Mudança climática prejudicará saúde dos bebês nascidos agora para o resto da vida

Por Paul RICARD
(Arquivo) Mães protestam com seus bebês em Londres, em ação contra a mudança climática convocada pelo grupo Extinção da Rebelião

Se a mudança climática não for freada, a saúde dos bebês que nascem agora estará ameaçada ao longo de suas vidas por doenças que vão desde asma até desnutrição, alerta um estudo da revista médica The Lancet divulgado nesta quinta-feira.

"As mudanças climáticas definirão a saúde de uma geração inteira", afirma o médico Nick Watts, responsável por este informe médico.

"Se for mantido o status quo, com emissões de carbono elevadas e o mesmo ritmo de aquecimento, uma criança nascida agora viverá aos 71 anos em um mundo 4ºC mais quente em média. Isso ameaçará a saúde em todas as etapas de sua vida", escrevem os autores.

"As crianças são especialmente vulneráveis aos riscos de saúde ligados às mudanças climáticas. Seu corpo e sistema imunológico estão em desenvolvimento, o que as torna mais vulneráveis às doenças e aos poluentes", afirma Watts, do Instituto para a Saúde Mundial da Universidade de Londres.

As consequências sobre a saúde "persistem na idade adulta" e "duram a vida toda", aponta, defendendo uma "ação imediata de todos os países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa".

O informe é a edição 2019 de um documento publicado anualmente pela The Lancet que mede 41 indicadores sobre saúde e mudanças climáticas e foi feito em colaboração com 35 instituições, incluindo a Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial.

Este ano, os pesquisadores se concentraram na saúde das crianças, com a poluição atmosférica como uma das maiores preocupações.

"Ao longo de toda sua adolescência e até a idade adulta, um bebê nascido agora respirará um ar mais tóxico, causado pelos combustíveis fósseis e agravado pelo aumento das temperaturas", prevê o estudo.

Os efeitos potenciais são muitos entre as crianças, cujos pulmões estão em desenvolvimento: "diminuição da função pulmonar, agravamento da asma e maior risco de crise cardíaca e de acidente vascular cerebral".

- Bactérias e mosquitos -

Segundo o informe, "as emissões mundiais de CO2 que procedem dos combustíveis fósseis continuam subindo", com um aumento de 2,6% entre 2016 e 2018, e as "mortes prematuras relacionadas com as (partículas finas) PM 2,5 permanecem em cerca de 2,9 milhões no mundo".

Outro efeito temido pela mudança climática é o aumento de epidemias de doenças infecciosas, às que as crianças são particularmente sensíveis.

Um clima mais quente e mais chuvoso favorece o desenvolvimento de bactérias responsáveis por doenças diarreicas e pela cólera, assim como a propagação de mosquitos vetores de infecções.

Devido às mudanças climáticas, "a dengue é a doença viral transmitida pelos mosquitos que se propaga mais rapidamente no mundo", segundo o informe.

"Nove dos 10 anos mais propícios para a transmissão da dengue ocorreram desde 2000, permitindo aos mosquitos invadir novos territórios na Europa", segundo os pesquisadores.

O informe ressalta também que o aumento das temperaturas poderia provocar fenômenos de desnutrição, devido à diminuição das colheitas e ao consequente aumento dos preços dos alimentos.

Globalmente, os autores apontam que a geração de nasce agora estará mais exposta aos fenômenos meteorológicos extremos, como canículas, secas, inundações e incêndios florestais.

Estes pesquisadores julgam crucial "limitar o aquecimento abaixo de 2ºC", como prevê o Acordo de Paris. E reivindicam que os impactos sobre a saúde estejam "na primeira linha da agenda da COP25", a conferência da ONU sobre o clima que começará em 2 de dezembro em Madri.