Movimento em São Paulo se transforma num domingo permanente

Guilherme Caetano
Lojas na tradicional Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, fecharam as portas e movimento acabou

SÃO PAULO - Um grupo com quatro americanos e um brasileiro caminhava nesta sexta-feira apressado pela Rua da Consolação, na área central, uma das mais movimentadas de São Paulo. Eles seguiam em direção à estação de metrô, de onde embarcariam para a Vila Madalena para escolher um restaurante e almoçar. Estavam apreensivos com as notícias, principalmente com a recomendação para que as pessoas fiquem em casa, o que tem feito com que a maior cidade da América Latina vá transformando sua rotina diária numa espécie de domingo permanente.

- Estamos aqui num intercâmbio. Ficaremos mais dois meses, e espero que a situação se resolva no mundo todo, e que São Paulo volte a funcionar com toa sua grandiosidade - disse Andrew, de 27 anos.

Nos últimos dias, a cidade "que não para" vem dando sinais de que está colocando o pé no freio. Embora haja alguns pontos de concentração na cidade - como o transporte público e a Avenida Pulista -, o vai e vem de paulistanos diminui hora a hora. A região de comércio popular da Rua 25 de Março já começa a sofrer os efeitos dapandemia, com lojas baixando as portas.

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Embora haja a informação de que alguns serviços serão mantidos, a correria em farmácias, postos de combustíveis e supermercados vem aumentando. Tanto na rua como em qualquer um desses lugares tornou-se comum o uso da máscara como parte da vestimenta.

As feiras livres - são cerca de 140 por dia em toda a cidade - continuam funcionando. Mas o movimento também caiu. No bairro nobre de Higienópilis, um mercado especializados em produtos kosher para a comunidade judaica do bairro montou uma barricada com caixas de matzá, e estavam deixando os clientes entrar aos poucos. uma pessoa fica na porta de máscara controlando o movimento.

Lá, vendedores buscam os produtos na prateleira para os clientes. que ficam parados no meio da loja. Depois de receber o produto, o consumidor recebe um pouco de álcool em gel. Um dos pontos de maior movimento na região da Avenida Paulista, o bar Charme da Paulista, no cruzamento da Alameda Casa Branca com a Avenida Paulista, estava irreconhecível. O estabelecimento ao lado do Masp que é símbolo da boemia do bairro recolheu cadeiras da calçada, a contragosto, mas por ordem da polícia.O gerente Edemir Vieira, de 36 anos, disse que precisou antecipar as férias de dez funcionários para evitar demiti-los. O movimento, segundo ele, caiu 90% desde quarta-feira.- Em três horas de almoço costumavam sair uns 140 pratos. Ontem, saíram 40. E hoje ainda nenhum - afirmou o comerciante.

Um dos principais centros comerciais de São Paulo, a rua José Paulino, no bairro do Bom Retiro, conhecida pelas lojas de atacado, já parou completamente. Pela rua, poucas pessoas, muitas delas incrédulas. A aposentada Mercedes de Góes, de 70 anos, é moradora do bairro e aproveitou o baixo movimento para fazer compras no mercado.- Nunca vi a José Paulino assim. Vazia, com esse medo, nunca. E olha que moro aqui há mais de 20 anos - diz ela.

A cidade também fechou museus, centros de cultura, shoppings e algumas salas de cinema. Os parques da cidade continuam abertos, mas o movimento não se compara com o que o paulistano está acostumado.