Mulher que recebeu o coração de Eloá morre no Pará por causa da Covid-19

ALFREDO HENRIQUE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A vendedora Maria Augusta da Silva dos Anjos, 51 anos, morreu na tarde desta segunda-feira (3), em Parauapebas (PA), após uma internação de oito dias decorrente da Covid-19. No peito dela batia o coração de Eloá Cristina Pimentel, morta aos 15 anos em outubro de 2008 após ser baleada na cabeça pelo ex-namorado, o motoboy Lindemberg Alves Fernandes, em Santo André (ABC).

Maria Augusta nasceu e cresceu com problemas cardíacos, segundo familiares, e por isso entrou na fila de transplantes, sendo uma das sete pessoas receptoras dos órgãos da estudante.

Sobrinha de Maria, a fisioterapeuta Jeanne Carla Rodrigues Ambar, 39 anos, acompanhou à distância, de São Paulo, os últimos dias da parente, com quem mantinha contato por meio de mensagens e telefonemas.

"Minha tia foi diagnosticada com o coronavírus há pouco mais de um mês. Mas o quadro dela piorou no último dia 25, quando ela passou a reclamar de falta de ar e por estar bem fatigada", relembra a sobrinha.

Primeiramente, a vendedora foi encaminhada para um hospital público, em Parauapebas, cerca de 720 km da capital Belém, mas que estava sem leitos disponíveis. Por isso, Maria foi levada para um hospital particular, onde permaneceu por dois dias, mas sem estar em uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).

"Neste hospital não tinha UTI disponível e ela só foi piorando até que, na noite do dia 27, minha tia comentou com minhas outras tias, que a acompanhavam, que estava com muita falta de ar. Por isso, correram com ela novamente para um hospital público, onde constataram que a saturação dela estava em 50%", afirmou a sobrinha, se referindo ao índice de oxigênio no sangue, que não pode estar abaixo de 94%, segundo especialistas.

Na segunda ida a uma unidade pública de saúde, não havia novamente leitos disponíveis e a família se viu obrigada a encaminhar Maria para outro hospital particular, onde ela conseguiu a única vaga de UTI disponível, ainda segundo a sobrinha. "Precisamos fazer isso, pois com a baixíssima saturação em que ela estava, poderia ter uma parada [cardiorrespiratória] a qualquer momento."

Já no Hospital Santa Terezinha, a vendedora foi informada pelos médicos que precisaria ser entubada e, segundo a sobrinha, concordou com serenidade. "Parece que ela já sabia o que iria acontecer. Trabalhei em UTIs por 15 anos e quando vi a tomografia dos pulmões de minha tia, sabia que somente um milagre poderia a salvar", disse Jeanne.

Maria Augusta foi sedada e entubada por volta das 3h do último dia 28, acrescentou sua sobrinha. Desde então, seu quadro de saúde foi piorando até que o coração de Eloá, transplantado na vendedora em 20 de outubro de 2008, dia de seu aniversário, parou de bater, por volta das 16h desta segunda-feira (3), dois dias antes da data em que Eloá completaria 28 anos.

Os parentes pretendem criar um instituto com o nome de Maria Augusta, para dar continuidade a um trabalho social que ela desenvolvia, com mais de 100 crianças ribeirinhas, na Ilha do Marajó.

A vendedora estava casada desde julho de 2017 o índio Carlos Polinário Guajajara, 34 anos, com quem não teve filhos.

AMIZADE COM MÃE DE ELOÁ

Ana Cristina Pimentel, 54 anos, mãe de Eloá foi informada sobre a morte de Maria Augusta por meio de um telefonema, feito por parentes da vendedora, na tarde desta segunda-feira.

Ambas costumavam conversar, por meio de mensagens, com constância, segundo Ana. "Como ela morava no Pará, falava com ela por mensagens sobre se ela estava se cuidando direitinho. Ela ficou maravilhosa quando recebeu o coração da Eloá, aí vem essa doença [Covid-19] e ela morre. Para mim foi muito triste", desabafou.

Ana acrescentou também que os familiares de Maria Augusta fizeram uma vaquinha online, pedindo ajuda para pagar os gastos com o hospital particular onde ela permaneceu internada. Segundo a sobrinha da vendedora, foram mais de R$ 50 mil.

Segundo sua família, Maria Augusta nasceu com um problema cardíaco grave, chamado de ventrículo único. Por causa disso, ela não conseguia ainda andar, quando tinha 5 anos. Até os 22 anos, quando foi submetida a uma cirurgia para a colocação de uma válvula cardíaca, Maria teve uma vida limitada pela cardiopatia.

Após o procedimento, ele viveu por 16 anos com menos dificuldades, mas soube então que só um transplante poderia salvá-la. Ela aguardou por cerca de dois anos na fila, ciente de que poderia morrer a qualquer momento, até que em 20 de outubro de 2008, dia de seu aniversário, recebeu o coração de Eloá.

Em entrevista ao jornal Agora, em fevereiro de 2009, a vendedora afirmou sobre o sofrimento que passava antes do transplante. "As pontas dos meus dedos ficavam roxas. Eu sofria física e emocionalmente", afirmou à época.

Ela acrescentou ter corrido pela primeira vez na vida, aos 39 anos. "Eu nunca tinha corrido. Recentemente, corri pela primeira vez ao atravessar a rua. Não senti nada", relatou na ocasião.

LINDEBERG

O motoboy Lindeberg Alves Fernandes cumpre pena na Penitenciária 2 de Tremembé (147 km de SP) desde que foi condenado pela Justiça, em 16 de fevereiro de 2012. A juíza Milena Dias determinou pena de 98 anos e 10 meses de reclusão pela morte de Eloá e pelo cárcere privado de Nayara e dos dois amigos que estavam com elas. Em 6 de julho de 2013, o Tribunal de Justiça de São Paulo reduziu apena para 39 anos e 3 meses em regime fechado.

Nesta terça (4), o ministro Sebastião Reis Júnior, do Superior Tribunal de Justiça, negou pedido de liminar em habeas corpus no qual a defesa de Lindemberg pedia a progressão para o regime semiaberto.