Pandemia dispara desemprego nos EUA, e América Latina prorroga confinamento

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Uma mulher passa por um cartaz que informa que um supermercado está fechado em Arlington, Virgínia, em maio de 2020.

A pandemia do coronavírus provocou a maior taxa de desemprego em quase um século nos Estados Unidos e ofuscou nesta sexta-feira (8) o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, enquanto vários países da América Latina estenderam o confinamento para deter os contágios.

Mais de 270.000 pessoas morreram de COVID-19 desde que a doença apareceu na China em dezembro, e as restrições para impedir a propagação do vírus causaram uma forte contração na economia global.

Cerca de 20,5 milhões de empregos foram perdidos nos Estados Unidos em abril, elevando a taxa de desemprego de 4,4% para 14,7%, segundo o primeiro relatório oficial que registra o impacto do fechamento de fábricas, lojas e restaurantes.

O Canadá registrou 13% de desemprego, uma perspectiva negra que se soma à recessão anunciada para este ano na Europa.

Mas as bolsas de valores mundiais fecharam em alta com otimismo sobre a anunciada retomada da atividade econômica em vários estados americanos e países europeus.

O declínio maciço do emprego nos Estados Unidos no mês passado, embora histórico, não foi tão ruim quanto se temia e não conseguiu prejudicar a confiança do mercado.

O presidente americano, Donald Trump, que está buscando a reeleição em novembro, subestimou os dados, dizendo que não estava surpreso.

A recuperação "será impressionante", prometeu.

- Um foco na Casa Branca? -

O medo de que a Casa Branca se torne um foco infeccioso, após Trump pressionar pela reativação da economia no país, cresceu com a notícia de que a porta-voz do vice-presidente Mike Pence foi diagnosticada com coronavírus um dia depois de um assessor próximo ao presidente ter apresentado o mesmo resultado.

A secretária de imprensa de Trump disse que o presidente e Pence são examinados diariamente, embora nenhum deles use uma máscara, conforme recomendado pelas autoridades de saúde.

Os Estados Unidos, o país mais atingido pela pandemia de mortes e casos, anunciaram a aprovação do FDA de um novo teste de saliva coletado em casa para acelerar o diagnóstico da COVID-19.

Em Nova York, o epicentro do surto no país, um menino de cinco anos morreu depois de apresentar sintomas da doença de Kawasaki e da síndrome do "choque tóxico", possivelmente ligada ao coronavírus.

O estado de Nova York registrou 73 casos de crianças gravemente doentes com esses sintomas inflamatórios.

Duas em cada três pessoas nos Estados Unidos não aprovam a retomada das atividades econômicas, de acordo com uma pesquisa da ABC News / Ipsos, que indica que 57% desaprovam como Trump trata a crise.

- "Nunca se rendam" -

O novo coronavírus, que já infectou 3,8 milhões de pessoas em todo o mundo, ofuscou o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Desfiles e comemorações pela rendição da Alemanha nazista foram cancelados, embora os governantes invocassem o espírito de unidade da época.

"Queremos mais, não menos cooperação no mundo", disse o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier.

A rainha Elizabeth II apelou à esperança em um discurso transmitido na mesma hora em que seu pai, o rei George VI, falou em 1945: "Nunca desista, nunca se desespere", disse ela.

Sem citar países específicos, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, pediu um "esforço total" para acabar com a "tsunami de ódio e xenofobia" causado pela pandemia.

O chefe da ONU condenou o fato de que "migrantes e refugiados foram difamados como fonte do vírus" e lamentou a disseminação de memes "desprezíveis" que sugerem que os idosos, entre os mais vulneráveis ao vírus, também são os mais dispensáveis.

Os Estados Unidos bloquearam no Conselho de Segurança da ONU uma resolução pedindo o fim de hostilidades em zonas de conflito durante a pandemia, aparentemente devido a uma menção implícita à Organização Mundial da Saúde (OMS), que Trump acusa de má gestão da crise de saúde e de ser parcial com a China.

Washington acusou a China e a Rússia de tentar divulgar um relato falso da origem da pandemia.

Pequim disse que apoia uma revisão liderada pela OMS da resposta global ao surto, mas apenas "após o término da pandemia", à medida que a pressão aumenta para permitir uma investigação internacional sobre como o vírus surgiu.

Washington quer que Pequim permita o acesso ao laboratório de bioquímica em Wuhan, a cidade onde o vírus foi detectado e todos os dados disponíveis.

O serviço de inteligência alemão BND descreveu as teorias americanas como uma tentativa de Trump de "desviar a atenção de seus próprios erros", informou a revista Der Spiegel.

- Milão, "uma bomba" -

A Europa, onde a pandemia matou mais de 150.000 vidas, está se preparando para um abrandamento gradual do confinamento, com a reabertura das praias de Barcelona, na Espanha, e planeja relaxar as medidas na França.

No entanto, apenas dois dias após o início de um retorno progressivo à vida normal, um cantão na Alemanha teve que reimpor medidas restritivas, enquanto outros dois estão pensando em fazer o mesmo, diante de um novo aumento de infecções.

Massimo Galli, um renomado virologista de Milão, alertou que a cidade é "quase uma bomba" em relação ao vírus, correndo o risco de explodir agora que os moradores podem se mover livremente.

"Seremos muito, muito cautelosos", disse George Eustice, secretário de meio ambiente do Reino Unido, onde foi relatada a morte de um bebê de seis semanas.

A Comissão Europeia propôs que os países do bloco estendessem o fechamento da fronteira comum até 15 de junho para evitar uma recuperação nos casos.

- Recorde no Brasil -

A América Latina e Caribe, onde se acredita que o pico de infecções ainda não foi atingido, registram mais de 324.000 casos e mais de 17.500 mortes, segundo um levantamento da AFP.

O Brasil, o país mais afetado da região, registrou 751 mortes nas últimas 24 horas, totalizando quase 10.017 falecimentos e de 146.894 infecções, embora os especialistas calculem um número 15 vezes maior devido à falta de testes.

O epicentro do surto é na cidade de São Paulo, onde a quarentena parcial foi prorrogada até 31 de maio.

O Peru, o segundo país latino-americano com o maior número de infecções, também estendeu o confinamento nacional que expira no domingo por duas semanas.

E na Argentina, o isolamento social obrigatório continuará até 24 de maio em Buenos Aires e em sua periferia populosa, mas o resto do país fará uma reabertura progressiva.

No México, com quase 3.000 mortes e quase 30.000 infecções, as autoridades federais e da capital negaram ter retido dados, depois que o jornal americano The New York Times e o espanhol El País garantiram que o número de mortes e casos seja significativamente superior ao que dizem os números oficiais.

A pandemia de coronavírus terá repercussões devastadoras no mercado de trabalho e agravará a desigualdade na América Latina, de acordo com um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em conjunto com a Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.