'Mulheres sexualmente ativas ainda são discriminadas', diz Vera Fischer, lembrando sua Helena

Pedro Willmersdorf
·8 minuto de leitura

Já faz tempo que a ciência jogou por terra o mito de que um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar. De qualquer forma, a televisão brasileira está aí para ratificar a questão, principalmente nos dias de hoje, com estrondosos sucessos de sua história novamente fazendo barulho.

Antes identificadas majoritariamente com a faixa do “Vale a pena ver de novo”, as reprises de novelas já haviam recebido o reforço, há uma década, do canal Viva!, na TV a cabo. Mas em 2020 a relação do público com seus antigos folhetins se tornou um fenômeno único, graças ao efeito colateral da pandemia que suspendeu a gravação dos projetos inéditos e abriu espaço para uma horda deliciosamente nostálgica de reexibições.

Só que, a reboque do revival das tramas, há também o resgate da popularidade de personagens que marcaram tais narrativas, como Ivan, jovem transexual interpretado pela atriz Carol Duarte em “A força do querer”.

De volta ao horário das nove após quatro anos de sua primeira passagem pela grade da Globo, a novela de Glória Perez vem proporcionando que o telespectador revisite a trajetória de uma personagem que projetou Carol para todo o país, logo em sua estreia na TV, aos 25 anos.

— Tenho visto a novela apesar de não ser simples reencontrar o Ivan. É como retomar memórias muito especiais, de aprendizados, amizades e encontros que ficaram na minha vida — diz a atriz. — A relação com o público foi muito intensa e surpreendente, as pessoas torciam pela felicidade dele.

Força ao debate sobre transexualidade

Depois de “A força do querer”, Carol esteve em duas novelas da Globo e viveu Eurídice Gusmão, no premiado filme “A vida invisível”, de Karim Aïnouz. Mas para além de portas, Ivan abriu principalmente o leque do debate sobre transexualidade graças a sua dura jornada de autoaceitação e superação da intolerância.

Carol reconhece que a luta do movimento trans é muito antiga e que uma novela, enquanto entretenimento, talvez não consiga mudar alguns padrões sociais tão retrógrados. No entanto, acredita no potencial que uma personagem como a dela tem para expandir o debate público e sensibilizar as pessoas.

— O Brasil mudou muito de 2017 para cá, é significativo o levante conservador por parte da nossa sociedade. Em contrapartida, nas últimas eleições tivemos muitos vereadores progressistas trans e travestis sendo eleitos — analisa. — Essa é uma resposta de outra parte, que deseja de fato mudança e novas perspectivas.

Mas muito se engana quem pensa que apenas expoentes da nova geração são impactados pelo retorno de personagens de sucesso à telinha. Considerada uma espécie de musa da quarentena em 2020, quando aproveitou o isolamento para mergulhar na produção de conteúdo para as redes sociais, Vera Fischer voltou à TV em setembro com “Laços de família”, em sua segunda passagem pelo “Vale a pena ver de novo”, desta vez com o Ibope abastecido pelo efeito pandemia, que tem mantido as pessoas mais tempo dentro de casa - a novela contabiliza média de 18,3 pontos, segundo melhor desempenho da faixa desde 2009.

Rainha das redes

Dona de 1,3 milhão de seguidores no Instagram, Vera sente que sua Helena, protagonista da trama de Manoel Carlos, hoje é tratada pelo público com mais carinho do que há 20 anos. Mesmo nos tempos atuais dos tribunais da internet.

— Ela jamais seria cancelada! Helena continua sendo um exemplo de mulher que nunca saiu da moda, nem da minha vida — defende a atriz. — O Brasil está cheio de Helenas e é por isso que eu acho a personagem tão querida. Eu sou Helena e sempre serei. Ela vai ser influente como mulher pra sempre.

A atemporalidade da personagem, segundo Vera, está estampada, por exemplo, no preconceito que Helena enfrentou por causa de sua paixão por Edu (Reynaldo Gianecchini), um homem muito mais novo. Para a atriz, a pauta continua atualíssima.

— Mulheres independentes, sexualmente ativas e que amam sem preconceitos ainda são vergonhosamente muito discriminadas — critica Vera, hoje com 69 anos. — Mulheres livres assustam a sociedade desde sempre. Agora eles não fazem mais fogueiras conosco, mas o debate ainda é necessário e fundamental.

Dialogar, aliás, tem sido um dos hobbies favoritos da atriz, especialmente com seus fãs nas redes. Seja conversando sobre “Laços de família”, lendo peças teatrais no quadro “Vera Theater”, ou encarnando a Feiticeira Escarlate numa brincadeira com a série da Disney “WandaVision”: Vera definitivamente se reinventou através do virtual.

— Sempre escrevi os textos, tirava ou escolhia as fotos e enviava tudo para a equipe que faz a gestão das minhas redes. Eu não respondia, mas lia todos os comentários pelo computador, pois até o ano passado eu não tinha celular — comenta. — Comprei um aparelho e comecei a lidar com os fãs, responder, interagir e acho que a interação está sendo muito importante pra eles e pra mim.

'Festival da Torloni'

Quem também tem visto sua relação se transformar com seus admiradores é a atriz Christiane Torloni. Especialmente após a pandemia, quando a TV foi inundada por uma série de novelas estreladas por ela: “Fina estampa”, na Globo, e “A viagem” e “Mulheres apaixonadas”, que estão sendo exibidas no Viva!. Aliás, as duas novelas ocuparam a liderança de audiência na TV paga nos dez primeiros dias de janeiro de 2021 em suas respectivas faixas de exibição.

— Um “festival da Torloni”, né? — brinca a atriz, que esperava ter um 2020 sabático, após o lançamento de seu documentário sobre a Amazônia. — Era para ser um período de descanso, mas não precisava ser tão isolada. Continuo dentro de casa e, quando saio, volto até meu apartamento de escada. Moro no 21º andar.

Além da inusitada atividade física pandêmica, Torloni vem aproveitando para exercitar a troca de afeto com seus fãs nas redes sociais, enquanto organiza um inventãrio do acervo pessoal que mantém. Entre centenas de arquivos, estão cartas enviadas por telespectadores, muitas delas da época em que viveu Diná, protagonista de “A viagem”, de Ivani Ribeiro, exibida originalmente em 1994 e já reprisada cinco vezes.

— As cartas eram as redes sociais da época. Mas tanto naquele tempo como agora a gente sente o afeto dos fãs, o carinho deles foi reinventado — diz a atriz, que prefere acompanhar os comentários sem tantas postagens por conta própria sobre as reprises. — É lindo ver a “high technology” conversando com personagens de 20 anos atrás, como a Helena, de “Mulheres apaixonadas”, ou como a Diná, que interpretei há 27 anos.

Da vilania aos memes

Mas não é só a mocinha de “A viagem” que vem surfando nas ondas da popularidade da reprise. Intérprete de Alexandre, irmão de Diná na trama, o ator Guilherme Fontes se diverte com os memes criados em torno do turbulento personagem, que se mata em certo momento da história e passa a habitar o Vale dos Suicidas, infernizando a vida dos que ficaram na Terra, entre eles Diná.

Apesar do perfil originalmente sombrio de Alexandre, o vilão foi reinventado pelas redes com humor, em situações ligadas à realidade atual do Brasil. Em um dos memes, o personagem aparece como um conselheiro que, à espreita, sopra dicas ao ouvido do presidente Jair Bolsonaro.

— A gente sabe que não é fácil, ao longo da carreira, conseguir muitos grandes trabalhos a ponto de ficar quase 30 anos no coração das pessoas — comenta o ator. — Hoje ele é um personagem transmídia, atravessado pela internet.

E já que o universo virtual reconstruiu Alexandre a ponto de ele arrancar risadas nas redes, com direito a virar conselheiro presidencial, Guilherme tem outras sugestões de novas funções para o personagem com aquela cara de mau.

— Ele poderia fiscalizar as filas de vacinação, ou ficar de olho na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados.

Outra vilã que também passou por um processo de subversão pelas redes sociais através do humor foi Paulinha, personagem de Roberta Gualda em “Mulheres apaixonadas”. Desde que a novela passou a ser exibida pelo Viva!, em agosto, a garotinha homofóbica de óculos da trama se tornou porta-voz de memes no Twitter.

Um deles, por exemplo, utiliza uma cena em que Paulinha surge no pátio do colégio para provocar o casal formado por Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli). “Já estão sabendo da novidade? Será montada, aqui na escola, a primeira versão gay de Romeu e Julieta. Serão duas mulheres! Quer dizer, mulher mais ou menos, né? Porque mulher mesmo, de verdade, mulher normal, gosta de homem, claro”, dispara a vilã, aos berros.

A situação de homofobia explícita foi adotada pelas redes sociais e adaptada aos mais diversos contextos: da política à fofoca sobre celebridades.

— Esse meme é ótimo porque a frase “Já estão sabendo da novidade?” pode se adaptar a qualquer situação no Brasil, onde todo dia estoura uma bomba nova — brinca a atriz. — É fantástico como a internet é capaz de ressignificar as coisas.

Hoje com 39 anos, Roberta acredita que Paulinha ainda desperta algum tipo de afeto no público até hoje por ser uma personagem tridimensional, complexa e com camadas, unindo a vilania cruel e a homofobia a ao ressentimento de questões pessoais mal resolvidas.

— As pessoas amavam odiar a Paulinha, e acho que ainda amam. Mas, é claro, se a personagem nascesse hoje, na era das redes sociais, precisaríamos ter cuidado e carinho extras para construí-la. Até para que ela não acabasse sendo “cancelada”.