Muçulmanos da Áustria temem ser estigmatizados após atentado

Denise HRUBY, Blaise GAUQUELIN
·3 minuto de leitura
Homenagem às vítimas do atentado de Viena
Homenagem às vítimas do atentado de Viena

O refugiado Khuseyn Iskhanov se deslocou até o local do ataque em Viena para transmitir o apoio da comunidade chechena às famílias das vítimas, mas ele teme um aumento de atos islamofóbicos em uma Áustria frequentemente tentada pela extrema direita.

"Nossos filhos já notam ódio contra o Islã na escola", disse à AFP este dissidente de 60 anos que teme comparações após o ataque terrorista no qual quatro pessoas morreram. 

Na Áustria, 8% da população professa a religião muçulmana, uma das taxas mais altas da União Europeia. Mesmo antes desse ataque islâmico, os atos racistas contra os muçulmanos aumentaram, de 309 em 2017 para 1.051 em 2019.

A extrema direita (FPÖ), quando esteve no poder juntamente com o chanceler conservador Sebastian Kurz, entre dezembro de 2017 e maio de 2019, multiplicou os discursos hostis à segunda religião deste país onde o catolicismo está em declínio. 

O ex-vice-chanceler Heinz-Christian Strache, próximo aos neonazistas em sua juventude, afirmou em 2019 que em jardins de infância muçulmanos "formam mártires pregando o ódio".

Em comunicados, o FPÖ, que deixou o poder após um escândalo de corrupção, retrata sistematicamente os muçulmanos como mulheres usando burcas ou niqabs, apesar do fato de que apenas uma pequena minoria de fiéis afirma pertencer ao Islã rigorista.

De acordo com um estudo publicado no ano passado, metade dos austríacos tem uma imagem ruim dos muçulmanos e o movimento identitário que vem crescendo desde 2012 na Europa é especialmente forte neste país de 8,9 milhões de habitantes.

Em Viena, os muçulmanos tomam distância do assassino austríaco-macedônio de 20 anos que tentou ir para a Síria em 2018 para se juntar às fileiras do grupo Estado Islâmico (EI). 

Na sexta-feira, 350 mesquitas convocaram uma oração em homenagem às vítimas do ataque.

"Esse homem não entendia nossa religião, mas temo que isso tenha um impacto negativo sobre nós", confessou Ahmed (que não quis revelar seu sobrenome), ao deixar a maior mesquita da cidade. 

"Para mim, o terror não vem de nenhuma religião", diz Aminat Iskhanova, de 17 anos, filha do refugiado checheno. "Independentemente das crenças, nada autoriza matar pessoas", afirma a adolescente apátrida que chegou do Cáucaso no início dos anos 2000.

Pelo contrário, "o Islã diz que devemos ajudar os outros", acrescenta Khalid Abu El Hosna, "muito orgulhoso" de seu filho que ajudou um policial na noite do tiroteio.

Osama o ajudou arriscando sua vida e confrontou o assassino fanático, tentando argumentar com ele. 

"Eu disse a mim mesmo que não fugiria porque esse policial se colocou em perigo por nós", disse o jovem de 23 anos, natural da Faixa de Gaza.

Hoje o elogiam por sua bravura, mas sua vida nem sempre foi fácil na Áustria, onde já apareceu nos jornais com sua família, vítima de flagrante discriminação. 

Seu pai queria comprar uma casa em uma pequena cidade localizada a uma hora da capital, mas o prefeito se opôs, citando "diferenças culturais" que poderiam alterar a relativa tranquilidade da região.

Uma batalha judicial foi travada. Khalid Abou El Hosna venceu. Mas, no final, ele não deixou Viena por medo de viver em uma cidade que "não nos queria".

Se ele tivesse se mudado, seu filho poderia não ter estado lá na segunda-feira para estancar o sangramento do agente, agora fora de perigo, diz seu pai.

deh-bg/anb/erl/e/mr