Mulheres voltam ao trabalho no aeroporto de Cabul, apesar do medo

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Um combatente talibã em frente ao aeroporto de Cabul, em 11 de setembro de 2021 (AFP/Karim SAHIB)

Quase um mês após o Talibã assumir o controle do Afeganistão, Rabia, de 35 anos, tomou uma decisão difícil: superar o medo do novo governo e voltar a trabalhar no aeroporto de Cabul.

Esta mãe de três filhos, maquiada e vestida com paletó azul, está ciente do perigo, especialmente desde o atentado suicida em frente ao aeroporto em 26 de agosto, durante a caótica retirada de estrangeiros e afegãos que queriam fugir do novo governo.

Mas, diz ela, não tem outra escolha. "Preciso de dinheiro para atender às necessidades de minha família", explica à AFP.

Desde 2010, trabalha no terminal da GAAC, empresa com sede nos Emirados Árabes Unidos que presta serviços de assistência e gestão de segurança.

"Eu estava nervosa em casa, estava com medo, não conseguia nem falar", acrescenta. "Eu me sentia muito mal. Agora me sinto melhor".

As mulheres que trabalhavam no aeroporto antes de o Talibã assumir o poder em 15 de agosto estão entre as poucas afegãs que receberam permissão dos fundamentalistas islâmicos a voltar ao trabalho. Mas das mais de 80 funcionárias que o local tinha, apenas 12 - Rabia entre elas - concordaram em retornar.

No sábado, seis delas conversavam e riam na entrada do aeroporto principal, esperando para checar os passageiros dos poucos voos domésticos.

- "Tive muito medo" -

Qudssiya Jamal, irmã de Rabia, admite que ficou "chocada" com o retorno ao poder do Talibã.

"Fiquei com muito medo", disse a mulher, mãe de cinco filhos, à AFP.

Aos 49 anos, ela sustenta a casa sozinha. "Minha família ficou com medo por mim, me disseram para não voltar [ao trabalho], mas agora estou feliz. Até agora, não houve problemas".

O Talibã prometeu respeitar os direitos das mulheres, esmagados durante seu primeiro mandato, de 1996 a 2001.

Deram um passo à frente esta semana, permitindo que as mulheres continuem a estudar na universidade, algo que antes eram proibidas de fazer.

Mas sob condições estritas: usar véu completo e em aulas separadas dos homens ou divididas por uma cortina se houver poucas meninas.

Neste domingo, uma autoridade do novo governo confirmou que serão proibidas as aulas mistas nas universidades, permitidas pelo governo deposto em meados de agosto.

Alison Davidian, representante no Afeganistão da entidade ONU Mulheres, afirmou que, embora o Talibã garanta que "os direitos das mulheres serão respeitados no âmbito do Islã [...], todos os dias recebemos relatórios que mostram retrocessos".

No aeroporto, Rabia diz que continuará trabalhando até ser forçada a parar.

O novo regime indicou que as mulheres poderão trabalhar "de acordo com os princípios do Islã", embora não tenha esclarecido o que exatamente isso significa.

"Meu sonho é ser a mulher mais rica do Afeganistão. Acho que ainda sou a mais sortuda [...] farei o que gosto até que a sorte não esteja mais do meu lado", diz Rabia.

Sua colega Zala tem um sonho completamente diferente. Esta jovem de 30 anos, que tinha aulas de francês em um instituto em Cabul, teve que desistir e ficar em casa por três semanas depois que o Talibã voltou ao poder.

"Bonjour, leve-me a Paris", desabafa, balbuciando em francês, na frente das colegas, que caem na gargalhada. "Mas hoje não. Hoje sou uma das últimas mulheres [a trabalhar] no aeroporto."

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