Mudança na Petrobras evidencia desequilíbrios e “traz medo no longo prazo”, diz estrategista do banco Mizuho

João Sorima Neto
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SÃO PAULO — Se o ministro da Economia, Paulo Guedes, já estava frustrado com o avanço da agenda de privatizações do país, a ingerência do presiente Jair Bolsonaro no comando da Petrobras pode atrapalhar ainda mais os planos do governo de vender ativos.

Isso porque aumenta a percepção de risco do Brasil e os investidores tendem a diminuir o interesse de investir no país, avalia Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil.

Quais as consequência para a economia brasileira da ingerência política do governo na Petrobras?

Um cenário intervencionista na economia tem várias consequências. Uma delas é atrasar ainda mais a agenda de privatizações. O interesse do investidor pelo país cai com o aumento da percepção de risco. A forma como a troca de comando na Petrobras foi conduzida deixa o horizonte econômico mais incerto. Ações de empresas estatais como Eletrobras e Banco do Brasil estão caindo, por exemplo.

A decisão de Bolsonaro mostra uma espécie de guinada do governo em suas propostas liberais para a economia?

Na verdade, o governo não conseguiu colocar em prática uma agenda mais liberal. Houve alguns avanços, mas não na magnitude que se esperava. Minha avaliação é que o país ainda paga um preço pelos equívocos do passado.

Como assim?

A economia brasileira opera com desequilíbrios. Tome a questão fiscal. Os preços do petróleo estão subindo no exterior e isso tem reflexo nos preços domésticos. Isso acaba gerando uma pressão política. Existe o risco de uma nova greve de caminhoneiros de grande escala. E foi isso que motivou a ingerência na Petrobras. O que quero dizer é que falta margem de manobra para absorver esses choques. Isso traz medo no longo prazo, o que na prática significa menos crescimento econômico, menos emprego, menos renda para o cidadão.

As medidas que o governo anunciou para tentar conter o preço dos combustíveis, como a isenção de tributos federais, surtem algum efeito?

São paliativas. Temos um problema fiscal crônico. O espaço é limitado para zerar alíquotas de PIS/Cofins. Isso só reforça a percepção de que a carga tributária é elevada porque é preciso custear a maquina pública. Esse tipo de ação (reduzir impostos) traz mais prejuízos porque aumenta a incerteza. Um dos caminhos para reduzir esses desequilíbrios é avançar na agenda de reformas, reduzir esses desequilíbrios a que me refiro para que a economia não fique exposta a esses choques externos.

Qual a previsão do Banco Mizuho para a economia brasileira este ano?

Revimos nossa projeção de crescimento de 3,7% para 3,5% (ainda antes da troca de comando na Petrobras). Para o primeiro trimestre deste ano, nossa estimativa é de uma retração do PIB de 0,5%. Ainda acreditamos que as reformas possam andar e ajudar o fiscal. Com isso, a economia ganharia tração na segunda metade do ano.

Hoje o prêmio de risco do Brasil já está subindo?

O CDS, uma espécie de seguro contra calotes do governo, deu um salto de 163 pontos, na sexta-feira, para 186 agora. Essa subia causa um aperto nas condições financeiras. As taxas de juros mais longas estão subindo. Isso reduz a confiança dos investidores, inclusive os domésticos, e as empresas fica propensas a investir menos.