartidárias.

"A afirmação do General Edson Leal Pujol (escolhido por mim para Comandante do Exército), que 'militares não querem fazer parte da política', vem exatamente ao encontro do que penso sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional", escreveu.

Segundo Bolsonaro, as Forças Armadas são o maior "sustentáculo da democracia e da liberdade". Ele mencionou trecho da Constituição segundo o qual elas se destinam à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de quaisquer destes, da lei e da ordem. "Devem, por isso, se manter apartidárias, 'baseadas na hierarquia e na disciplina' sob a autoridade suprema do presidente da República", completou."‹

As novas manifestações de Mourão sinalizam que o general não pretende aceitar calado as críticas públicas e a pressão para manter comportamento mais discreto.

O auge e episódio mais recente das rusgas foi a proposta que consta de uma apresentação do Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido por Mourão, que prevê expropriação de propriedades por crimes ambientais. "‹

O documento prevê o encaminhamento de PEC (proposta de emenda à Constituição), em maio do próximo ano, para autorizar expropriação de propriedades rurais e urbanas acometidas de crimes ambientais ou decorrentes de grilagem ou de exploração de terra pública sem autorização.

Além disso, a ideia é reduzir verbas de municípios que desmatam.

Sem citar o nome do vice, Bolsonaro afirmou que poderia demitir o integrante do seu governo que apresentasse essa proposta, a não ser que se tratasse de alguém "indemissível".

"Ou é mais uma mentira ou alguém deslumbrado do governo resolveu plantar esta notícia. A propriedade privada é sagrada, não existe nenhuma hipótese neste sentido", afirmou o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã de quinta-feira (12).

"Se alguém levantar isso aí eu simplesmente demito do governo. A não ser que esta pessoa seja indemissível", disse Bolsonaro.

O assunto voltou a ser comentado durante transmissão ao vivo em suas redes sociais no mesmo dia, quando o presidente disse que era caso de "cartão vermelho", se fosse uma pessoa demissível --Mourão foi eleito, portanto não pode ser demitido por Bolsonaro.

Após as manifestações do presidente, Mourão disse que se "penitencia" por não ter colocado os documentos que mencionam a proposta criticada em sigilo.

Afirmou também que eram apenas "ideias" discutidas pelos ministérios, que não devem avançar. Terminou falando que, se fosse presidente, também estaria "extremamente irritado" com a situação.

A sequência de estocadas de Bolsonaro em Mourão fez com que militares bombeiros do Planalto entrassem novamente em ação para baixar a temperatura.

O pedido foi, mais uma vez, para o vice evitar falar de temas que digam respeito ao presidente e reduzir suas falas à imprensa.

No ano passado, em outro momento no qual Mourão e Bolsonaro trocavam rusgas públicas, assessores presidenciais também tiveram que interferir para evitar uma escalada da crise.

Para assessores presidenciais, a sequência de atritos não ocorre porque houve aumento na insatisfação de Bolsonaro com o parceiro de chapa, mas porque o presidente estava havia muito tempo calado.

Desde o meio do ano, o mandatário, diante de brigas com o Congresso e Judiciário, passou a adotar tom menos belicoso. Nesta semana, reassumiu seu perfil agressivo em diversas declarações.

Bolsonaro já havia desautorizado seu vice por declarações referentes às eleições nos EUA, à vacina de origem chinesa e ao leilão do 5G, entre outros assuntos.

O governo brasileiro, aliado do presidente americano, Donald Trump, tem sido duramente criticado por não se manifestar sobre a vitória de Joe Biden.

Ao ser questionado sobre o silêncio de Bolsonaro, Mourão afirmou que o presidente aguardava terminar o "imbróglio" em relação ao resultado oficial para em seguida se posicionar.

Bolsonaro rebateu dizendo que as declarações de Mourão representavam apenas a "opinião" dele. E que não tinha conversado com Mourão sobre assuntos relacionados aos Estados Unidos, como "não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele", afirmou à CNN Brasil.

Mourão também já disse que o país iria compraria a vacina Coronavac --parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac-- e que o leilão para o 5G levaria em conta critérios técnicos, sem restrições à origem da tecnologia oferecida. Nos dois casos, Bolsonaro afirmou em seguida que a decisão cabe a ele.

Além de críticas públicas, Bolsonaro frequentemente mostra insatisfação com o comportamento de Mourão a seus interlocutores.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, ele já manifestou a aliados próximos que não pretende concorrer à reeleição tendo Mourão como companheiro de chapa. Uma saída "honrosa" seria lançá-lo candidato a governador do Rio Grande do Sul em 2022.

Da FOLHAPRESS