Mundo não trata pobres e indígenas como humanos, diz Lula na COP

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, participou nesta quinta-feira de uma reunião com representantes de povos indígenas e originários de todas as regiões do mundo — encontro que, segundo o petista, "foi um dos mais importantes de sua vida". Comprometendo-se a respeitar os direitos dos povos e a representá-los, Lula disse que o mundo "não trata pobres e indígenas como humanos", durante seu segundo dia de agendas públicas na COP27, a conferência climática da ONU que acontece no Egito.

O presidente eleito participou de um encontro do Fórum Internacional dos Povos Indígenas e do Fórum dos Povos sobre Mudança Climática, com lideranças de África, Ásia, Ártico, Pacífico, Europa e das Américas — além de lideranças indígenas brasileiras. Segundo Lula, que já havia anunciado a criação de um inédito Ministério dos Povos Originários, é "preciso mudar a lógica sobre o mundo" e dar mais atenção aos mais pobres e aos indígenas:

— Precisamos mudar um pouco nossa compreensão do mundo. Quem governa olha o mundo com uma lógica totalmente diferente da de vocês. No fundo, pobres e indígenas não são tratados como humanos, mas como se fossem números. Não são levados em conta quando se faz o Orçamento do país — afirmou Lula, aplaudido em vários momentos. — Às vezes parece que os indígenas fazem um favor à supremacia branca de existir.

O petista esteve ao lado de três das principais lideranças políticas indígenas do país: as deputadas federais eleitas Sonia Guajajara (Psol-SP) e Célia Xakriabá (Psol-MG), além da deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR). O trio entrou na sala do centro de convenções junto com Lula, cantando. A futura primeira-dama, Rosângela Silva, também estava presente, assim como a ex-ministra do Meio Ambiente e deputada federal eleita Marina Silva (Rede-SP).

Guajajara, nome mais cotado para assumir a pasta dos Povos Originários, fez um balanço dos reveses dos últimos anos, denunciando retrocessos sob o comando do governo atual. Já Wapichana afirmou que a "boiada, a tratorada não passou muitas vezes devido à mobilização dos povos indígenas", agradecendo pela inclusão do grupo nos trabalhos do governo de transição.

Ao grupo, o petista disse que "nunca participou de uma reunião que me transferisse tanta responsabilidade", reconhecendo que não tem representatividade ou conhecimento profundo sobre a realidade de todos os presentes. Disse, ainda assim, que durante os encontros multilaterais dos quais participou nos seus dois primeiros mandatos, os problemas cotidianos da sociedade raramente estavam em pauta.

— Quero dizer para vocês do meu orgulho de estar nesta reunião. Já participei de muita reunião, com príncipe, com rainha, com presidente de todo país do mundo, mas nunca fiz uma reunião tão significativa quanto essa de hoje— disse o presidente eleito. — Sou um grão de areia na importância que vocês têm para o mundo e para a importância de vocês. Um grão de areia sozinho não faz nada, mas milhões de grãos fazem uma praia — completou Lula, afirmando também que "não foram os indígenas que invadiram nada, foram os brancos que invadiram as terras indígenas".

Quando os líderes de países ricos se reúnem, afirmou Lula, grupos como povos indígenas, negros e pobres "não existem", já que o assunto "não é levado para a mesa de discussão". O presidente eleito reiterou sua promessa de fazer no ano que vem uma cúpula com os países da Amazônia e sua demanda para que os países ricos ajudem no financiamento de preservação:

— O que queremos saber é quanto vão nos pagar para cuidar do planeta Terra — disse Lula, ressaltando a importância dos povos indígenas para a preservação.

Em suas falas, as lideranças indígenas ressaltaram sua esperança de que o novo presidente dê uma guinada na política ambiental brasileira e tenha maior compromisso com os povos indígenas. Vários deles, como Terry Teegee, representante dos Povos Indígenas da América do Norte, pediram que o presidente se comprometa com questões como mais recursos para mitigação, adaptação e perdas e danos provocadas pelas mudanças climáticas.

— O mundo está esperando Lula, muitos estão esperando Lula. E aqui está Lula — disse Harol Ipuchima, representante dos Povos Indígenas da América Latina e Caribe. — Acompanhamos seu sofrimento na prisão (...) agora o mundo quer ouvir sua comunicação direta com os povos indígenas, sua proposta de mudar este mundo ao lado dos povos indígenas. Viva Lula!".

O petista disse que espera usar seu terceiro ato no Planalto para fazer coisas que não fez antes — o objetivo, disse ele, é "fazer com que o Brasil possa servir de exemplo de uma política de parceria" em que o grupo não seja tratado como uma categoria de segunda classe.

— Assumir o compromisso de representar os povos indígenas é algo para a qual eu não tenho tamanho, mas tenho vontade e tenho compromisso — disse o petista, lembrando de conquistas durante seus primeiros anos no governo. — O meu país é muito grande, tem 215 milhões de habitantes. Quando o Brasil foi descoberto, dizem os historiadores, havia 5 milhões de indígenas. Hoje o Brasil tem apenas 817 mil indígenas e 305 etnias.

Lula disse que deseja que os povos originários façam parte da governança do país, motivo pelo qual criará a nova pasta e promete uma saúde pública especial para o grupo. Também levantou a hipótese de que a Fundação Nacional do Índio (Funai) seja dirigida por um homem ou mulher indígenas — algo importante, afirmou, para mudar a compreensão e para que os indígenas não sejam vistos "como um estorvo" para o desenvolvimento econômico.

Lembrando que "não temos dois planetas Terra, temos apenas um", Lula fez uma crítica a "meia dúzia de pessoas ricas" que gastam dinheiro lançando programas espaciais "talvez porque achem que a Terra não é mais compatível com a quantidade de dinheiro que eles têm. Parte deste dinheiro, disse o petista, poderia ser investido no desenvolvimento e na preservação

— Quantos trilhões de dólares são gastos com a guerra? Quantos trilhões de dólares são gastos com armas? Quanta gente morre desnecessariamente? — indagou o petista.

Lula fez ainda uma menção ao governo atual, afirmando que "nosso país foi quase destruído em quatro anos" e que "quase tudo de política social construído em 13 anos" foi por água abaixo. A reconstrução disse ele, deve ser "sem ódio, sem rancor, e sem vingança contra ninguém".

Ao fim de sua fala, Lula recebeu bênçãos e tirou fotos com os representantes. Gritos de "sangue indígena nenhuma gota a mais" e "Lula lá lá" também foram ecoados, assim como pedidos de demarcação já.