Multidão vai às ruas de Buenos Aires em defesa de Cristina Kirchner após atentado

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Atos que por semanas ocuparam ruas da Argentina em defesa da vice-presidente Cristina Kirchner tornaram-se nesta sexta-feira (2) uma mobilização que reúne milhares em Buenos Aires, nos arredores da Praça de Maio, em repúdio ao ataque que a peronista sofreu na véspera.

A maioria dos presentes defende a vice e já vinha se manifestando por acreditar que Cristina é alvo de perseguição judicial. Os atos desta sexta, porém, também reuniram argentinos que foram às ruas tendo como principal bandeira a crítica à violência política, escancarada no atentado à ex-presidente.

O decreto de Alberto Fernández, que transformou esta sexta em um feriado nacional em solidariedade a sua vice, também catalisou as manifestações ao favorecer o comparecimento em peso às mobilizações.

Segundo o jornal La Nación, todos os ministros do governo devem participar dos protestos. Não está claro, porém se o presidente —que vive uma disputa interna de poder com Cristina— se juntará a eles.

A manifestação principal acontece na emblemática Praça de Maio, onde desembarcaram centenas de pessoas durante a manhã, vindas de diferentes partes da capital, e para onde devem fluir as demais mobilizações espalhadas por Buenos Aires. A praça abriga não só dezenas de coletivos políticos, como também cidadãos independentes, que não pertencem a partidos ou organizações.

Palco do atentado, os arredores da casa de Cristina, no bairro da Recoleta, também foram ocupadas por seus apoiadores. Por volta das quatro da tarde, duas horas depois de o presidente Alberto Fernandez visitá-la, a política saiu de casa pela primeira vez desde a véspera. Cristina e o chefe de sua equipe de segurança entraram em um carro preto —antes do ataque, o veículo em que ela andava era branco.

Acompanhadas dos pais, crianças formam parte notável da concentração na Praça de Maio. As arquitetas de La Plata Eugenia Rodriguez Daneri, 34, e Licia Ríos, 47, por exemplo, vieram com os filhos de 12 e 6 anos.

"Viemos defender Cristina e a democracia", diz Ríos. Daneri atribui a dirigentes de direita a promoção da retórica de violência política que, na sua opinião, está por trás do atentado.

Trazer as crianças, dizem as mães, é uma forma de introduzi-las na cultura nacional e permitir que criem memórias de participação política. Sentadas no gramado em frente à Casa Rosada, a sede do governo argentino, elas descansavam ao som de batuque aguardando o início dos demais atos.

O pesquisador de ciências sociais e professor universitário Sérgio, 48, —que prefere não dizer o sobrenome— foi outro que esteve acompanhado do filho, Timotio, 8. Em um país com tradição de marchas nas ruas, esta é a primeira vez que o menino participa de uma.

Sérgio afirma que era inimaginável um atentado contra Cristina. "A Argentina sempre pode te surpreender. Mas a verdade é que isso era impensável. Nos encheu de medo. Mas o medo se combate marchando."

Para ele, o ato dá fôlego à mobilização nas ruas, em parte desacelerada durante a pandemia de Covid. A região também estava repleta de ambulantes, que vendem comidas e bebidas e também aproveitam para comercializar itens com símbolos do país.

Maximiliano Policicchio, 42, carpinteiro e músico, relata que sempre comparece aos atos para apoiar o kirchnerismo e também para vender fotografias de figuras como os Perón, Diego Maradona e os próprios Kirchner. Há três horas na Praça de Maio, já havia vendido cerca de 20 imagens, cada uma a 400 pesos (cerca de R$ 8 no câmbio paralelo).

Eduardo Luna, 69, comerciante que também se identifica com o kirchnerismo, diz que a importância de participar de manifestações do tipo é "mostrar que o povo vai apoiar o sistema democrático, mesmo com todos os defeitos que pode ter, e repudiar a violência política".

Se nas principais avenidas o movimento era intenso, com a interdição de parte da Avenida 9 de Julho a carros, as demais ruas da capital estavam com trânsito tranquilo e incomum para uma sexta-feira, após o governo decretar feriado nacional —o ato foi criticado por líderes da oposição, interpretado como uma atitude de oportunismo político.

As principais cidades do interior do país também organizaram eventos em apoio a Cristina.