MPF diz que investigação federal não tem indícios da participação de brigadistas em incêndios no Pará

Naira Trindade

BRASÍLIA — O Ministério Público Federal (MPF) em Santarém (PA) requisitou acesso integral ao inquérito da Polícia Civil do Pará que acusa brigadistas por incêndios florestais em área de proteção ambiental em Alter do Chão. Presos nesta terça-feira, os quatro integrantes da Brigada de Incêndio de Alter do Chão tiveram em prisão preventiva mantida nesta quarta-feira pelo juiz Alexandre Rizzi, da 1ª Vara Criminal de Santarém.

Paralelamente à investigação da Polícia Civil, a Polícia Federal mantém em andamento um inquérito com o mesmo tema. Porém, segundo o Ministério Público Federal, a investigação federal não detém de nenhum elemento que apontava para a participação de brigadistas ou organizações da sociedade civil.

“Ao contrário, a linha das investigações federais, que vem sendo seguida desde 2015, aponta para o assédio de grileiros, ocupação desordenada e para a especulação imobiliária como causas da degradação ambiental em Alter”, consta do texto divulgado pelo MP.

Estão em prisão preventiva Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes, Marcelo Aron Cwerver. Em nota, a Brigada afirmou estar “em choque com a prisão de pessoas que não fazem senão dedicar parte de suas vidas à proteção da comunidade, porém certos de que qualquer que seja a denúncia, ela será esclarecida.”

Na terça-feira, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Helder Salomão (PT-ES), também oficializou pedidos de informações sobre as motivações que levaram a Polícia Civil de Santarém a prender os quatro brigadistas.

— Os mandados (de busca e apreensão) são genéricos, não têm denúncia específica, não têm objeto claro. Tudo indica que tem armação política, mas não podemos generalizar. Vamos pedir informações ao governador (Helder Barbalho), à Secretaria de Segurança Pública do Estado e à Polícia Civil — afirmou o deputado Helder Salomão, na Câmara.

Na Operação Fogo do Sairé, deflagrada nesta terça, além da prisão dos brigadistas, a polícia também fez busca e apreensão na ONG Saúde e Alegria. Um dos presos é funcionário da ONG. Os outros são da Brigada de Incêndio de Alter do Chão. Para o deputado Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), há uma tentativa de se criminalizar os trabalhos de movimentos sociais e de organizações não governamentais.

— Não vamos aceitar que se desenvolva uma tese de que foram das ONGs ambientalistas os criminosos. Daqui a pouco vão dizer que foram eles que fizeram o dia do fogo em toda a Amazônia. Não vamos aceitar a criminalização de movimentos sociais e de ONGs com história de dedicação à justiça social e à defesa da Amazônia — afirmou Rodrigues.

O coordenador da ONG Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, alegou que o mandado de busca e apreensão estava desacompanhado de decisão judicial e negou suposto envolvimento dos brigadistas nos incêndios da Amazônia.

— Existe uma tentativa de rebaixar e criminalizar as ONGs, o movimento indígena, a agenda clima, o movimento ambiental. A gente lamenta, porque a questão do meio ambiente não é de direita nem de esquerda — disse Caetano Scannavino.