Intérprete de Suzane Von Richtofen, Carla Diaz fala a real sobre gravações: "Muitos pesadelos"

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Carla Diaz no Egito (Foto: Reprodução/Instagram @carladiaz)
Carla Diaz no Egito (Foto: Reprodução/Instagram @carladiaz)

Carla Diaz entrou no “Big Brother Brasil 21”, em janeiro deste ano, com a ansiedade a mil. Em meio à pandemia da Covid-19, acumulou a expectativa pelo lançamento dos badalados filmes “A menina que matou os pais” e “O menino que matou meus pais”, paralisada pela crise sanitária mundial, com a superação de um câncer na tireoide, descoberto ao acaso, e as incertezas de novos trabalhos, comum ao meio artístico. Sempre muito discreta em sua vida pessoal, embora tenha crescido sob os olhos do público durante seus 29 anos de carreira, a atriz, de quase 31, se expôs no reality show, por 24 horas, durante cem dias. Na mansão mais vigiada do Brasil, apaixonou-se, revoltou-se e foi apontada. Já livre do confinamento, percebeu-se aprisionada pelo impiedoso julgamento alheio. “As pessoas falam sobre você como se te conhecessem profundamente e como se elas fossem suas donas. É impossível não se abater”, desabafa ao EXTRA.

 Fortalecida pelo carinho do Borboletário, como ela chama seu enorme e crescente fã-clube (só no Instagram, os dois milhões de seguidores passaram a ser quase dez milhões nos últimos nove meses), a paulistana agora vive um tempo de celebração: desde o fim de semana passado, quando os longa-metragens do caso Richthofen estrearam no streaming, sua interpretação vem recebendo um sem-número de elogios, Brasil e mundo afora. “Meu nome está sendo buscado, no Google, em países como Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Portugal... É algo muito maior do que eu esperava”, empolga-se a loura, também feliz por poder acompanhar, a partir desta segunda-feira (dia 4), a reprise da novela “O clone” no “Vale a pena ver de novo” da TV Globo, e com ela a volta de sua inesquecível e carismática Khadija aos lares brasileiros: “Inshallah, muito ouro!”.

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“A menina que matou os pais” e “O menino que matou meus pais” narram as circunstâncias que envolveram o caso Richthofen, crime que abalou o Brasil pela crueldade, em 2002. Como você se recompunha da gravação de cenas com energia tão pesada?

Foi mesmo um crime brutal e muito comentado. Eu tinha 12 anos na época e tenho lembranças nítidas dos noticiários. Precisei me dedicar muito a esse projeto. Vi todos os vídeos disponíveis na internet, li reportagens, ouvi o depoimento dos envolvidos, conversei e fiz workshop com os autores Ilana Casoy e Raphael Montes. Acessei emoções que eu, como Carla, nunca havia acessado na vida. Houve dias em que não conseguia me desligar. Tive algumas noites com pesadelo, dormindo mal. Sou muito intensa, não consigo me envolver pela metade em nada. Para me recompor, optei por ficar na minha casa, no meu canto, sozinha. Isso me ajudava a voltar para o meu eixo. Mesmo assim, para você ver a intensidade, filmamos os dois longas-metragens em 33 dias. Então, não tive muito tempo para mim.

As críticas positivas dos filmes têm exaltado o seu trabalho de interpretação. As negativas mencionam “glamorização do crime” e “espetacularização da tragédia”. Como você recebe essas opiniões?

Eu fiquei muito feliz com todos os elogios. A gente não faz um trabalho pensando nisso, mas é um carinho que faz bem. Também me emocionei com comentários de gente do meio artístico. É um reconhecimento de muitos e muitos anos de carreira. Perceber que eu posso me desafiar, fazer coisas novas, é o que me motiva artisticamente. E esses filmes foram isso. As críticas negativas fazem parte do processo, sei bem como funciona o jogo. E se são negativas, mas construtivas, acho muito válido. Sobre glamorização do crime ou espetacularização da tragédia, não acho que tenham cabimento. Não retratamos assim. Por ser uma história real, toda a produção sabia da responsabilidade e do respeito necessário. O que eu acho é que o gênero “true crime” ainda é pouco trabalhado no Brasil. Nós consumimos muito, mas de produções de fora. Nossos filmes estão dando um start. São baseados nos autos do processo, no que foi dito pelos réus nos julgamentos. Quem assistiu sabe que essas críticas negativas não se encaixam.

Foi a primeira vez que precisou ficar nua para um trabalho? É tímida para esse tipo de cena?

Dessa forma, foi a primeira vez. Já tinha feito outras cenas mostrando o corpo na TV, onde havia restrições, pelo horário. Como atriz, estou focada em ângulo da câmera, no enquadramento, no microfone.... É tudo ensaiado. O que acontece numa sequência como essa do filme é ter um número menor de pessoas no set, um cuidado para os atores se sentirem confortáveis. Mas essa (nudez) não é uma questão para mim. Se é por um propósito da personagem, para a história, eu me entrego e faço sem reservas.

Também há cenas de consumo de drogas. O que usaram na representação?

É tudo cenográfico. O cigarro (de maconha) tinha camomila. O comprimido (de ecstasy) era uma balinha de menta (risos).

Fazer uma personagem que realmente existe, está viva e é vista de forma tão negativa pela sociedade é mais difícil?

Só pelo fato de ser uma personagem real, já é difícil. Nunca tinha experimentado isso em 29 anos de carreira. É um trabalho de composição diferente, uma construção que não parte do zero. Quando a gente pega um personagem que não existiu, tem uma liberdade na criação. Nesse caso, não. É um processo mais delicado e minucioso. Desde o início, a proposta era que a gente não tivesse nenhum contato com os envolvidos no crime. Eu sempre friso: eles não têm nenhuma ligação com a produção e não lucrarão nada. E mais: os filmes foram feitos com financiamento privado.

Carla Diaz e Leonardo Bittencourt como Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos, respectivamente, nos filmes
Carla Diaz e Leonardo Bittencourt como Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos, respectivamente, nos filmes "A Menina Que Matou Os Pais" e "O Menino Que Matou Meus Pais" (Foto: Stella Carvalho / Divulgação)

Depois de interpretar as duas versões do crime, você formou a sua própria opinião sobre quem é o principal culpado?

Não cabe a mim julgar. Isso já foi feito pela Justiça: os três (Suzane von Richthofen, filha do casal assassinado, e os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, seus ex-namorado e ex-cunhado) são réus confessos, foram condenados e presos. Não há o que mudar. Por mais que, em cada versão, tentem minimizar a própria culpa, ela não é anulada. A verdade, só eles sabem, né? Precisei deixar meu julgamento de lado, senão eu não daria a veracidade necessária às cenas. Mas, como filha, é uma realidade tão distante da minha! Meus pais são meus cúmplices, parceiros, amigos. Tenho um amor tão gigante por eles, que não consigo compreender tais atitudes.

Os filmes foram lançados para 240 territórios. Já teve resposta internacional?

Sim! Recebo mensagens em outros idiomas, preciso colocar no tradutor para entender. O alcance do streaming é gigante! Meu nome está sendo buscado, no Google, em países como Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Portugal... É muito maior do que eu esperava. O projeto foi feito para o cinema, a gente estrearia exatamente uma semana antes da pandemia, e tudo mudou. Veio o fechamento das salas de exibição, eu descobri o câncer na tireoide, entrei no “Big Brother”... Agora, com o lançamento pela Amazon Prime Video, deu mais do que certo.

Em sua última entrevista à Canal Extra, você estava prestes a ingressar no “BBB 21”, mas não podia confirmar. Acredita que sua participação no programa mais agradou ou decepcionou?

Foi uma experiência intensa! É um jogo que exige do físico e do mental. Depois de um tempo, tem um esgotamento. Fiquei impressionada com a mobilização que o programa gera. E com o amor que recebi. Fui coerente com os meus pensamentos e princípios; fui a Carla, não uma personagem. Nos primeiros dias após a saída, foi bem difícil. Fiquei triste, pra baixo. São tantas pessoas falando sobre você, julgando, que é impossível não se abater. Os fãs me acolheram. Hoje, meses depois, eu falo: o “BBB” foi muito importante, mas teve um preço, e eu paguei.

O que mais a impressionou fora do reality?

Os comentários são oito ou 80. Ou te amam ou te odeiam. E o ódio é gratuito. As pessoas falam sobre você como se te conhecessem profundamente e como se elas fossem suas donas. Por outro lado, desde que eu saí, não tem um dia em que eu não receba algo na minha casa dos fãs. Cartas, livros, mensagens fofas, cestas com comida... Mandaram fazer bonecas Barbie personalizadas, com o meu rosto e roupas que eu usava no programa. Ganhei uma coleção de mais de 20 bonecos representando todas as personagens da minha carreira. Não tenho mais varanda, está tomada de recebidos. O closet da minha mãe também virou o cômodo dos presentes. Estou em busca de uma casa maior.

O fandom “Carthur” (torcida pelo casal formado por Carla e Arthur Piccoli no “BBB 21”) continua ativo. Essa pressão a incomoda?

Não existe pressão, mas compreensão. Foi colocado um ponto final nesse assunto há muito tempo, e os fãs entenderam isso. Eles continuam gostando de mim e dele, independentemente de não estarmos juntos. O nome (do fandom) é um ship, mas a admiração é separada.

Como está sua vida amorosa, atualmente?

Estou solteira e muito focada no meu trabalho.

Pós-“BBB”, os pretendentes têm se aproximado mais facilmente ou ficaram receosos?

Eu sempre fui muito reservada. Entendo que a exposição cresceu, ainda mais porque teve a formação do casal no reality, mas não acho relevante comentar isso.

Teve a curiosidade de assistir no Globoplay a tudo o que rolou lá dentro da casa enquanto esteve confinada? Ou preferiu não ficar sabendo?

Preferi não ver. Até porque não tive tempo desde que eu saí de lá. Tenho trabalho quase todos os dias. Conto na minha mão direita as folgas que eu tive desde então, e ainda sobram dedos (risos). E o que passou passou. 

A visibilidade proporcionada pelo “Big Brother” sacudiu a sua vida profissional?

Comercialmente, surgiram muitas campanhas e publicidade. Tem tantos pedidos, que eu fico tonta, tentando conciliar. Há dois anos, assumi as rédeas da minha carreira junto com a minha mãe. Não é só chegar lá e fazer, eu participo de toda a negociação. Fiz duas collabs, uma linha de lenços e uma de óculos. Amei estar inserida nesse mundo da moda! O lado empresária está a mil e o lado artista também. Recebi alguns roteiros, convites para o cinema e o teatro, estou bem animada. Tem uma personagem, de que eu ainda não posso falar, que me deixou encantada e cheia de vontade de fazer. Além de atuar, é para eu entrar como produtora. Projeto grande. Teve também convite para uma série, mas eu não consegui conciliar. Quero escolher o que vou fazer, trabalhos que me motivem e me desafiem.

Financeiramente, sua vida mudou muito do início do ano pra cá? Conseguiu fazer o R$ 1,5 milhão do prêmio nesses últimos meses?

Graças a Deus, consegui ultrapassar esse valor do programa. Estou muito feliz. Realmente, o “BBB” mudou a minha vida nesse sentido.

Você é econômica ou gosta de esbanjar?

Acredita que, depois que saí do “BBB”, não comprei nada? Continuo pegando o carro da minha mãe emprestado (risos). Minha relação com o dinheiro é assim: se for para dar presente a alguém que amo, sou mão aberta. Quando é pra comprar algo pra mim, penso umas cinco vezes antes de gastar.

Tem algum luxo?

Luxo é algo muito relativo, né? Tenho peças caras, mas ganhei tudo, tá? Não sei se eu teria coragem de pagar R$ 20 mil numa bolsa.

Por falar em riqueza, Khadija, a menina do bordão “Inshallah, muito ouro!”, estará de volta à Globo a partir de amanhã... Muita saudade?

Que presente será essa reprise, 20 anos depois! Essa novela me mostrou para o mundo, é uma das mais vendidas no planeta. Tenho fãs até na Rússia! Fui recorde de cartas da Globo, na época. Estar em estúdio era uma diversão para mim. Nos intervalos, eu passava o tempo com a galera da figuração e do elenco de apoio, todos árabes. Por causa dessa convivência, criei o jeito de falar da Khadija. Eu questionei o Jayme (Monjardim, diretor) por que minha personagem, que morava no Marrocos, não tinha sotaque, se o meu pai, que é uruguaio, tinha. Ele ficou chocado ao ouvir isso de uma criança de 11 anos (risos). Esse trabalho foi tão especial, que tatuei “Inshallah”, que significa “Se Deus quiser”, em árabe, na altura da costela.

Naquela época, você não viajou ao Marrocos para gravar. Já conheceu o país?

Eu meio que me realizei no mês passado, quando fiquei dez dias no Egito, pertinho do Marrocos. O Cairo (capital do país) também é mencionado na novela, Tio Ali (Stenio Garcia) estava sempre por lá. Conhecer as pirâmides era um sonho meu. Fui fazer as fotos para a minha campanha de lenços. Curioso é que o maior desejo da Khadija era usar lenço na cabeça, o que só é permitido após a primeira menstruação da menina, pela cultura deles.

A pulseira com que posou para as fotos deste ensaio é a original de “O clone”?

É, sim. E ela foi comigo para o Egito (risos). Também guardo roupas e acessórios de cabeça da Khadija. Há um cantinho no closet em que tenho coisinhas das minhas personagens. Dos filmes do caso Richthofen, herdei um moletom e o par de tênis vermelhos. Da Carine, de “A força do querer”, a Globo me mandou uma caixa com vestidos, tops, sandálias... É um museu pessoal.

Do elenco de “O clone”, mantém contato estreito com alguém, até hoje?

Com Thiago Oliveira, que fazia o Amin da novela. Ele agora é diretor. Rodamos um filme no ano retrasado, “Se a vida começasse agora”, com Caio Castro. Vai estrear logo.

Ano que vem, você estará de volta ao carnaval?

Ah, eu amo! Sou musa da Grande Rio. Teremos uma reunião em breve, acho que vem novidade por aí. Que saudade da folia! Tomara que até fevereiro tudo esteja encaminhado, todo mundo vacinado. Eu já tomei as duas doses contra a Covid. Que possamos celebrar a vida.

Você tem vontade de assumir o posto de rainha de bateria?

Desfilei em vários setores da escola ao longo de duas décadas. O meu prazer é estar na Grande Rio, independentemente do posto. O que importa não é competir pelo lugar ou com outra mulher. Cada uma tem o seu corpo, deve ser exaltada por sua beleza única. Carnaval é comunhão de energias. Eu já me apresentei em vários palcos, e esse é mundial. Sou suspeita de falar do meu amor por essa festa porque fui feita num carnaval, segundo minha mãe.

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