Mulher que teve marido e filho mortos no Chapadão já teve outra filha baleada na favela

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A vida da trancista Sônia Bonfim Vicente tem sido marcada pela violência. Em 2018, sua filha Rebecca Vicente, então com 5 anos de idade, foi vítima de uma bala perdida, no Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio. No último sábado, dia 25, ela perdeu o marido e o filho quando eles foram atingidos por disparos durante patrulhamento do 41º BPM (Irajá). A pequena Rebecca chegou a ter que passar por uma cirurgia para retirar a bala.

— Eu não levei esse caso para frente porque ela está viva. Ela foi atingida nas nádegas. E não teve operação policial naquele dia também. Mais uma vez estou passando por isso, e o batalhão é o 41º BPM — desabafa a trancista.

William Vasconcellos da Silva, de 38 anos, e Samuel Vicente, de 17, estavam em uma moto com a namorada de Samuel, Camily da Silva Polinário, de 18 anos, quando os três foram atingidos por disparos.

— Saímos para beber fora do Complexo, em Vilar dos Teles. A minha nora passou mal por causa de um cachorro-quente, começou a vomitar, desmaiou. Meu marido colocou ela na moto, e meu filho falou "mãe, deixa que eu levo ela". Eu vim andando a pé, porque de lá para minha casa era próximo. Escutamos tiro. Para mim, eles tinham passado de moto antes do tiroteio. Quando olhei para o chão, reconheci que era meu marido pelo chinelo — conta.

A namorada de Samuel, Camily da Silva Polinário, de 18 anos, também foi atingida por tiros e está internada no Hospital Estadual Getúlio Vargas em quadro estável, para onde foi após ser transferida do Hospital Estadual Carlos Chagas. Uma quarta pessoa foi ferida de raspão na perna, uma mulher que não teve a identidade revelada. Ela foi socorrida para o Hospital Estadual Carlos Chagas.

A trancista diz que não estava tendo confronto nem operação antes disso. E que o marido e o filho foram atingidos por muitos disparos. William trabalhava em uma farmácia, e Samuel sonhava em ser policial militar.

— Ele tinha paixão pela farda. Ele se alistou no Exército, e ia ter que se apresentar. Ele falava que não ia ser igual aos outros. "O que eles fazem aqui, vou fazer diferente", ele dizia. "Vou dar muito orgulho para a senhora, você vai ver" — lembra a mãe.

O procurador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Rodrigo Mondego, que acompanha o caso, esteve no IML na manhã do último domingo para prestar assistência jurídica à família.

— A versão da polícia é de que os três seriam traficantes. A moto era do William, era legalizada. Isso já não sentido, porque nenhum traficanta anda com moto própria para cometer crimes. Essa versão não faz absolutamente nenhum sentido, de que os três em uma moto estavam atacando a polícia militar — diz o advogado.

De acordo com Mondego, o laudo cadavérico dos dois ainda não saiu, e não houve perícia.

— Por algum motivo as mortes por intervenção policial na região do 41º BPM não vão para a Delegacia de Homicídios, ficam nas delegacias da região — afirma.

Segundo a Polícia Militar, agentes do 41ºBPM (Irajá) estavam em patrulhamento na Rua Alcobaça, em Anchieta, quando foram atacados a tiros. O objetivo do patrulhamento era coibir o roubo de carga e de veículos. "Após estabilizar a situação, a equipe localizou três suspeitos feridos. Eles foram socorridos ao Hospital Estadual Carlos Chagas. Com os acusados, os policiais apreenderam duas pistolas, carregadores, munições, um conversor para submetralhadora, dois rádios comunicadores e material entorpecente", diz a nota. O caso foi registrado na 27ªDP (Vicente de Carvalho), e segundo a Polícia Civil, as armas utilizadas na ação foram apreendidas e testemunhas estão sendo ouvidas.

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