Mulher é presa pelo crime de obediência à cartilha de Bolsonaro de combate ao coronavírus

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“Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir”, disse Jair Bolsonaro no último dia 10, quando provocou uma aglomeração de populares ao comprar, segundo ele, um anticoncepcional e um teste de gravidez em uma farmácia de Brasília.

No auge da pandemia, que já matou mais de mil pessoas no Brasil, o presidente já criticou as medidas de isolamento dos governadores para achatar a curva de contaminação, já chamou a doença de resfriadinho e já fritou publicamente seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, um dos raros auxiliares fora da cota de terraplanistas de seu governo.

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Os estragos da postura infantiloide do presidente não só não podem ser ignorados como são sentidos a quilômetros da área de alcance de seus perdigotos.

Na última segunda-feira (13), em Araraquara, interior de São Paulo, uma mulher de 44 anos decidiu seguir à risca a cartilha bolsonarista de enfrentamento da crise. Em protesto, ela descumpriu um decreto municipal que reconhece o estado de calamidade na cidade onde duas pessoas já morreram por coronavírus e que impede a circulação de pessoas em praças públicas.

Ao ser abordada por uma equipe de reportagem em uma dessas praças, a mulher argumentou que era uma pessoa livre, que o direito constitucional de ir e vir estava acima do decreto municipal, que seu país não era uma ditadura como a China e desafiou a Guarda Municipal a prender uma “pessoa de bem”. Como se encarnasse o presidente, disse que o “circo do coronavírus” era uma armadilha dos países comunistas para derrubar outras nações e se tornarem “os donos do mundo”. O plano, disse ela, contava com a anuência do governador João Doria (PSDB-SP) e do PT, que governa a cidade.

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O ato de desobediência era uma demonstração real de um prognóstico feito pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em sua entrevista ao Fantástico: ao rejeitar as orientações do próprio ministério, Bolsonaro confunde a população que a essa altura já não sabe quem ouvir.

A empresária de Araraquara tomou lado no bate-cabeça e acabou detida, não sem antes reagir, xingar e morder uma guarda municipal, a quem chamou de comunista do inferno.

O vídeo foi parar nos trending topics do Twitter, e levou muita gente ilustrada a instruída a vibrar com a cena -- de um dia para o outro, uma mulher algemada de costas após ser imobilizada por quatro agentes de segurança diante de uma câmera virou exemplo de como se deve agir em casos de resistência.

O desfecho é só o ponto-alto de uma conjunto de falhas na arquitetura de um projeto civilizatório básico.

Para entender a cena, é preciso voltar muitas casas e identificar em que momento falhamos em dar respostas a ponto de alguém cair na conversa e acreditar que exista, de fato, um plano comunista de domínio mundial -- e como a exigência de um direito individual passou a se sobrepor ao dever de não colocar em risco a vida de outras pessoas em meio a uma pandemia.

Foi o que fizeram os manifestantes que invadiram a Avenida Paulista no fim de semana e improvisaram uma rave, com direito a caixão e deboche, momentos após o Planeta confirmar mais de 100 mil mortos na pandemia.

Será mesmo loucura?

O episódio em Araraquara tem um pouco de tudo do Brasil atual, um país transtornado, desequilibrado, egoísta, bruto e destroçado pela paranoia.

Quando, nas pequenas decisões individuais das pequenas praças das pequenas cidades, as teorias da conspiração substituem a razão, e esgarçam o que sobrou do tecido de solidariedade coletiva a ponto de a força policial precisar intervir, é porque todas as respostas anteriores já perderam o sentido. Tudo fica ainda mais escancarado quando o desfecho se torna motivo de gozo.

Vale a pergunta: que culpa tem a mulher que resolve peitar os esforços coletivos de contenção do vírus se o próprio presidente faz e manda fazer exatamente isso?

A solução mais óbvia pode até deter, numa clara demonstração de força, os indivíduos na ponta da cadeia que perderam a conexão da realidade em um mundo que só entregou a eles a contrapartida o desamparo -- real, embora nomeado por outras fantasias.

Esse comportamento já não é o desvio.

É o caminho que investe o desajuste de autoridade. Uma autoridade que, na hora da crise, tem na paranoia, na mania de perseguição e na miragem da própria virilidade as ferramentas tiradas do coldre, incapazes de propor qualquer solução concreta para a contenção da tragédia se não a banalização da própria morte.

Com mãos simulando armas, Bolsonaro foi eleito com uma plataforma de culto à morte. E essa plataforma criou uma legião disposta a esnobar a própria vida, e a vida de todo mundo ao redor, em troca de um sentido para a própria existência.

Pensar em como chegamos até aqui pode ser tudo, menos engraçado.

O deboche sobre a mulher detida em Araraquara é só o efeito-rebote de um remédio que obviamente não funcionou.

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