Mulheres do Afeganistão vão à piscina e sonham com Tóquio 2020

Por Anne CHAON
Elena Saboori, presidente do Comitê feminio de natação do Afeganistão em Cabul, no dia 18 de março de 2017

Das 30 piscinas existentes no Afeganistão, apenas uma, privada, permite a entrada de mulheres, mas um corajoso grupo decidiu mergulhar de cabeça para obter a classificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Elena Saboori é uma delas. A jovem de 25 anos estuda economia e dirige a seleção feminina do esporte, recém-criada, sonhando com a viagem ao Japão daqui a três anos.

As primeiras braçadas aconteceram graças a uma amiga nadadora. Depois, começou a treinar seguindo dicas de vídeos que encontrou na internet. Três ou quatro vezes na semana, antes das 8h ou depois das 16h, ela nada na única piscina de Cabul - e do país - que aceita mulheres.

"No início, tinha muito medo de me afogar. Foi por isso que pensei em me tornar treinadora, porque as mulheres se afogam porque não sabem nadar aqui", explicou Saboori.

Atualmente, há com uma dúzia de nadadoras. "Muitas outras querem aprender, se entram em contato comigo eu aceito, não posso deixá-las de lado", diz.

Conservadorismo e tabus

A alarmante falta de infraestruturas não é o único obstáculo. O conservadorismo da sociedade e a discriminação a que as mulheres são submetidas pelos insurgentes islamitas representam até um perigo para suas vidas.

"São vários tipos de ameaças, mentais inclusive. Tenho a impressão de que estamos melhorando, sofrendo menos do que antes. Mas sei que enfrento um tabu, assumo um grande risco ao promover esse time", admite Saboori.

Melhor? Os responsáveis da piscina em que podem nadar, e onde iriam receber a AFP, pediram que elas se afastassem por um tempo. O estabelecimento recebeu ameaças quando o Nowrooz, o ano novo persa, se aproximava.

"Todos os países muçulmanos, com exceção do Afeganistão, têm times femininos. Até os mais rigorosos", destaca o jovem presidente da Federação Afegã de Natação, Sayed Ihsan Taheri.

Sayed cita Catar, Irã e Arábia Saudita: "tem locais de treinamento para as mulheres, mas aqui há um certo desconhecimento do esporte feminino", representado por alguns como "proibido do Islã".

"O principal desafio para nossas nadadoras é a segurança", lamenta o mandatário.

A insegurança é um desafio maior para qualquer afegão, que enfrenta ameaças de atentados em grande parte das províncias e até no coração da capital, Cabul.

Desde 2016, nenhuma região se livrou das ofensivas talibãs e, especialmente no leste e no noroeste, dos ataques dos radicais do Estado Islâmico.

Muito pior para as mulheres, sobretudo para as que pretendem mudar os limites de uma sociedade patriarcal e conservadora. O desafio é ainda maior para um esporte como a natação, no qual partes do corpo ficam à mostra.

Roupas de natação compridas

É impossível o time de Saboori nadar com braços e pernas nus. Um traje de lycra de manga comprida cobre as meninas por cima dos maiôs.

"Estamos em contato com uma empresa brasileira que vai elaborar trajes de banho apropriados", diz Taheri.

Apesar da falta de recursos, Saboori não esconde sua ambição: "queremos [ir a]os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 com um time de pelo menos dois homens e uma mulher".

Até lá, a treinadora espera que suas nadadoras possam comparecer ao campeonato da Ásia Central, no Turcomenistão, no fim de abril. "Com um pouco de apoio, poderíamos vencer o título regional", diz.

Mas até o momento, o governo não só faz vista grossa, como bloqueia o valor simbólico de 500 afeganis (menos de 8 dólares) por mês para cada membro da seleção nacional.

Taheri batalha para que a federação recupere pelo menos quatro piscinas municipais de Cabul, entre elas uma descoberta, construída pelos soviéticos nos anos 1970 no alto de uma colina e atualmente abandonada. A vontade é transformar o espaço em um grande centro aquático.

Enquanto espera a ajuda governamental, a federação lançou um crowdfunding na página Dreamfuel, especializada no financiamento de atletas de alto nível.

"Conseguimos 900 dólares até agora. É uma honra ajudar esses atletas incríveis e apoiar essa mudança histórica", afirmou a fundadora da plataforma, Emimy White, à AFP. O time afegão de natação feminino precisa de pelo menos US$ 3.000.