Mulher, do Nordeste, de baixa renda e evangélico: quem é o brasileiro que não torce para nenhum time

A pesquisa O GLOBO/Ipec sobre o tamanho das torcidas no Brasil, que apontou quase 25% de brasileiros sem manifestar preferência por algum clube, indica a presença de questões socioeconômicas e de gênero entre os fatores que envolvem a decisão de não torcer para ninguém. Segundo o levantamento, realizado no início de julho, o percentual de entrevistados que não têm um time do coração cresce entre mulheres e entre pessoas de baixa renda.

A escolha por um clube específico também é menor do que a média entre evangélicos e moradores da região Nordeste – categorias em que a presença de população de menor renda, na avaliação de especialistas, têm maior peso do que em outros estratos.

Entre os sem torcida, a maior diferença percentual aparece no recorte por gênero. De acordo com a pesquisa, os entrevistados do sexo masculino representam 13,6% dos que declaram não torcer para nenhum clube. Já nas entrevistadas do sexo feminino, o percentual vai a 33,9%, isto é, cerca de 20 pontos a mais.

Uma discrepância semelhante aparece no recorte por renda familiar: a distância da menor faixa, formada pelos que vivem com até um salário mínimo, para a maior faixa, dos que recebem acima de cinco salários, é de quase 17 pontos percentuais. No caso dos mais pobres, quase um terço (31,3%) dizem não ter time. Entre os mais ricos, o índice cai para 14,4%.

A região Nordeste é a única que fica acima do índice geral de pessoas que não tem time: nela, 30,7% afirmaram não torcer para ninguém. O percentual supera o das regiões Norte e Centro-Oeste, analisadas juntas pela pesquisa, e Sul, que ficam próximas à média geral, de 24,4%; e do Sudeste, onde 20,5% disseram não ter time do coração.

O Nordeste é justamente a região com menores remunerações médias no país, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-Contínua) anual, do IBGE. De acordo com a PNAD, metade da população dos estados nordestinos vive com até R$ 506. No Sul e no Sudeste, a renda dos 50% mais pobres é o dobro deste valor.

A jornalista e pesquisadora Hevilla Wanderley Fernandes, mestre em ciência política pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com a dissertação “A Questão Nordestina: Estado, região e futebol”, avalia que o futebol não é um fator de mobilização para municípios menores e até alguns dos principais centros do Nordeste na mesma medida que em cidades como o Rio. Hevilla cita como exemplo locais do sertão paraibano em que o calendário das eleições, e não o andamento de competições esportivas, é o que costuma dividir a população em diferentes camisas e bandeiras. Para a pesquisadora, no entanto, a explicação para haver mais pessoas sem time na região vai além de questões culturais.

– Não me parece que só o futebol explique esse maior percentual de pessoas sem time no Nordeste. Talvez a fome e os problemas econômicos estejam fazendo as pessoas escantearem o que seria sua diversão, e, embora isso seja um problema nacional, é importante lembrar que o Nordeste tem a região semi-árida mais povoada do mundo – afirma a pesquisadora.

Marcelo Paz, presidente do Fortaleza, um dos clubes mais pujantes da região, corrobora essa leitura:

— Quem ganha menos tem necessidades mais básicas do que acompanhar futebol. Então, o entretenimento vira secundário. Precisamos fazer o clube chegar a essas pessoas e mostrar como torcer pode gerar um impacto na vida delas.

Segundo a pesquisa, 29,3% dos evangélicos afirmam não torcer para nenhum time. Entre os católicos, o índice cai para 22,5%.

Historicamente, há também maior participação da população de baixa renda entre os evangélicos, especialmente os vinculados a igrejas pentecostais, hoje maioria no país. Segundo o último Censo do IBGE, de 2010, mais de dois terços (67,3%) dos pentecostais viviam com até um salário mínimo à época. Entre os católicos, o percentual no mesmo estrato era de 59,2%.

— Não é tarefa fácil e rápida buscar este público. Importante é entender o motivo de ele ainda não ter um time. Aí sim podemos colocar energia para desenhar uma estratégia mais eficaz — aponta Renê Salviano, CEO da Heatmap Sports Marketing e ex-diretor de marketing do Cruzeiro. — Vale reforçar que reter o torcedor e trabalhar a jornada dele é mais fácil que buscar novos.

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