'Mulheres, Vida, Liberdade': ativistas explicam lema dos protestos no Irã

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mulheres, vida, liberdade. Essas três palavras vêm sendo repetidas por manifestantes no Irã desde a morte de Mahsa Amini, em 16 de setembro. Os protestos, os maiores registrados no país do Oriente Médio em anos, têm em certa medida abalado o regime do aiatolá Ali Khamenei, cuja retórica busca minimizar a origem, a dimensão e os propósitos do movimento.

Ativistas curdos, membros da mesma minoria étnica da jovem de 22 anos que se tornou símbolo dos atos no país e fora dele, dizem à Folha que a mobilização visa, em última instância, a derrubada do regime iraniano.

"Pela primeira vez estamos vendo pessoas de todos os grupos étnicos do Irã lutando pelo mesmo objetivo", diz Alan (nome fictício), ativista pelos direitos humanos na cidade de Urmia, no noroeste do país. Ele pediu anonimato por temer se tornar alvo de retaliação.

Ainda segundo esses ativistas, o lema do movimento de rua no Irã se inspira na luta das mulheres curdas nos vizinhos Turquia, Síria e Iraque.

"A morte de Amini, infelizmente, é uma história universal", afirma Elif Sarican, antropóloga pela London School of Economics e integrante do movimento de mulheres curdas no Reino Unido. "Em vários países, pessoas morrem sob custódia da polícia devido a sua origem étnica ou racial. Por isso há tanta solidariedade internacional com os manifestantes no Irã."

Entenda o que está por trás do principal lema dos protestos, segundo os ativistas.

Mulheres Amini morreu sob custódia da polícia moral, em Teerã, após entrar em coma dias depois de ser detida. O que motivou a prisão foi supostamente ter violado a lei imposta após a Revolução Islâmica de 1979 que obriga mulheres do país a cobrir os cabelos com o hijab, o véu islâmico.

Com base em relatórios independentes que atestam golpes nas penas e em outras partes do corpo, a família acusa o braço das forças de segurança de torturar e agredir a jovem. O regime nega e diz que ela tinha condições de saúde preexistentes.

Aos gritos de "jin, jiyan, azadi" (mulheres, vida, liberdade, em curdo), uma multidão se reuniu para o enterro da jovem em sua cidade natal, Saqez, no Curdistão iraniano. Desde então, os atos se espalharam para outras partes do país, e o lema curdo passou a ser repetido também em farsi ("zan, zendegi, azadi'').

Imagens de iranianas tirando seus véus e cortando seus cabelos ganharam o mundo. Mas se engana quem pensa que as mulheres do Irã querem apenas se livrar da obrigação de usar o hijab.

"Há uma visão simplista de que os protestos são apenas por causa do véu", diz a cineasta curda iraniana Beri Shalmashi, que vive em Amsterdã. "Nós queremos a queda do regime, queremos uma democracia em que os 80 milhões de habitantes do Irã se sintam representados."

Questionada sobre até que ponto os protestos no Irã podem ser entendidos como expressão do feminismo, ela pondera: "Acredito que ele é insuficiente para explicar todas as camadas de opressão que estamos enfrentando. Esta é uma revolução multifacetada."

Muitas das manifestações, aliás, têm sido puxadas por meninas e jovens em escolas e instituições de ensino superior, algumas delas com críticas diretas a membros do regime.

Vida Se a crise econômica e restrições a liberdades fazem com que a vida no país já seja difícil para iranianos da etnia persa, majoritária, a situação é ainda pior para membros de outras comunidades, como curdos, baluchis e azeris. Essas minorias relatam serem alvos de marginalização, violência policial e encarceramento em massa.

Amini, a jovem morta que se tornou símbolo dos protestos, por exemplo, não tinha nem o direito de ser tratada pelas autoridades por seu nome curdo, Jina. Foi obrigada a se registrar como Mahsa, nome persa pelo qual ficou conhecida mundialmente.

"Queremos ser tratados como seres humanos", afirma Alan. Ele, que é curdo e judeu, diz que se sente como um cidadão de "terceira ou quarta classe".

O ativista tem compartilhado notícias sobre os protestos no Irã com o resto do mundo por meio das redes sociais, apesar do bloqueio à internet imposto pelo regime em partes do país de tempos em tempos.

As forças de segurança têm reagido às manifestações com violência. Segundo ONGs que monitoram os direitos humanos no país, já são ao menos 336 vítimas da repressão até a última sexta (11), sendo 52 delas menores. O regime cita 39 agentes mortos e cerca de 15,1 mil detenções.

O presidente iraniano, o ultraconservador Ebrahim Raisi, recentemente afirmou que as cidades do país estavam "sãs e salvas". Ele e o aiatolá Khamenei descrevem os protestos como uma tentativa fracassada dos EUA e de Israel de reeditar no Irã as revoluções da Primavera Árabe, em 2011, para desestabilizar o regime.

A cineasta Shalmashi tem recebido notícias das manifestações diretamente de amigos no Irã. "As pessoas sentem menos medo de falar no telefone do que há alguns meses. Já aceitaram que o maior risco que correm é serem mortas por protestar, então os outros perigos perdem importância."

Liberdade Segundo os ativistas ouvidos pela Folha, os protestos por justiça para Mahsa Amini marcam um processo de transformação profunda no Irã. No horizonte, veem a construção de uma sociedade democrática, em que todos os cidadãos tenham os seus direitos humanos respeitados, independentemente de seu gênero e origem étnica.

Isso não significa que queiram simplesmente copiar o estilo de vida do Ocidente. Shalmashi afirma que "é um erro tratar liberdade, modernização e ocidentalização como sinônimos".

Ela defende um modelo político descentralizado, em que os diversos grupos étnicos do Irã se organizem de maneira autônoma. O poder, hoje concentrado nas mãos de oficiais da Guarda Revolucionária e clérigos xiitas, seria compartilhado.

"A escolha que parece estar colocada para o povo do Irã é entre uma teocracia brutal ou a democracia ocidental. O movimento curdo oferece uma terceira opção: nossos princípios são a democracia radical, a ecologia e a libertação das mulheres", diz a antropóloga Sarican.

"Uma chama se acendeu no povo do Irã. Podem conquistar o que quiserem. São as pessoas que estão lá, resistindo, que devem definir o futuro do país, não o regime ou o Ocidente."