Mulher tem a mão quente para fazer sushi: fato ou fake?

·3 min de leitura

Pode ter mulher em sushibar? Se não pode, por quê? É fato ou é fake que mulher tem a mão mais quente, o que interfere no trato do peixe cru? É uma questão cultural, é machismo, é equívoco ou, ao contrário, faz sentido? Indiferente a tantas interrogações, a bancada feminina só faz crescer em restaurantes japoneses do Rio. O novo Japa da Quitanda, em Ipanema, é um bom exemplo desse movimento. Ali, há quatro delas na linha de frente, facas em punho, lidando com sushis e sashimis.

Cônsul-geral do Japão no Rio, Ken Hasiba diz que poder, pode, mas que não é algo comum de se ver em seu país. Canais de TV japoneses até têm programas com mulheres chefs de sushi, ele diz. Mas ele mesmo nunca viu uma em ação por lá.

—Não se trata apenas de uma questão cultural, de tradição oriental. Ser chef de sushi é um trabalho puxado fisicamente e exige muita disponibilidade de tempo do profissional. Infelizmente, o avanço social das mulheres no Japão ainda está atrasado. São elas que cuidam da casa, dos filhos. Poucas podem ter uma jornada de trabalho tão extensa — pondera o cônsul.

Além disso, a estrutura de restaurante no Japão é bem diferente, explica Alissa Ohara, dona do tradicional Azumi, em Copacabana:

— Lá, é o sushiman quem vai ao mercado atrás dos melhores peixes nas primeira horas do dia. É um trabalho pesado, já que um peixe pode pesar 100 quilos. Ele que pega, leva e limpa o peixe. Aqui, o sushiman só entra no final. É mais simples.

Quanto à história de a temperatura do corpo da mulher ser mais alta do que a dos homens, médicos desmentem.

— Mulher tem mãos e pés mais gelados, até por isso costumam sentir mais frio. Em média, elas têm 0,36°C a menos de temperatura do que os homens— diz o dermatologista e clínico Igor Magalhães.

O angiologista Leonardo Stambowsky completa:

— Os homens têm uma temperatura maior porque têm mais massa muscular, que produz mais calor.

Isto posto, talvez Nao Hara, do Japa Nao e Kitchen Asian Food, tenha razão quando vê um pouco de machismo na restrição de mão de obra feminina em sushibar.

— É desculpa, preconceito que se arrasta há séculos. A tradição é muito forte entre os orientais. No Japão, até vi mulheres trabalhando em sushibar, mas só negócios pequenos, familiares. Já trabalhei com algumas e são muito eficientes — defende.

Para Marcel Naga, sócio do Naga, com casa em Rio e São Paulo, só não há mais sushiwomen na praça por falta de mão de obra.

— A mulher pode executar qualquer função. No caso do sushibar, faltam mulheres capacitadas.

Para resolver a questão, Patrick Stern e Patrick Szklarz, sócios do Japa da Quitanda, treinaram, durante 15 meses, funcionárias que tinham outras funções na casa para assumir a bancada de peixes crus.

— O sushibar ficou melhor com elas. São ágeis, organizadas, criativas — diz Stern, que está promovendo um concurso de sushiwomen, para reforçar o time da casa.

Com 19 anos, Taynara da Silva Mateus, trabalhava ali como auxiliar de garçonete antes de ir assumir as facas.

— Ainda sinto um pouco de preconceito, um estranhamento. Elas dizem, “ah, você é uma sushiman”, como se eu executasse a profissão exclusiva de um homem. Mas acho que é questão de tempo — diz.

Um tempo que está demorando a chegar, apesar de já ter havido outras sushiwomen por aqui, como Graça Tanaka, no Tanaka, nos anos 1990, e Miriam Moriyama,que esteve à frente do Shisô, no Hotel Hyatt, na Barra.

Embaixadora da gastronomia japonesa no Brasil, Telma Shiraishi — que há 15 anos abriu em São Paulo o Aizomê, onde cuida dos pratos quentes — lembra que sushiman é um termo criado por americanos.

— O nome real do chef de sushibar é Sushi Shokunin, palavra que é unissex.

E ficamos combinados assim.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos