Procura por profissionais qualificados para desfazer procedimentos estéticos aumenta entre mulheres

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Aempresária Nevilla Palmieri, de 34anos, sempre foi considerada umamulher bonita. Aos 18, representouGoiás no Miss Brasil, o concurso maisantigo e tradicional de beleza do país.No ano passado, cismou que asolheiras estavam mais fundas e quealgumas ruguinhas de expressãomarcavam demais o rosto. No impulso, entrou no consultóriode uma dentista que fazia parte do seu círculo de amizades parafazer uma harmonização facial, técnica dermatológica que usa oácido hialurônico para dar volume, reestruturar ou corrigirpequenas “imperfeições” na face. Quando levantou da cadeira,levou um susto. “A profissional aplicou tanto produto nasminhas bochechas que fiquei parecendo o Fofão”, lembra.

Nevilla achou que o volumena face fosse, na verdade, uminchaço e que, em poucos dias,tudo voltaria ao normal. Só que otempo passou e ela viu que oresultado era aquele mesmo.“Tenho uma loja de roupas epreciso postar imagens nas redessociais. Como ia tirar foto seestava me sentindo horrorosa?Foram meses usando muito filtroe tirando mais de 30 retratos paraescolher o menos pior. Só queriavoltar a me reconhecer noespelho”, conta. Ela, então,procurou um dermatologista que,aos poucos, está aplicando umaenzima que dissolve o ácidohialurônico da pele.

Assim como Nevilla, nos últimos tempos, outras brasileiraspassaram a buscar profissionais qualificados para tentar desfazerprocedimentos estéticos. Ainda tímido, o movimento veio paratransformar em #tbt a tendência dos rostos artificialmentesimétricos, seios fartos e sorrisos “mentex”. A moda agora élibertar-se dos padrões de beleza. “Aceitar a nossa aparência naturalnão me parece ser uma tendência passageira porque tem a ver coma conexão que as pessoas estão fazendo com elas mesmas. Isso nãoquer dizer que não possamos fazer procedimento estético algum. Oimportante é termos um olhar crítico sobre o quanto a nossasociedade estimula um padrão que favorece a mulher branca emagra, excluindo uma diversidade de corpos”, afirma a psicólogaGrazielle Bonfim, autora de uma revisão sobre o TranstornoDismórfico Corporal, caracterizado pela observação de defeitos quenão existem de fato diante do espelho.

Os vilões são os aplicativos de retoques de fotos usados semmoderação nas redes sociais. “O uso da tecnologia distorce a realidade e produz padrões de beleza inalcançáveis. Quem não selembra dos bumbuns perfeitos das revistas masculinas? Hoje,sabemos que eles só existiam graças ao photoshop”, lembra LuizaLoyola, consultora da WGSN, agência inglesa de coleta detendências e análise de consumo. “Com o tempo, os recursos deretoques de imagens ficaram acessíveis para todo o mundo. Aí veioa pandemia e a vida ficou mais on-line. Passamos a nos compararmais com os outros. E, finalmente, caiu a ficha do que é real e doque é idealizado. As pessoas descobriram que estão iguais! E agoraquerem algo que as diferencie.”

Autora do livro “Pare de seodiar” e fundadora do MovimentoCorpo Livre, a escritora AlexandraGurgel há anos levanta a bandeiradas discussões fundamentais sobrecomo lidar melhor com o própriocorpo. “Fico muito feliz que a modaagora seja ser fora do padrão. Achoque, finalmente, as pessoas sacaramque precisam se aceitar como são eter mais amor pelo próprio corpo,seja ele do jeito que for”, diz ela.Alexandra passou avida fazendo dietasmirabolantes paraemagrecer. Quando viuque estava submetendoo próprio corpo a umaespécie de tortura,parou de lutar contra anatureza. Resultado:acabou perdendo pesonaturalmente. Háquase dez anos, “caiuna cilada” de fazer umalipoescultura e umimplante de silicone de pouco mais de 200 mililitros. Agora,não vê a hora de se livrar das próteses. “Eu achava só iria serfeliz depois de ter o corpo ‘perfeito’. Fiz a cirurgia e fiqueisatisfeita só por três meses. Depois, fiquei mal. Cheguei atentar tirar a minha vida porque não estava feliz! As pessoasme achavam bonita e tal, mas eu não entendia por que estavainfeliz. Os problemas não se resolvem quando a gente decideenfrentar o bisturi. Por isso, defendo a ideia de cuidar da saúdemental, de fazer terapia antes de entrar no centro cirúrgico.”

Modelo da Aerie, marca de lingerie concorrente daVictoria’s Secret, Cintia Dicker, de 34 anos, também searrepende das próteses de silicone que colocou há dez anos.“Achava os meus seios um pouco caídos e acreditei que, como implante, eles iam ficar empinados. Só que o resultado nãofoi o esperado. E ainda ficaram maiores. Era muito imatura,se fosse hoje, não faria. Vou só esperar ter filho para fazer oexplante”, conta ela. “Não vou perdertrabalho ficando com um visual maisenxuto. Pelo contrário. Hoje, as marcasquerem algo mais natural. Levo broncaquando pinto as sobrancelhas porque asminhas são muito claras”, diz ela.

O implante de silicone ainda é acirurgia plástica mais procurada pelasbrasileiras, à frente da lipoaspiração e daabdominoplastia, segundo dados de 2018da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.Entretanto, se comparada a 2014, a buscacaiu de 22,5% para 18,8%. Nos EstadosUnidos, país ao lado do Brasil quando oassunto é operações estéticas, a retirada depróteses de silicone cresce a cada ano e,antes da pandemia, estava em 15%.

Outro procedimento ainda bastanteprocurado no Brasil são as chamadas lentesde contato dentárias, pequenas peçasconfeccionadas artesanalmente ou pormeio de impressoras 3D, que custam entreR$ 2 mil e R$ 5 mil, cada uma. Elas têm de0,2 a 0,5 milímetros de espessura e sãocolocadas sobre o esmalte com colaespecial, dente por dente. O procedimentoteve seu boom há cinco anos, quando osconsultórios de alguns dentistas registraramo aumento de 300% nos atendimentos,segundo a Sociedade Brasileira deOdontologia Estética (SBOE).

Agora, o movimento para livrar-seda técnica vem crescendo. “A cada 10 pacientes que atendo,três querem tirar as lentes porque acham que o sorriso estábranco demais e muito artificial”, conta o dentista DanielSene. “Ninguém quer que os outros saibam que o riso é fake.Os dentes naturais têm um degradê. O sorriso perfeitotambém não é perfeitamente alinhado. Os dentes lateraisprecisam ser um pouco tortinhos”, explica ele.

A influenciadora Gabriela Pugliesi, de 35 anos, virou umdos assuntos mais comentados no mês passado ao trocar aslentes de contatos dos seus dentes milimetricamente brancaspor outras para deixá-los “mais imperfeitos e pontudos”, naspalavras dela. “Coloquei lentes há dez anos. Na época,confesso, fui muito influenciada pelo padrão estético. Hoje,com mais maturidade e personalidade, vi que esse visual nãocombina comigo. Sempre gostei da beleza mais natural. E vique meu sorriso estava igual ao de todo mundo. Isso estavame incomodando. Acho lindo quem é diferente”, diz ela.

Na maioria dos casos, voltar atrás no resultado de umprocedimento custa tão caro quanto fazê-lo. Uma cirurgia deexplante não sai por menos de R$ 15mil. Para retirar as facetas, otratamento fica entre R$ 1 mil e R$ 2mil, por dente. Já as aplicações dehialuronidase, a enzima que dissolve oácido hialurônico, não saem por menosde R$ 8 mil. “Hoje, 20% das pacientesque atendo querem tirar opreenchimento feito por outro colega”,diz o dermatologista AlessandroAlarcão. “É preciso avaliar cada casoporque nem sempre é possível reverter,já que, tirando toda a substância, a pelepode ficar flácida.”

O psiquiatra Táki Cordás,coordenador do Programa deTranstornos Alimentares do Institutode Psiquiatria do Hospital das Clínicasda Faculdade de Medicina daUniversidade de São Paulo e autor devários livros sobre a relação corpo emente, acha importante quemovimentos de aceitação do própriocorpo estejam entrando na moda. “Opadrão de beleza no Brasil é cruel. Nasclasses altas, a exigência é serextremamente magra. Nas outras,uma silhueta mais curvilínea. Não éfácil para ninguém”, acredita omédico. “É um movimento necessário,mas temos de ser realistas e saber quevai demorar décadas para mudarmosisso. Por enquanto, é importante a consciência de quemodelos e blogueiras têm uma grande influência sobremeninas e mulheres com autoestima baixa. São de extremaimportância para que as mulheres não julguem umas àsoutras”. Palavra de especialista.

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