Mulheres jovens empreendem com bordados e mostram que a arte é atual

Ana Clara Veloso
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A designer Inajah desenha no computador e imprime figuras para bordar

Maria Fauvel aprendeu o ponto-cruz com a amiga da avó, ainda aos 7 anos de idade. Também na infância, Inajah Moreira enfeitava os vestidos das bonecas bordando com a sua mãe. Para Caroline Passos, as técnicas foram apresentadas na escola, durante o ensino fundamental. E Isabela Avelar já era universitária quando decidiu pegar na agulha. Com histórias de iniciação diferentes, as quatro são mulheres que, com menos de 40 anos, bordam e mostram que esta arte é atual.

— O bordado, durante muito tempo, foi a ocupação das mulheres que ficavam em casa. Depois virou profissão com pouco reconhecimento. E hoje vejo esse trabalho chegando a muitos lugares. O bordado é muito inclusivo, tem espaço para todas as mãos e técnicas — avalia Inahaj, de 33 anos.

No Sebrae, por exemplo, o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB) têm alunas de 27 a 60 anos. A analista Marcela Ingrid aponta que o rejuvenescimento da arte não é só por parte dos criadores, mas também da demanda.

— No mercado de moda e decoração tem aumentado a procura dos jovens, por agregar valor à peça. Por isso, falamos para o artesão que é fundamental manter o padrão e a autenticidade — afirma.

Maria, Caroline, Isabela e Inajah sabem bem disso. Assim, valorizam mais a liberdade na criação do que um avesso perfeito no bordado, lidando bem com um ponto errado ou um nó que fica pendurado no pano.

— As bordadeiras têm características diferentes. Eu, por exemplo, gosto de fazer quadros, utilizando a aquarela — conta Caroline.

Fazer da atividade um negócio é um desafio

Bordar pode ser uma delícia, mas transformar a atividade em negócio tem alguns desafios. Segundo Bruna Pelegrino, especialista do CRAB, as artesãs geralmente têm dificuldades de precificar os seus produtos.

— A artesã pode gastar uma semana para produzir um material. E às vezes perde essa noção e não valoriza o serviço. É preciso enxergar o tempo investido para embutir isso no preço do item — recomenda.

Ultrapassar o ambiente de convívio e apresentar sua arte em espaços diferentes é outro desafio. O CRAB ajuda nesta tarefa, apresentando às artesãs outras empreendedoras e cedendo espaço para exposições e vendas. Mas, redes sociais também são aliadas para anunciar produtos e receber encomendas.

Conheça Maria, Inajah, Caroline e Isabela

Maria Fauvel, de 29 anos, @maisonfauvel: No início de 2019 fiz uma oficina de bordado, por interesse pessoal. Para mim, é quase terapêutico: eu gosto do trabalho de estar bordando. E veio depois a ideia de empreender com as calçolas, entre outras coisas. Comecei a vender há pouco mais de seis meses por meio do Instagram e está virando uma marca. O diferente no meu trabalho é que, apesar dessa ferramenta que eu uso, o bordado, as coisas que faço com ele fogem muito desse lugar normativo da vovó, sempre fofa, com florzinhas. Minha pegada é diferente disso. Vendo calçolas com mensagens de liberdade feminina.

Caroline Passos, de 37 anos, @caroline_passos_: Nunca dei certo em trabalhos manuais, mas em 2016 fiz um curso na área e vi que era diferente, e que disso eu gostava. Comecei a produzir para mim mesma e depois por encomendas. Também aprendi técnicas de aquarela e costumo mesclar as duas artes para fazer quadros. Gosto de ter liberdade para criar. Então, geralmente, as pessoas me falam uma frase e eu pesquiso pelas redes sociais do que ela gosta, para criar o bordado.

Isabela Avelar, de 25 anos, @__transbordar: Aprendi a bordar ponto-cruz com a minha vó, aos 20 anos. E como tomei gosto, fui fazer um curso para bordar textos e aprofundar mais os pontos. Mas começar a empreender não foi uma decisão. Um dia, expus meus bordados numa feira da universidade e uma moça quis comprar. Como era estudante e estagiava, o bordado virou uma fonte de renda extra importante. Cheguei em um formato próprio que era bordar mapas astrais das pessoas e isso durou um tempo. Depois eu comecei a fazer os colares com pingentes bordados, que virou o Trans-bordar. Vendi mais de cem no Natal do ano passado.

Inajah Moreira, de 33 anos, @inajah: Reencontrei o bordado durante a faculdade de Design, com uma professora de desenho e experimentação. Daí comecei a entender o bordado como uma forma de expressão e o inseri nas minhas pesquisas e projetos. Um dos tipos de bordado que faço é sobre um desenho impresso no tecido. Assim, consigo passar por todos os processos do desenho: pensar o projeto, rabiscar, tratar digitalmente, imprimir e depois no final bordar os detalhes. Comecei a presentear amigos com bordados e daí surgiram alguns pedidos.

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