Mulheres conquistam espaço no skate e viram esperança de medalha em Tóquio

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Já se passaram quase 20 anos do dia em que seu Jaime, enfurecido com a vontade da pequena Leticia em seguir praticando um esporte que “não era de menina”, serrou o skate da filha. Não adiantou. O choro durou pouco, e no dia seguinte a garota de 9 anos já havia montado outro skate e estava andando de novo com os amigos. Corte rápido para 2021: a criança seguiu praticando, conquistou a confiança do pai — que deu o maior apoio para que ela fosse morar sozinha na Califórnia com apenas 14 anos — e se tornou um dos maiores nomes do esporte. Está na final do Mundial de skate street que será encerrado hoje em Roma, na Itália, e confirmada nos Jogos de Tóquio, na estreia olímpica do esporte.

Ao mesmo tempo em que Leticia Bufoni virou uma atleta vencedora, conhecida e respeitada, o skate foi aos poucos ganhando cada vez mais espaço entre as mulheres. Se no surfe existe uma “brazilian storm”, como é chamado o grupo de brasileiros que tomou de assalto o circuito mundial, não é exagero dizer que há, no skate, uma tempestade feminina que veio para ficar, pouco se lixando para o preconceito que ainda existe.

— Todo dia quando vou andar encontro uma garota nova. Em vários momentos já vi a pista com mais meninas do que meninos andando — diz a paulista Dora Varella, nona colocada no ranking mundial da modalidade park e já garantida na Olimpíada. — Estamos tendo mais visibilidade, mais apoio e incentivo, mais campeonatos.

A percepção de Dora é traduzida em números. Segundo pesquisa Datafolha de 2019 encomendada pela Confederação Brasileira de Skate, houve um aumento de 75% de mulheres praticantes do esporte, que seriam, naquele ano, cerca de 2,2 milhões.

— O skate brasileiro está muito bem, mas o feminino eu considero que está em sua melhor época. Das cinco primeiras no ranking mundial (de street), três são brasileiras. Estamos com muitas meninas, não somente em nível de qualidade, que é forte, mas em quantidade também — exalta Leticia, 28 anos, que não esconde o nervosismo com a proximidade da Olimpíada. — Quanto mais perto vai chegando, mais ansiosa vou ficando.

Domínio no street

Outras três brasileiras estão entre as 20 primeiras no ranking do street, que se classificam para Tóquio. Há, porém, um limite de três atletas por país. Desta forma, o time verde-amarelo na modalidade está fechado com Pamela Rosa (21 anos, primeira no ranking), Rayssa Leal (13, segunda) e Leticia (quarta). Não é exagero sonhar com um pódio completamente brasileiro nas Olimpíadas. Na modalidade park, além de Dora estão classificadas Isadora Pacheco (16 anos e 11ª no ranking) e Yndiara Asp (23 e 14ª).

— O skate sofreu um “boom” gigantesco com o anúncio de que se tornaria esporte olímpico. A evolução que se sonhava desde o começo aconteceu. As meninas também são responsáveis por estarem vivendo esse auge do esporte e eu tenho orgulho enorme em fazer parte dele — diz Pamela, 21 anos, campeã mundial em 2019 e que já se pegou sonhando com o pódio olímpico. — Com a proximidade a ansiedade vai aumentando mesmo.

Dora, de 19 anos, não passou o sufoco vivido por Leticia. O primeiro skate foi um presente de Natal da avó. A primeira pista de skate foi conhecida por sugestão do pai, que nunca praticou o esporte, mas abraçou e incentivou a paixão da filha. Mas mesmo protegida e apoiada pela família e amigos, a tricampeã mundial amadora e campeã brasileira já teve que ouvir muitas gracinhas machistas em sua ainda curta carreira:

— Já ouvi comentários preconceituosos nas pistas, coisas tipo “ela anda bem para uma menina”. Eles nunca me abalaram, e na verdade me motivam mais ainda a mudar o pensamento dessas pessoas mostrando como ando de skate.

Leticia aponta que, apesar do crescimento no número de meninas praticantes, ainda há muita gente que estranha quando vê uma mulher com skate debaixo do braço. Com a experiência de quem viu seu “carrinho” (como o skate é conhecido) ser serrado ao meio pelo pai e convivia com apelidos de “Maria João” por viver entre os meninos, ela virou um “porto seguro” para muitas garotas que estão começando e ainda sofrem com alguma espécie de preconceito. Em suas redes sociais, são comuns as mensagens perguntando como ela fez para conseguir a autorização dos pais para se dedicar ao esporte:

— Sempre respondo dizendo que para mim também não foi fácil, mas mesmo assim eu persisti e nunca deixei que ninguém falasse o que eu podia ou não podia fazer por ser mulher. Segui em frente sem dar atenção para quem quisesse me impedir.

O esporte brasileiro agradece.

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