MPT investiga patrocinadora do Corinthians por assédio eleitoral

SÃO PAULO, SP, E SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - O MPT (Ministério Público do Trabalho) instaurou procedimento para apurar denúncias de assédio eleitoral que teriam ocorrido nas dependências da Bebidas Poty, fabricante de bebidas localizada no município de Potirendaba (440 quilômetros de São Paulo).

A Poty é uma das patrocinadoras do time de futebol do Corinthians e participou de uma audiência com o procurador responsável pelo caso às 13h desta sexta-feira (28), durante a qual negou quaisquer irregularidades.

Segundo o MPT, um inquérito foi aberto no dia 24 de outubro para investigar uma denúncia de que integrantes da diretoria da empresa estariam tentando influenciar o voto dos funcionários. O candidato favorecido seria o atual presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa o segundo turno das eleições contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O órgão não deu detalhes sobre as denúncias recebidas. De acordo com o MPT, apenas na cidade de Potirendaba já foram registradas dez denúncias de assédio eleitoral, dentre 120 denúncias feitas no interior de São Paulo.

Na audiência desta sexta, foi proposta a assinatura de um TAC (Termo de Ajuste de Conduta), prevendo compromissos para coibir o assédio, mas a Poty se recusou a fazer o acordo, condicionando a assinatura do documento a uma retratação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), entidade que recebeu a denúncia e repassou ao MPT.

De acordo com a Procuradoria, o denunciante original é uma pessoa física que fez a reclamação no site mantido pela CUT e outras associações (www.cut.org.br/denuncia/eleitoral). A entidade, então, encaminhou a denúncia ao MPT e se prontificou a fornecer os dados da pessoa, sob sigilo.

Os representantes da Poty, contudo, alegam que a CUT teria espalhado a notícia do suposto assédio eleitoral e pediram uma retratação como condição para assinar o TAC. Na audiência, o representante da entidade negou a acusação e disse que não seria possível assumir o compromisso, resultando num impasse entre as partes.

Representantes do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação de São José do Rio Preto e Região também participaram da reunião e disseram que, ao receber a notícia do MPT, contataram a empresa, que negou irregularidades. Acrescentaram ainda que outros trabalhadores da Poty negaram a prática e que o sindicato nunca recebeu reclamação de outros funcionários da empresa, com os quais tem contato frequente.

De acordo com o MPT, o inquérito continua e caberá ao órgão juntar provas de que o assédio realmente aconteceu.

Em nota, a Bebidas Poty disse que nenhum de seus mais de 1.000 colaboradores é assediado, coagido ou perseguido para que se posicione em relação a qualquer situação, inclusive na sua preferência eleitoral.

"A empresa tem convicção de que a denúncia realizada pela CUT é uma acusação sem provas e está sendo devidamente apurada em inquérito conduzido pelo Ministério Público do Trabalho", disse. "A Bebidas Poty aguarda a finalização do inquérito para buscar a responsabilização legal de quem promove denúncias falsas com o único objetivo de prejudicar a empresa", conclui.

Procurada, a CUT destacou que a denúncia foi feita no canal criado especificamente para fatos relacionados a assédio eleitoral, acrescentando que, assim como o MPT, também possibilita que as reclamações sejam feitas de forma anônima ou sigilosa. "Agora caberá às autoridades essa investigação, dentre os mais de 300 casos recebidos pelas centrais sindicais", disse Antonio Megale, assessor jurídico da CUT nacional.

Por telefone na tarde desta quinta-feira (27), o diretor da empresa José Luiz Franzotti disse achar a situação inacreditável e que aguarda a audiência. Questionado se tinha conhecimento das denúncias, o diretor se irritou com a reportagem, disse que a imprensa monta um "gabinete do ódio" e desligou o telefone.

Em sua conta no Instagram, a última publicação de Franzotti data de 1º de outubro (um dia antes do primeiro turno das eleições). No vídeo, ele diz ser "da direita", pondera que respeita todas as opiniões políticas, e fala sobre os candidatos que apoia.

"Estamos sendo governados hoje por um presidente que às vezes até acho ele um pouco truculento, às vezes até um pouco mal-educado na sua forma de falar, na sua forma de expressar", diz. "Sou a favor da reeleição do nosso presidente", conclui, antes de também declarar apoio a Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo.

A Poty tem sede em Potirendaba, cidade com pouco mais de 17 mil habitantes, de acordo com o IBGE. A companhia também é conhecida por patrocinar times de futebol e tem o logotipo do Guaraná Poty estampado na parte de trás do calção do uniforme do Corinthians.

Bolsonaro foi o candidato mais votado no município no primeiro turno das eleições, com 60,52% dos votos. Lula ficou com 33,34%.

Em grupos de WhatsApp, circula um texto dizendo que funcionários relataram ao MPT que estão sofrendo pressão para votar em Bolsonaro. De acordo com o material, eles estariam recebendo conteúdo partidário em seus números pessoais e sendo chamados dentro da fábrica para ouvirem dos diretores sobre os motivos para eleger o candidato à reeleição.

A pressão estaria sendo feita por Franzotti e pela prefeita de Potirendaba, Gislaine Montanari Franzotti (PTB), que também é sócia da Poty. Em sua conta do Instagram, a prefeita possui diversas fotos ao lado de Bolsonaro.

Procurada para comentar, a Prefeitura de Potirendaba afirmou que Gislaine Franzotti não participa da administração da Bebidas Poty e enviou uma nota dizendo que nenhum servidor do município foi perseguido, coagido ou assediado durante sua gestão --mas sem mencionar as denúncias envolvendo a empresa.

"Vale ressaltar que a Prefeita tem sim um posicionamento político, mas ela não concorda, não compactua e repudia qualquer tipo de ato que atente contra a liberdade de expressão de cada um", diz a nota.

As denúncias de assédio eleitoral explodiram durante a campanha para o segundo turno das eleições. Até a última sexta-feira (21), o MPT havia recebido 1.112 denúncias em todo o país. O número representa um grande aumento em relação às eleições de 2018, quando o MPT recebeu 212 denúncias.

Em função disso, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), acertou com líderes partidários nesta terça-feira (25) a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar casos de assédio eleitoral supostamente praticados por empresários e gestores públicos em favor de Bolsonaro.

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ONDE DENUNCIAR ASSÉDIO ELEITORAL

- Site do MPT: mp.br/pgt/ouvidoria

- Pelo aplicativo MPT Ouvidoria, para dispositivos Android

- Pelo aplicativo Pardal, que também se comunica com o MP Eleitoral, para IOS e Android

- No sindicato de cada categoria

- No Ministério Público Federal

- Nas procuradorias regionais