Muito ativo no Facebook, premiê húngaro lança ofensiva contra gigantes digitais

Peter MURPHY
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O presidente Viktor Orban faz anúncio sobre confinamento parcial na Hungria para combater a pandemia do coronavírus, em 9 de novembro de 2020 em Budapeste

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, muito dependente do Facebook, teme o mesmo destino de seu aliado Donald Trump com os gigantes digitais e promete legislar sobre o assunto antes das eleições do próximo ano.

O governo "vai submeter uma lei ao Parlamento nesta primavera", anunciou a ministra da Justiça, Judit Varga, na terça-feira, ao fim de um "comitê extraordinário" para analisar as sanções contra as plataformas que "limitarem a liberdade de expressão".

Esta iniciativa, similar a uma adotada na Polônia, surge depois que contas do ex-presidente dos Estados Unidos foram suspensas pelo Facebook, Twitter e por outras redes sociais em decorrência da invasão ao Capitólio.

"Hoje, qualquer um pode ser desconectado das redes de forma arbitrária", denunciou Varga, "não importa se você é padeiro, cabeleireiro, aposentado, professor, ou se preside um Estado".

Embora o discurso seja novo, o Ministério húngaro da Justiça garante, ao ser questionado pela AFP, que está "analisando o assunto há cerca de um ano", depois de ter recebido inúmeras provas da "limitação de mensagens dos usuários sem qualquer notificação, ou explicação".

Judit Varga acusa as redes sociais de "abusos sistemáticos" e de proibições "realizadas sem transparência" para fins políticos. Segundo ela, o Facebook quer "reduzir a visibilidade das opiniões cristãs, conservadoras e de direita".

Nesse sentido, o Ministério cita os trabalhos do "Projeto Veritas", grupo de militantes que afirma ter-se infiltrado no Vale do Silício para demonstrar seu preconceito.

Paradoxalmente, Viktor Orban usa regularmente as redes sociais para se dirigir de forma direta aos húngaros. Sua página no Facebook conta com um milhão de seguidores, um número considerável em um país de 9,8 milhões de habitantes, dos quais 5,4 milhões possuem uma conta.

Varga e o ministro das Relações Exteriores, Peter Szijjarto, também costumam anunciar suas decisões nas redes sociais.

Acusado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) de ter limitado drasticamente a liberdade dos meios de comunicação, Orban usa o Facebook para difamar a União Europeia e seus adversários políticos.

Assim como Donald Trump, adota uma narrativa conspiratória repleta de "fake news", segundo os informes de várias organizações internacionais, como a ONU e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

E os gastos com publicidade feitos pelo seu partido, o Fidesz, excedem em muito os das demais siglas húngaras.

Parece claro que a proibição digital de Trump assustou o primeiro-ministro húngaro, a um ano das eleições legislativas, afirma Agoston Mraz, do "think tank" Nezopont, em entrevista à AFP.

"O Fidesz teme que, sem regulamentação, possa ocorrer um incidente quando as eleições se aproximarem", completa, em especial, porque Orban não tem outra tribuna digital.

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