Mulher é resgatada após 72 anos de trabalho escravo no Rio

Mulher resgatada tem 84 anos. Foto: Getty Images.
Mulher resgatada tem 84 anos. Foto: Getty Images.
  • Idosa trabalhou para três gerações da mesma família

  • O 'empregador', André Mattos Maia, diz que ela 'é da família

  • Mulher resgatada está em abrigo

Depois de 72 anos trabalhando como empregada doméstica em condições análogas à escravidão, uma mulher negra, de 84 anos, foi resgatada. Ela foi submetida ao trabalho forçado por três gerações da mesma família, no Rio de Janeiro, sem receber salário.

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência, essa é a mais longa duração de exploração de uma pessoa em escravidão contemporânea desde que o Brasil passou a fiscalizar esse crime, em maio de 1995. Nos últimos 27 anos, foram mais de 58 mil resgatates realizados pelo poder público.

A ação para resgate da idosa começou no dia 15 de março. Estão em negociação os pagamentos de salários e direitos atrasados. O resgate foi realizado pela Auditoria Fiscal do Trabalho no Rio, com a participação do Ministério Público do Trabalho e do programa Ação Integrada, que garante atendimento psicossocial.

A vítima está em um abrigo público sob acompanhamento desde a semana passada. As informações são do portal UOL.

A fiscalização informou que os pais da idosa trabalhavam em uma fazenda no interior do estado que pertencia à Geraldo e Yvone Mattos Maia. Aos 12 anos, ela se mudou para a residência do casal para realizar serviços domésticos, onde ficou ate eles faleceram. Foi quando se mudou para a casa da filha deles, onde seguiu suas atividades, incluindo o cuidado com as crianças.

Atualmente, atuava como cuidadora de uma idosa, com idade similar a ela. O “empregador” é André Mattos Maia. A família alega que ela era tratada “como se fosse da família”, mas vizinhos negam e afirmam que ela era, sim, tratada como empregada doméstica.

Uma irmã e uma sobrinha da vítima foram ouvidas, que confirmaram a situação de trabalho da mulher. Segundo elas, a idosa se mudou muito jovem com a família Mattos para o Rio de Janeiro, na esperança de conseguir estudar. No entanto, a vítima tinha visitas e ligações controladas pelo patrão.

Quando a trabalhadora foi falar a sós com a fiscalização, o homem a pegou pelo braço e disse: "você não diga que trabalhou para a minha mãe, senão você vai foder com ela".

Segundo o coordenador da ação, o auditor fiscal do trabalho Alexandre Lyra, os “empregadores” alegaram que os serviços domésticos não eram trabalho, mas uma colaboração voluntária no âmbito familiar.

"Em casos como este ouvimos sempre a afirmação de a vítima é 'como se fosse da família'. Mas para essa pessoa da família não foi permitido estudo, nem laços de amizade externos ou mesmo conduzir a própria vida. Essa pessoa da família dorme em um sofá, em um espaço improvisado como dormitório em uma antessala do quarto da empregadora, de quem ela era cuidadora", explica.

Já Yasmim França, coordenadora e psicóloga social do projeto Ação Integrada, explica que muitas vezes as vítimas de trabalho análogo à escravidão não compreendem que não são membros da família. "Isso gera um sentimento de lealdade, há uma servidão por dívida de gratidão", disse.