Multidão agarrada em avião em Cabul é a imagem de um mundo que caducou

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População se agarra desesperadamente em aeronava dos EUA para fugir do país sob o domínio do Taleban. Foto: Reprodução/Morteza Kazemian/Twitter
População se agarra desesperadamente em aeronava dos EUA para fugir do país sob o domínio do Taleban. Foto: Reprodução/Morteza Kazemian/Twitter

Se os anos 2000 tiveram início com a explosão dos aviões contra as Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001, a segunda década do (ainda) novo século é marcada pela tentativa desesperada de parte da população afegã de se agarrar a uma aeronave da Força Aérea norte-americana após a tomada de Cabul pelo Talebã.

O avanço do grupo armado é uma espécie de eterno retorno de um século pautado pelo absurdo. Sob o pretexto de que os líderes afegãos davam abrigo para a Al Qaeda, a organização criminosa por trás do atentados de 11 de setembro, os EUA invadiram e ocuparam o Afeganistão por duas décadas. Mal viraram as costas e os líderes extremistas armados reivindicaram o vácuo deixado como sequela sob um saldo de 250 mil mortos.

Uma linha que sobrasse de racionalidade seria suficiente para qualquer indivíduo calcular o risco de se agarrar na rabeira de uma aeronave para fugir dali. 

Mas a racionalidade não entra na conta quando é a ação é pautada pelo desespero. No cálculo interno, há mais chances de sobrevivência a 14.400 metros de altura, e uma velocidade de 850 km/h, do que sob um regime de extremistas. Ao menos sete pessoas morreram no local.

Inconscientemente, os aviões em fuga se tornaram a analogia possível deste século. Ele é iniciado com explosão e chega à sua segunda década sem conseguir levar na bagagem o que prometia como esperança.

Com ares tribais, sandálias e artefatos militares, os talebans são o velho novo na praça, em uma era marcada pelo triunfo da tecnologia e o algoritmo. 

Na véspera, professores já se despediam de suas alunas mulheres. Como a realização de uma distopia também presente no Ocidente, os homens armados decidem o que fazer com o poder às custas dos corpos e das liberdades femininas.

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Como na música, o mundo explode longe e as migalhas caem também sobre a nossa Copacabana, a praia onde o luto das famílias vítimas da covid é alvo da fúria de extremistas de sunga e óculos escuros. O ódio é o vírus universal, lá e aqui.

Em 2011, eu era um estudante de cursinho no interior paulista que passou o restante daquele ano, junto com os amigos da classe, com medo do barulho dos aviões que cortavam nossa cidade. Não fazia o menor sentido que algum extremista estrangeiro elegesse como alvo nossa pequena escola da nossa pequena cidade. Mas o medo, já dissemos, é um afeto redutor de racionalidade.

Vinte anos depois, em 2021, e apesar de todos cuidados, é difícil ver as imagens no celular e na TV a salvo do olhar curioso do meu filho de oito anos, espantado com as cenas do avião em Cabul. Há um lado dele que já entende e outro que é só espanto, como herdeiro legítimo deste um século.

Curioso, ele pergunta como é possível alguém fazer o que fez aos olhos do mundo, após 20 anos de combates. Parte das respostas eu tenho. Parte omito.

Outra parte ainda é só uma pergunta amplificada. A maior delas é como fingir estar sob controle e transmitir algum tipo de segurança e esperança em um mundo atolado no desespero. Este que leva as vítimas do absurdo a se agarrarem em uma aeronave que trocará apenas a morte lenta pela morte instantânea.

Nestes tempos, a esperança é uma aeronave fechada, sob tiros e estilhaços, onde só alguns poucos se salvam.

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