Mulheres sofrem mais com obesidade: no país, 60% da população está acima do peso

Constança Tatsch
·4 minuto de leitura
Em 15 anos, 40% da população brasileira poderá estar obesa, taxa equivalente à dos EUA, país líder em obesidade

INFOCHPDPICT000059865792

Em 15 anos, 40% da população brasileira poderá estar obesa, taxa equivalente à dos EUA, país líder em obesidade

No ano passado, a cada quatro brasileiros com mais de 20 anos, um estava obeso. E foi nesse cenário preocupante que o novo coronavírus chegou ao país — vale lembrar que o excesso de peso é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento grave da Covid-19. A obesidade entre os jovens adultos mais que dobrou entre 2003 e 2019, passando de 12,2% da população para 26,8%.

Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde (PNE), divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, 60% da população brasileira está com sobrepeso, incluindo os grupos com excesso de peso e os obesos, de acordo com o estudo. O cálculo é baseado no Índice de Massa Corporal (IMC), feito a partir relação entre peso e altura (IMC = peso / (altura x altura)). Acima de 25kg/m2 há excesso de peso, Acima de 30 kg/m2, obesidade.

O sobrepeso atinge mais as mulheres: 62,6% estão obesas ou com excesso de peso, enquanto entre os homens o problema alcança 57,5%. Entre 2003 e 2019, a obesidade feminina passou de 14,5% para 30,2%, enquanto a masculina subiu de 9,6% para 22,8%.

Para o professor da Faculdade de Saúde Pública e coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Carlos Monteiro, com o passar dos anos, a tendência de aumento vem se acelerando.

Se projetarmos o ritmo para o futuro, com um ponto percentual por ano, em 15 anos 40% dos brasileiros serão obesos (atualmente, são 26,8%), taxa equivalente à dos Estados Unidos, país líder na obesidade.

— A alimentação tem mudado bastante. É urgente que o Brasil tenha política de promoção da alimentação saudável. Mas não basta falar para comer saudável, tem que parar com os alimentos ultraprocessados. O principal vetor é o abandono da alimentação tradicional, como arroz e feijão, por esses alimentos, que não dão saciedade, são cheios de açúcar e gordura e feitos para ser consumidos em excesso. E a indústria não quer admitir isso, porque eles são muito lucrativos, e o custo de produção é muito barato — afirma Monteiro, referindo-se a pacotes de de salgadinho, macarrão instantâneo, nuggets, bebidas adoçadas industrialmente e biscoitos recheados, entre outros.

Os jovens também sofrem com o excesso de peso e a obesidade, e, nesse grupo, mais uma vez, são as mulheres a maioria: são 19,4% pessoas na faixa dos 15 a 17 anos, afetando 22,9% das garotas e 16% dos rapazes. A obesidade ocorre em 6,7% dos adolescentes: 8% no sexo feminino e 5,4 % no masculino.

Mas é na faixa dos 40 aos 59 anos que estão os maiores índices de pessoas que estão além do peso saudável, chegando a 70%, dos quais 34,4% estão obesos.

— A obesidade é uma doença cumulativa. A pessoa vai ganhando peso ao longo da vida e, por isso, essa faixa tem maiores índices. Após os 60, os obesos morrem mais que os não obesos e isso mexe com as estatísticas, além das doenças associadas — diz Carlos Monteiro.

Já em relação às mulheres, o professor afirma que o ganho de peso acontece de forma distinta entre os sexos: a mulher tem mais gordura pelo corpo, enquanto o homem concentra na barriga, o que acaba sendo até mais perigoso para a saúde.

Isolamento ajuda a mudar os hábitos

Beatriz Libonati, de 29 anos, sempre lutou com a balança. Quando a pandemia chegou ao país, ela estava com 88 quilos. Além da obesidade, tem diabetes e, com esses dois fatores de risco, ficou preocupada. Começou a fazer o distanciamento social em março e segue trabalhando de casa, o que a ajudou a mudar hábitos, aproveitando o período para se cuidar:

— Com ajuda de uma nutricionista, consegui melhorar a alimentação. Em casa, consigo me planejar melhor, comprar comida, fazer lista de mercado. Na rua, eu tinha mais dificuldade para comer de forma saudável. Diminuí produtos prontos, cortei os industrializados, e tento ingerir mais alimentos in natura. Perdi oito quilos de março para cá.

O combate aos alimentos processados é uma das maiores bandeiras dos especialistas, assim como a disseminação de rótulos mais claros. Para a professora Inês Rugani, a rotulagem anunciada pela Anvisa é “um avanço”, mas não é suficiente:

— É preciso uma série de medidas de políticas públicas. Precisamos de uma coisa mais arrojada nos rótulos dos alimentos. E é preciso criar ambientes alimentares, escolas, empresas públicas e privadas em que não haja produtos não saudáveis. Tem outra questão que é o abastecimento das periferias em relação a alimentos saudáveis. Há bairros que não têm feiras.