Mundial de Clubes começa sem torcida estrangeira e com estádios com público reduzido

Tatiana Furtado
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Aquelas aglomerações de torcedores sul-americanos nos aeroportos e nas ruas vistas nas últimas edições do Mundial de Clubes da Fifa tornaram-se apenas lembranças de um passado recente. Nas arquibancadas, gritos e comemorações em português ou alemão não terão vez. Só em árabe. Por causa da pandemia do novo coronavírus, o torneio no Qatar será para poucos.

A competição, que seria realizada em dezembro do ano passado, foi adiada e será realizada quase num modelo de “bolha”. Os três estádios que receberão os jogos a partir desta quinta-feira —a partida de abertura será entre Tigres (MEX) e Ulsan Hyundai (COR), às 11h de Brasília —terão apenas 30% de público, todo ele de residentes do país, lotação estimada em aproximadamente 12 mil por partida.

Com o país completamente fechado a turistas e medidas rigorosas de combate à Covid-19, a Fifa e os organizadores locais do Mundial de Clubes tiveram de se adaptar à realidade imposta pela pandemia. O público reduzido e formado apenas por locais é somente uma das inúmeras restrições.

Não basta ser morador do Qatar para ir ao Ahmad Ben Ali, onde o Bayern de Munique fará sua estreia no dia 8; ao Khalifa Stadium, onde Palmeiras joga no dia 7, às 15h (de Brasília), contra o vencedor de Tigres x Ulsan; ou ao Education City, palco da final no dia 11. Os torcedores locais (que sejam residentes no país) terão de apresentar um exame de PCR negativo, realizado até 72 horas antes do jogo. Os exames podem ser feitos no local da retirada dos ingressos. A vacinação e o teste sorológico positivo também serão válidos.

Dentro do estádio, o uso de máscara será obrigatório e a recomendação é de distanciamento entre os torcedores. Nada de abraços e comemorações conjuntas na hora do gol.

Hotel bolha

Jogadores, delegações dos seis clubes e arbitragem foram liberados da quarentena obrigatória imposta a quem chega ao país. Por causa da logística e do calendário de jogos em seus países, foram dispensados. O Palmeiras, por exemplo, só confirmou sua ida ao Mundial no último sábado, e desembarcou em Doha na quarta-feira.

Os jogadores só poderão se deslocar para os estádios das partidas e os campos de treinamento. Fora isso, serão obrigados a se manter em seus hotéis, que foram transformados em bolhas sanitárias. Cada time foi hospedado em um local diferente, onde treina e só sai no dia da partida.

— Cada hotel tem 60 funcionários para trabalhar com os clubes. Todos eles ficarão confinados até o fim do Mundial. Até os motoristas das delegações ficarão confinados. Só haverá algum tipo de contato nos elevadores quando saírem para os jogos — disse o repórter da TV Globo André Hernan, que chegou a Doha no dia 28 de janeiro para a cobertura do Mundial.

Todas as medidas visam a conter o vírus cuja taxa de contágio cresceu no último mês. No final de dezembro, por exemplo, a média de casos novos no Qatar era de 176 por dia. No início de fevereiro, saltou para 375. Doha, que é a sede dos jogos, também vive um recrudescimento do coronavírus, ainda que não tenha tido mortes recentemente. Em todo o país, foram registrados apenas quatro óbitos este ano.

Monitoramento

A maior propagação do vírus não mudou os planos da Fifa para os próximos dias. Todo o acordo com as autoridades do Qatar foi mantido. Inclusive as já severas restrições para quem vem de outro país, como o Brasil. A imprensa, por exemplo, precisa de uma série de documentos para ser autorizada a entrar no Qatar. Além da credencial da Fifa, o governo concede um visto especial de trabalho e permissão para circular em Doha.

As medidas já começaram a valer ainda no Brasil. Para embarcar, era necessário apresentar um resultado negativo recente de teste PCR. Em solo qatari, toda a documentação é revista e os visitantes precisam instalar um chip de celular com número local ainda no aeroporto. Por meio de um aplicativo, com todos os dados do visitante, as autoridades sanitárias locais podem monitorar a pessoa. Já no hotel, reservado pela Fifa, uma avaliação médica é realizada antes de liberar o hóspede para o quarto. De lá, ele não pode sair até o fim da quarentena.

— Para nós, a quarentena é de sete dias (o governo local estima entre sete e 14 dias de quarentena a depender do país de origem). No sexto dia é feito um outro PCR. Se der negativo, ficamos liberados para circular. Enquanto isso, não podemos sair do quarto para nada. As refeições são entregues dentro de uma sacola plástica — conta o jornalista Tiago Leme, que viajou para o Qatar logo após a final da Libertadores, no Maracanã.

Os hotéis luxuosos do Qatar tornam a experiência do confinamento um pouco mais agradável. Porém, mesmo nas ruas, as medidas continuam valendo. Andar sem máscara é proibido e pode levar à prisão. Os carros só podem levar, no máximo, três pessoas, ou são retidos. O aplicativo de monitoramento tem de estar ligado. Só pode circular, quem está com o sinal verde. Ou seja, PCR negativo.

— Se estiver amarelo, pode ser deportado — diz Hernan, cujo período de quarentena se encerra nesta quinta-feira. — O relógio ficou um pouco mais lento esses dias.