MP diz que 'QG da Propina' continou mesmo após operação em setembro e que investigados tentaram adulterar provas

Luiz Ernesto Magalhães, João Paulo Saconi, Felipe Grinberg e Vera Araújo
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RIO - A denúncia do Ministério Público (MP) do Rio contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), e outros investigados no caso chamado de "QG da Propina" mostra que o esquema de corrupção instalado na administração da cidade teria continuado em curso mesmo após a segunda fase da Operação Hades, em setembro. Na ocasião, Crivella foi alvo de mandado de busca e apreensão, bem como outros investigados no caso, incluindo o empresário Rafael Alves. Ambos foram presos nesta terça-feira. Os promotores identificaram que, além de o "balcão de negócios" envolvendo empresários ter continuado a funcionar na gestão municipal, envolvidos nos supostos crimes teriam tentado adulterar provas das irregularidades em outubro.

"Merece destaque o fato de que, mesmo após a realização da segunda fase da Operação Hades, investigados continuaram a encaminhar as notas frias e pressionar os executivos do grupo Assim Saúde a manter os pagamentos de propina, chegando a comparecer à sede da empresa para cobrar a manutenção do esquema", afirma trecho da denúncia do MP entregue ao Tribunal de Justiça (TJ) do Rio e obtida pelo GLOBO.

Em outra passagem, o documento afirma que parte dos investigados no esquema atuou pelo menos 31 vezes, entre março de 2018 e setembro de 2020, para solicitar promessas de propinas ou aceitar vantagem indevida pagas por uma das empresas envolvidas no "QG da Propina", a Assim Saúde.

Fundada em 1988, a companhia opera planos de saúde e possui, segundo o seu próprio site oficial, mais de 380 mil clientes. De acordo com o MP, a Assim esteve em "ostensivos esquemas de corrupção instalados dentro do Previ-Rio". O pagamento de propinas teria garantido vantagens à operadora na celebração e prorrogação de contrato com o nstituto de Previdência e Assistência da Prefeitura do Rio (Previ-Rio). Detalhes sobre a relação da empresa com a organização criminosa indicada pelo MP constam em acordos de colaboração assinados com Carlos Eduardo Rocha Leão, ex-superintendente da Assim, e João Carlos Gonçalves Regado, que também foi executivo da empresa.

Adulteração de provas

O MP afirma à Justiça que, além de continuar cobrando propinas pelo menos até setembro, o grupo atuante na prefeitura esteve na sede da Assim Saúde no dia 20 de outubro deste ano. Registrada no sistema de recepção do local, a visita teria tido a intenção, conforme afirma o MP, de cobrar a manutenção do esquema e tentar adulterar provas do "QG da Propina".

Rafael Alves participou da visita junto a Adenor Gonçalves e Christiano Stockler, todos réus no processo instaurado pelo TJ do Rio e acusados de operar o esquema de propinas junto a empresas.

No encontro em questão, Gonçalves teria proposto a executivos da Assim que adulterassem sua contabilidade para encobrir vestígios dos pagamentos direcionados à organização criminosa. A adulteração seria feita através do cancelamento de notas fiscais e da simulação de uma aquisição de créditos pela Assim Saúde, referentes à massa falida da Universidade Gama Filho, que figuraria posteriormente como justificativa dos pagamentos em favor do grupo. A ideia foi rejeitada por executivos da Assim, conforme narraram ao MP testemunhas que trabalham na empresa e que foram indicadas aos promotores pelos colaboradores Carlos Leão e João Regado.

Há mais de dois anos, entre outubro de 2017 e janeiro de 2018, o início do pagamento de propinas pela Assim aos integrantes do "QG da Propina" teria sido acertado num encontro sem data especificada pelo MP, na sala de presidência da Riotur, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rafael Alves despachava neste local, mesmo sem ter cargo público na administração de Crivella. O irmão dele, Marcelo Alves, comandou a Riotur durante boa parte da gestão do prefeito.

No acerto com a Assim, ficou decidido qu a empresa repassaria aos envolvidos 3% do que recebesse em contratos com o município. Houve pressão, conforme relataram executivos da empresa ao MP, para que esse percentual fosse de 5%. Ao todo, a operadora de planos de saúde recebeu R$ 50,4 milhões da gestão Crivella, em dois anos e meio.