Mulheres ricas

Duas louras que habitaram o imaginário coletivo pela imensa riqueza e pelo gozo das boas coisas da vida, mortas na mesma semana e com obituários que ganharam as páginas dos jornais do mundo inteiro.

A primeira, Ivana. Nascida em 1949 na antiga Tchecoslováquia, bem jovem percebeu que o mundo comunista não era para ela. Tratou de se casar com um instrutor de esqui austríaco, para atravessar tranquilamente a Cortina de Ferro sem passar por desertora do regime. Assim que conseguiu o passaporte, divorciou-se do moço.

Cinco anos depois, então modelo em Nova York, conheceu o empresário Donald Trump. Casaram-se, tiveram três filhos, mas sua personalidade não era “do lar”. Trabalhou arduamente para multiplicar o império familiar de imóveis, cassinos e hotéis, e criar o mito do empresário que transformava em ouro tudo que tocava. O casal virou sinônimo da sede exagerada por grana, glamour, status e poder tão definitiva dos anos 1980.

Quando descobriu a traição do marido, a batalha judicial pela fortuna apimentou as manchetes dos tabloides. Saiu do processo com milhões, a guarda total dos filhos e imensa popularidade, como ícone das esposas rejeitadas. Deu uma limpada no visual, adotou um icônico penteado panetone, lançou livros de autoajuda e fez até uma ponta no filme “O clube das desquitadas”, em que proferiu a célebre frase, a respeito de ex-maridos: “Não fique com raiva, fique com tudo”. Sabendo rir de si mesma, foi criando seus próprios negócios, que iam de produtos de beleza a joias. Durante o escatológico governo de Trump, ficou sabiamente na sua. Morreu, aos 73 anos, de uma queda estúpida na escadaria de seu palacete, a mesma em que adorava posar, bem rica, entre os corrimões dourados.

Seis dias antes, a partida foi, aos 87 anos, de Lily Safra, a bilionária brasileira que também deu o que falar. Nascida em Canoas (RS) em 1934, cresceu em Mesquita, na Baixada Fluminense. Casou-se quatro vezes: a primeira com um rico empresário argentino, Mario Cohen, com quem teve três filhos; a segunda com Alfredo (Freddy) Monteverde, o visionário fundador da rede Ponto Frio, com quem adotou um menino, Carlos, e de quem ficou viúva, herdando uma fortuna estimada em US$ 230 milhões; a terceira durou menos de um ano; e a quarta, com o poderoso e discretíssimo banqueiro Edmond Safra. Ficaram juntos por 23 anos.

Lily não foi poupada de tragédias impensáveis: o suicídio de Freddy, a morte do amado filho Claudio e de um neto num acidente de carro, e a de Edmond, num incêndio no apartamento do casal em Mônaco, provocado por um enfermeiro que ateou fogo numa lixeira para supostamente posar de salvador do chefe. As provações vieram com rumores e teorias conspiratórias, que se mostraram sem fundamento.

Entre residências em Nova York, Londres, Genebra, Mônaco e a Côte d’Azur (a inacreditável Villa Leopolda, considerada, durante anos, a casa mais cara do mundo), Lily viveu no topo do grand monde e era amicíssima do príncipe Charles, do ator Michael J. Fox, a cuja fundação pela cura do Mal de Parkinson doou cerca de R$ 100 milhões, e do cantor Elton John, que fez um post em sua homenagem, destacando seu apoio contundente à pesquisa da cura da Aids.

Na imprensa internacional, o que passou à frente de todos os epítetos que lhe foram colados ao longo da vida — “Lírio dourado”, bilionária, viúva, socialite — foi, de fato, sua imensa dedicação à filantropia. A fundação que levava seu nome e de Edmond construía e mantinha hospitais, escolas, centros de pesquisas médicas e universitárias, museus, memoriais do Holocausto e sinagogas em todo o mundo, sem contar as inúmeras causas que Lily patrocinava a título pessoal. Há 10 anos, vendeu 70 joias de sua coleção e destinou os US$ 38 milhões arrecadados a 20 instituições; em 2019, ofertou R$ 88 milhões para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, consumida pelo fogo. Uma das maiores doações feitas a um projeto de pesquisa no Brasil foi feita por ela, ao Instituto Internacional de Neurociências de Natal (RN).

Ivana não ficou com raiva, ficou com tudo. Lily ficou com muito mais do que se possa imaginar, mas não tudo, pois doou bastante. Grande dama, Lily.

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