Mundo com 8 bilhões será mais religioso, e muçulmanos colarão nos cristãos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Já somos 8 bilhões no planeta, diz a ONU. E Deus não só continua em alta como estará mais pop do que nunca quando nos aproximarmos dos 10 bilhões de humanos, algo previsto para pouco mais de 30 anos.

A questão é: que Deus será esse? Contrariando prognósticos passados, que falavam numa secularização em massa, o mundo tende a ficar ainda mais religioso, segundo projeções do Pew Research Center, organização americana que aborda questões de fé em suas pesquisas. Ficará, também, mais muçulmano.

A crença com mais afiliados ainda será a cristã, mas o islamismo crescerá mais rápido do que qualquer outra das grandes religiões globais. Até 2050, o bloco muçulmano será apenas residualmente menor do que o cristão --se arredondada a estatística, ambos terão 3 em cada 10 pessoas vivendo na Terra.

Outra consequência desse tráfego religioso será o encolhimento de um grupo que, até pouco tempo, simboliza o enfraquecimento desse arcabouço de fé, que é justamente aquele dos que não declaram nenhuma crença em particular.

Palavra-chave para entender essa dinâmica: demografia. Diretor-associado do Pew, Conrad Hackett estima que os seguidores do Corão passarão de 1,8 bilhão em 2015 para quase 3 bilhões até 2060, expandindo-se duas vezes mais rápido do que a média da população geral. "A principal razão para essa tendência é a dinâmica demográfica: os muçulmanos têm populações mais jovens e mais filhos por mulher do que qualquer outro grande grupo religioso", explica.

É o oposto do que acontece em muitos dos países mais ricos. "Uma parcela crescente de pessoas que foram criadas em uma religião está se afastando voluntariamente dela", afirma Hackett. "No entanto, menos crianças nascem dessas mulheres, limitando o crescimento global da população sem religião."

A alta fecundidade das religiosas vai garantir a alta circulação da fé em nações mais pobres. A dilatação do estrato que não se identifica com uma crença específica será retardada pela expansão populacional lenta, ou mesmo retração em alguns casos.

Esse nicho é bem plural --nele cabem ateus, agnósticos (quem não acha que há elementos suficientes para demonstrar nem que Deus existe nem que não existe) e tipos que não necessariamente descartam a prevalência de uma força superior, mas não a sistematizam numa religião.

Projeções apontam que os não religiosos minguarão na porcentagem global, mas vão aumentar em lugares como Estados Unidos e França, onde a taxa de fecundidade só não desacelera mais por conta do fluxo migratório. Em três décadas, 10% da Europa deverá ser muçulmana, por exemplo.

Nos EUA, os cristãos, que hoje representam três quartos da população, devem baixar para dois terços em 2050. O judaísmo não mais será a maior religião não cristã da nação mais rica do mundo --se os EUA vão manter esse posto até lá, são outros quinhentos. A previsão é de que muçulmanos peguem esse posto.

Como o Pew não analisa subgrupos religiosos nesse levantamento, não faz distinção entre diferentes matrizes cristãs. Mas a desidratação católica para o evangelicalismo é um fenômeno forte sobretudo na América Latina, com ecos também na África.

O apetite conversionista faz com que os pentecostais, galho mais ramoso do segmento evangélico, liderem as taxas de crescimento religioso na região. É o que acontece no Brasil, onde o catolicismo reinou quase soberano até os anos 1980, quando nove em cada dez brasileiros se reconheciam nele, mas passou a perder espaço para herdeiros da Reforma Protestante e também para pessoas sem filiação religiosa. Hoje são metade da população, numa sangria que deve perdurar mais alguns anos até ser estancada.

Não há uma estatística certeira aqui, até porque há muitos movimentos censitários desatualizados, caso do próprio Brasil. Mas crentes são ao menos 20% da região, segundo o sociólogo peruano José Luís Pérez Guadalupe, que pesquisa a ascensão evangélica nas Américas do Sul e Central. Em países como Guatemala e Honduras, o dobro disso. Por aqui, devem chegar perto dos 40% na próxima década.

Esse espichamento populacional não precisa nem sequer desbancar católicos para produzir efeitos em cadeia, diz Guadalupe. "Não é somente a porcentagem, mas a militância. O tema é quanto dessa parcela religiosa é comprometida, engajada. A grande maioria dos evangélicos na América Latina são comprometidos com sua fé, e os católicos, não. Isso é o que marca a diferença." Quantos evangélicos não praticantes existem por aí? Pois é, muito menos do que o contingente adepto do catolicismo.

Mais do que a ascensão numérica dos cristãos, "o que vivemos é visibilidade pública", afirma a guatemalteca Brenda Carranza, coordenadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp. Pastores se articularam nos últimos 30 anos para pôr os seus no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.

Aqui é preciso lembrar da Teologia do Domínio, diz Carranza. "Ela vai permitir que a direita cristã, nos anos 1970, possa ocupar lugar no Partido Republicano [nos EUA]. É extremamente conservadora, com traços fundamentalistas, e planta a ideia de que existe uma guerra espiritual em que o diabo contamina radicalmente a política, e ela tem que ser resgatada em nome de Deus."

Essa premissa de que os evangélicos têm o dever moral de restituir valores cristãos no planeta contaminou a ala religiosa do bolsonarismo. Fica escancarada quando a primeira-dama Michelle Bolsonaro diz que o Palácio do Planalto era consagrado a demônios antes da chegada do marido e agora pertence "ao Senhor Jesus".