MP ouve ex-faxineira que acusa delegado Mauricio Demetrio de injúria racial e racismo

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RIO — Promotores do Ministério Público do Rio (MPRJ) ouviram a ex-faxineira X., de 54 anos, na tarde desta terça-feira, que acusa o delegado da Polícia Civil Mauricio Demetrio de injúria racial e racismo. Segundo a vítima, o crime ocorreu entre 2007 e 2008, período em que ela trabalhava na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), onde o policial civil atuava como delegado adjunto. A unidade especializada ainda funcionava, à época, no Largo da Cancela, em São Cristóvão. Como o Supremo Tribunal Federal (STF) entende que o crime de injúria racial e racismo são imprescritíveis, ou seja, não perdem o seu efeito para a aplicação da pena, a qualquer tempo, Demetrio ainda pode ser denunciado pelo caso ocorrido há quase 15 anos.

Na última segunda-feira, O GLOBO publicou a denúncia da ex-faxineira, que afirmou não ter denunciado à epoca porque temia represálias do delegado. Acompanhada de um advogado, a mulher foi ouvida por promotores do Núcleo de Apoio às Vítimas (NAV), na sede do órgão, no Centro do Rio. A promotoria classificou a denúncia da ex-faxineria como “grave” e informou que “precisam ser apuradas” com rigor. Após ouvirem X., promotores responsáveis pela investigação criminal contra Demetrio, que também estiveram presentes, vão ajudar na apuração dos fatos.

A ex-faxineira afirmou ter sido humilhada frequentemente pelo delegado, mas que só teve coragem de fazer a denúncia agora porque ele foi preso. O delegado foi denunciado e preso na Operação Carta do Corso, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, em junho do ano passado. Demetrio responde pelos crime de associação criminosa, obstrução à justiça, lavagem de dinheiro ou ocultação de bens e concussão (cobrança de propina).

A ex-faxineira fez um registro num cartório de notas em 2011, informando o que sofrera quando trabalhava como prestadora de serviços na DPMA. Ela lembra que, na época, se sentiu ameaçada por Demetrio e, caso algo lhe acontecesse, alguém poderia ver o documento que serviria de prova contra ele. Ao ser perguntada porque não fez o resgistro na delegacia de polícia, disse que achava que não "daria em nada", porque ele era "poderosos".

Xingamentos e humilhação

X. conta que não tem boas recordações dos anos que passou da DPMA. Segundo ela, Demetrio a xingou de "frango preto de macumba", e disse ter sentido na própria pele o peso do racismo.

— Agora, mesmo depois de tantos anos, acho que essa história vai andar—– disse a ex-faxineira.

Ela disse que trabalhou como faxineira entre 2002 e 2008, na empresa Nova Rio, que prestou serviços para a Polícia Civil e outras instituições.

Quase 15 anos depois, a ex-faxineira ainda se emociona quando lembra de tudo que passou. Segundo ela, a humilhação ocorreu na presença de várias pessoas na delegacia, inclusive na frente do titular da DPMA, à época, o delegado Marco Aurélio Castro. Ela relatou que foi ele quem a protegeu da fúria de Demetrio.

— Outras pessoas entraram na confusão, disseram que ele não precisava fazer aquilo — conta ela. — Eu ainda tenho medo dele e temo pela minha família. Mas é preciso vir a público e dizer que ele é um monstro, que precisa ficar preso — diz a pensionista.

O delegado Demetrio foi preso em 30 de junho do ano passado, pelo Gaeco, na Operação Carta do Corso. As investigações começaram em 2019, quando um empresário da Rua Teresa, em Petrópolis, acusou o delegado de lhe exigir propina para permitir a venda de produtos falsificados na cidade serrana. Demetrio, na época, era o titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM).

O advogado Raphael Mattos, que defende Mauricio Demetrio, disse que não se pronunciaria sobre o suposto caso envolvendo a ex-faxineira e o seu cliente.

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