Mulheres políticas têm capacidade questionada, diz Sâmia Bomfim

Deputada diz enfrentar machismos diários. Foto: Divulgação

Ser mulher dentro da política é, antes de tudo, uma provação. De acordo com a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL), ela teve dificuldade para entrar no seu ambiente de trabalho logo depois que foi eleita. O motivo? Ela não era vista como uma parlamentar.

Depois disso, ela afirma que um grande desafio é ser levada à sério pelos seus colegas de trabalho e conseguir expor suas ideias de forma que ninguém ache que ela é menos que algum outro parlamentar homem.

Em entrevista ao blog, ela explicou como esses machismos diários atrapalham o trabalho dela como parlamentar e como, certas questões, não são problema para os homens, mas são para as mulheres no poder.

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Mesmo assim, ela diz que não desanima e que ainda se sente privilegiada de poder, ao menos, estar em um espaço historicamente dedicado à manutenção de poderes com os quais ela não concorda.

Esse tema está sendo discutido pelo blog durante duas semanas. A série de matérias especiais sobre mulheres na política começou no último dia 5 e irá até a próxima sexta-feira (16). A entrevista com a deputada faz parte do projeto.

Leia a entrevista completa:

Me conte um pouco sobre sua trajetória na política.

Sâmia Bomfim: Eu comecei a minha vida na política ainda no movimento estudantil. Eu fiz letras na USP (Universidade de São Paulo), fui do centro acadêmico, do diretório central de estudantes e participei desse momento de efervescência nas ruas do Brasil com as jornadas de junho e a primavera feminista. Eu me filiei ao PSOL em 2011 e, em 2016, eu fui candidata à vereadora da cidade de São Paulo. Foi minha primeira campanha e foi super simples e humilde, mas eu acabei sendo a segunda mais votada do partido. E, hoje, eu sou deputada federal. Fui eleita no ano passado com 250 mil votos. Eu fui a oitava mais votada do Estado de São Paulo. Foi tudo muito rápido. Eu fui eleita vereadora com 27 anos, hoje eu tenho 29. Eu sempre fui militante de base, mas para ajudar coletivos e manifestações. Foi uma grande surpresa [ser eleita].

Para você, qual é o maior desafio da mulher que entra para a política?

Sâmia: Eu acho que é ser ouvida e respeitada em pé de igualdade aos homens que também estão na política. São pouquíssimas mulheres [no poder]. O Brasil é um dos piores países em representatividade feminina na Câmara. Hoje, nós temos a maior bancada feminina na história e somos 77 de 513 deputados. E boa parte delas é esposa ou filha de políticos. São raras as que chegam de baixo, sem nenhum sobrenome que abra espaço para você caminhar mais tranquilamente.

Quais são os machismos que você sofre diariamente?

Sâmia: Existe preconceito com a nossa capacidade intelectual, a nossa capacidade política, a nossa habilidade emocional, inclusive. E também existe um preconceito com o nosso ponto de vista. Ser uma deputada feminista e de esquerda é como se fosse uma anormalidade para um espaço tão tradicional, que é voltado para a manutenção do poder. Quando você chega com uma história diferente e uma atuação que não vai para esse objetivo, tentam te tirar o espaço.

Como esses machismos te atrapalham no trabalho?

Sâmia: Ainda que isso atrapalhe diariamente, querem te fazer sentir incapaz. Então, a nossa insegurança acaba falando mais alto em muitos momentos.

Como você lida com isso?

Sâmia: Procuro lidar de uma maneira natural, não acreditando que o machismo seja natural, mas sabendo que, em todos os espaços da sociedade, a gente precisa lidar com ele. Então, não é mais difícil para mim do que para qualquer outra mulher brasileira. Na verdade, é um privilégio poder estar lá dentro. Eu procuro não me preocupar tanto com isso e isso serve mais de combustível e estímulo para eu estudar mais, produzir melhor e ser mais capaz.

Quais são as principais diferenças que você observa de uma mulher e de um homem na política?

Sâmia: Eu acho que é a aceitação, a naturalidade que as pessoas têm de ver um homem parlamentar e uma mulher parlamentar. É como se você tivesse primeiro que explicar para as pessoas que você é deputada para depois entrar no conteúdo das duas ideias. Os homens vão direto para a apresentação das ideias. Não existe nenhum estranhamento da figura dele.

Você já passou por uma situação assim?

Sâmia: Eu gosto de usar como exemplo o que aconteceu comigo e com outras jovens deputadas nos primeiros meses na Câmara. Nós éramos barradas em todos os espaços destinados à parlamentares com a justificativa de que aquele espaço era exclusivo para os parlamentares. A gente precisava mostrar o nosso broche.

Existe mais alguma coisa que você observe?

Sâmia: Também tem a ideia de que a política é o espaço do poder, do conflito, ou mesmo da violência, como se esses não fossem signos identificados com as mulheres. Então, as mulheres acabam caindo em duas caixas: das histéricas e descontroladas, quando a gente é incisiva, ou das que são muito ingênuas. Isso, raramente acontece com os homens. Eles são vistos como pessoas de personalidade, de opinião…

Você incentivaria outras mulheres a entrarem na política?

Sâmia: Com certeza. Eu busco incentivar. Quero ajudar mulheres em 2020. Quero ajudar a eleger mulheres vereadoras pelo PSOL. Quero que a visibilidade que eu tenho sirva para ajudá-las também. Eu diria para as mulheres que não tenham medo e tenham uma rede de mulheres para dar uma estrutura. Eu não estou sozinha. Eu sou a síntese de um coletivo.

Por qual motivo é importante que as mulheres entrem mais na política?

Sâmia: Somos a maioria da população e, enquanto fomos a minoria nos espaços de poder, significa que tem um problema muito grande com nosso modelo democrático. As mulheres vivem os problemas da sociedade de uma forma mais intensa do que os homens. Estamos no mercado de trabalho, mas as tarefas domésticas, ainda são das mulheres. Isso faz com que a gente tenha uma visão de sociedade muito mais completa e complexa. E faz com que a gente sofra os problemas que estão nessas duas esferas de maneira mais intensa.

Acha que seu trabalho já foi dificultado pelo fato de você ser mulher?

Sâmia: Acredito que sim, na medida que querem me desanimar ou me subestimar cotidianamente. Por exemplo, quando questionam a minha forma física pelo fato de eu ter sobrepeso, como se isso fosse um elemento definidor da minha capacidade política. Isso não faz a menor diferença em nenhuma das minhas intervenções. Mas isso é sempre um elemento para tentar me desmotivar. Dificilmente você vai ver isso ser um elemento que pré-julgue algum homem, até porque, boa parte dos homens que estão na política são gordinhos, mas isso nunca foi um elemento de questionamento de capacidade política deles.