Muhammad Ali: biografia esmiúça genialidade, ativismo antirracista e erros com mulheres e amigos

Ivan Martínez-Vargas
·4 minuto de leitura

Diz o senso comum que todo ser humano é um poço de contradições. Muhammad Ali, tricampeão dos pesos-pesados e considerado o maior lutador de boxe de todos os tempos, elevou a máxima a patamares extremos em uma vida superlativa.

Forte, veloz, inteligente, belo, elegante, inconsequente, perdulário, machista, egoísta, arrogante, pioneiro, rebelde, antirracista, desesperado por amor e atenção. Todas esses adjetivos parecem caber no personagem retratado na biografia “Ali: Uma Vida”, escrita pelo jornalista americano Jonathan Eig e cuja tradução foi lançada no Brasil pela Editora Record.

O livro apresenta ao leitor o humano por trás do personagem Muhammad Ali. Disseca a relevância do lutador para o movimento de luta por direitos civis aos negros nos Estados Unidos, mas mostra também as controvérsias nas quais o atleta se envolveu.

Há inúmeras obras que se debruçam sobre Ali, nascido Cassius Clay Jr., mas Eig é o primeiro a abordar a vida toda do atleta, do seu nascimento em um subúrbio habitado por negros em Louisville, no Kentucky, até a morte do ex-pugilista, em 2016.

— Tentei entrevistar todo o mundo que o conhecia bem ou que teve um papel importante em sua vida e ainda estava vivo— diz Eig ao GLOBO.

O resultado é uma obra tão hiperbólica quanto a vida do biografado: quatro anos de apuração, mais de 600 entrevistas com cerca de 200 pessoas, um trabalho condensado em 770 páginas.

No livro, Eig faz uma narrativa esmiuçada do processo de conversão de Ali ao islamismo e de sua veneração por Elijah Muhammad, líder do movimento Nação do Islã, do qual fez parte Malcolm X.

Discurso antirracista e relações com mulheres

Aparecem na obra contradições entre o discurso antirracista do atleta e seus comentários jocosos sobre a aparência de oponentes negros, como Sonny Linston e Joe Frazier.

— Alguns fãs e amigos de Ali se zangaram com o livro, mas o meu trabalho foi ser honesto, e não retratar Ali como um santo. Os heróis são imperfeitos, também falham — ressalta Eig.

O autor relata ainda detalhes da relação abusiva do pugilista com as mulheres, vistas pela Nação do Islã como inferiores aos homens.

Ali, que se divorciou três vezes e teve nove filhos, traía suas esposas de maneira contumaz, além de agredir ao menos duas delas.

Eig narra como o atleta teria pressiona a primeira esposa, Sonji Roi, a usar roupas que escondessem o corpo. Em ao menos um episódio, o lutador a agride após uma discussão sobre um vestido que ela usava e que Ali considerava curto demais.

Outra atitude questionável é o afastamento repentino, por parte do lutador, de Malcolm X quando este deixa a Nação do Islã. Embora ambos fossem próximos, Ali critica dura e publicamente o amigo, que seria assassinado pouco depois de se afastar da seita, em 1965, por membros do grupo .

As controvérsias e falhas do humano Muhammad Ali são importantes para entender sua vida, defende Eig.

O livro não se resume, contudo, às contradições de Ali. Descreve-o como um genial atleta, mostra seu excepcional talento como frasista e revela como surgiram alguns de seus motes ,como “voe como uma borboleta, ferroe como uma abelha”.

O autor faz descrições minuciosas de momentos da vida ativista do lutador, como sua recusa a se alistar para lutar na Guerra do Vietnã que lhe rendeu o banimento dos ringues por anos. “Os vietcongues são considerados negros asiáticos, e eu não tenho nenhum litígio contra pessoas negras”, declarou Ali à época.

Lutas importantes

No campo esportivo, a obra dá ao leitor a sensação de estar presente em lutas importantes na carreira de Ali, com destaque para os embates com Linston, Frazier e George Foreman. Para cada combate, ficamos sabendo o número de golpes dados, com a análise tática dos confrontos.

O livro apresenta ainda personagens cruciais na carreira do campeão, como o técnico Angelo Dundee, o polêmico empresário Herbert Muhammad e o médico Ferdie Pacheco, que já no início dos anos 1970 entorpecia os punhos doloridos do pugilista antes das lutas.

O decaimento físico de Ali no final da carreira e sua decisão de seguir nos ringues mesmo após sinais evidentes de desgaste físico também são contextualizados ao leitor. A necessidade de dinheiro, conta Eig, impulsionou-o a alongar para além do aconselhável a vida nos ringues, o que provavelmente precipitou o surgimento do Parkinson.

A doença, embora o tenha exposto como vulnerável, também lhe brindou, no fim da vida, com a admiração praticamente unânime da opinião pública que o atleta militante não teve quando estava na ativa.