Especialista dos EUA alerta contra desconfinamento à medida que mais países voltam ao normal

O presidente Jair Bolsonaro em uma cerimônia de hasteamento da bandeira no Palácio da Alvorada, em Brasília, em 12 de maio de 2020

O principal consultor médico do presidente dos Estados Unidos alertou contra o desconfinamento precoce nesta terça-feira, quando vários países, incluindo Rússia e Índia, se uniram aos primeiros passos para voltar à normalidade após a pandemia de coronavírus.

Anthony Fauci, um epidemiologista de renome que assessora o governo de Donald Trump, alertou em uma audiência no Senado americano sobre "sérias consequências" de um desconfinamento muito rápido em algumas partes do país.

"Isso paradoxalmente nos faria retroceder, acrescentando mais sofrimento e mortes evitáveis", afirmou o médico em um momento em que seu país registra o maior número de falecimentos pela COVID-19, com cerca de 83.000 óbitos, entre os mais de 290.000 falecimentos no mundo.

A posição do especialista está em contradição direta com o desejo de Trump de retomar a atividade econômica o mais rápido possível, depois que o confinamento gerou uma contração do PIB e um aumento do desemprego para 14,7%, um duro golpe para sua campanha em busca da reeleição em novembro.

A opinião de Fauci está em sintonia com a Organização Mundial de Saúde (OMS), que pediu na segunda-feira "ser extremamente vigilante" para evitar uma segunda onda de vírus para o qual não há vacina.

Um dia depois que a França e a Espanha relaxaram as medidas de isolamento após dois meses, nesta terça-feira voltaram a funcionar creches e escolas francesas, com medidas de distanciamento e a obrigação de os professores usarem uma máscara.

A Rússia aderiu ao levantamento das restrições, apesar de ter mais de 232.000 casos confirmados e ficar atrás dos Estados Unidos na lista dos países com os mais casos positivos da doença.

Nesta terça-feira, salões de cabeleireiros e parques reabriram dependendo das capacidades sanitárias de cada região, mas Moscou, o maior foco da epidemia com mais de 121.000 casos, estendeu o confinamento até 31 de maio.

A Espanha, um dos países mais afetados pela pandemia, com mais de 26.000 mortes, decretou uma quarentena para todos os viajantes do exterior, restringindo também as chegadas dos países da área de livre circulação europeia de Schengen.

Até agora, a pandemia matou pelo menos 290.477 pessoas e contaminou mais de quatro milhões em 195 países e territórios, de acordo com o último relatório da AFP a partir de fontes oficiais.

Após os Estados Unidos, os países mais afetados são o Reino Unido (32.692 mortes), Itália (31.910 falecimentos) e Espanha e França, ambos com mais de 26.900 óbitos.

- Salário de emergência para a América Latina -

Diante de uma recessão global sem precedentes, vários países buscam um equilíbrio entre medidas sanitárias e o renascimento da economia.

Nesse contexto de crise, a União Europeia busca uma trégua comercial com os Estados Unidos enquanto durar essa emergência.

O Peru tentará reativar o turismo, permitindo a entrada gratuita em reservas naturais e sítios arqueológicos, incluindo a cidadela inca de Machu Picchu, a funcionários públicos, crianças e idosos do país a partir de julho.

Para contornar a crise, a América Latina, um continente onde o emprego informal agrava a crise, a Cepal propôs o pagamento de um auxílio emergencial de 143 dólares por seis meses a 215 milhões de latino-americanos pobres.

"Se ficarmos em casa, o que vamos comer?", perguntou Cintia Suaya Zelaya, 24 anos, de Honduras, à AFP. Tanto ela como o marido, Obdulio García, saem às ruas de Tegucigalpa todos os dias para pedir dinheiro, depois que ele perdeu o emprego como cobrador de ônibus quando o transporte parou de funcionar devido ao toque de recolher.

Com 12.461 das 20.000 mortes causadas pelo vírus na região, a situação do Brasil é acompanhada com "preocupação" pela Organização Pan-Americana da Saúde.

Em número de óbitos, o gigante sul-americano está muito à frente do segundo e terceiro países mais afetados: México (3.573 falecimentos) e Equador (2.327).

A OPAS disse que os sistemas de saúde do Rio de Janeiro e Lima estão "no limite".

Nesse contexto, a Colômbia anunciou que aumentaria a presença militar na região amazônica que faz fronteira com o Brasil e o Peru, e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou que estenderá o estado de "alarme" por mais 30 dias, prolongando a quarentena.

- Sanções contra a China -

A crise econômica global e a busca para aliviar os cidadãos se tornaram uma questão global.

Nos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes, controlada pelos democratas, introduziu um novo pacote de três bilhões de dólares para ajudar as famílias a lidar com pagamentos de hipotecas e aluguéis, que se une a outros planos de estímulo já aprovados de quase três trilhões de dólares.

Esse movimento encontrou oposição direta dos republicanos, que defendem a imposição de sanções à China por não ter sido transparente sobre a epidemia que começou em Wuhan em dezembro.

O retorno à normalidade está longe ainda nos Estados Unidos, o que fica claro com o anúncio de que os teatros de rua da Broadway em Nova York só poderão abrir em setembro, e quando a cidade de Los Angeles, no outro extremo do país, informa que pretende prolongar algumas medidas de confinamento até julho.

Na Índia, cerca de trinta trens de passageiros (uma pequena parte do tráfego no horário normal) começaram a circular novamente entre Nova Délhi e algumas grandes cidades, com passageiros obrigados a usar máscaras faciais, passar por verificações de controle de temperatura e uma proibição de viagem em caso de sintomas.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, anunciou um plano de estímulo de 250 bilhões dólares para lidar com a desaceleração da economia.

- Um balanço mais alto do que o esperado -

Na cidade chinesa de Wuhan, epicentro da epidemia, as autoridades voltaram a realizar testes em seus cerca de 11 milhões de habitantes, após o surgimento de um novo surto de COVID-19, informaram vários meios de comunicação nesta terça.

Nesta terça-feira, Fauci alertou que o número de mortos pode ser maior do que os números oficiais, citando como exemplo Nova York, onde pode haver casos de pessoas que morreram de coronavírus em suas casas, devido à saturação dos serviços de saúde.

A falta de testes laboratoriais significa que em quase todos os lugares os balanços estão incompletos.

Segundo um estudo, o vírus já estava circulando no Brasil no início de fevereiro, antes do carnaval e do anúncio oficial do primeiro caso.

Enquanto isso, o museu de Londres está projetando uma reflexão sobre como esse período da história será lembrado, e por isso começou a coletar objetos que possam explicar a vida cotidiana durante a pandemia, de chinelos para andar em casa a agulhas para tricotar e passar o tempo.